Ghost BC no Rock in Rio incomodou a Igreja Católica, mas faltou competência para criticar

Estadão

27 Setembro 2013 | 06h40

Marcelo Moreira

Falta de informação e incompetência são marcas registradas de boa parte dos chamados “pensadores” católicos da atualidade, em especial no Brasil. A banda sueca Ghost BC fez shows no Brasil na semana passada, no Rock in Rio e também, em São Paulo, abrindo para o “blasfemo” Slayer (cujo vocalista e baixista, Tom Araya, é cristão e católico praticante) e para o “satânico” Iron Maiden. Não foram apresentações marcantes – no máximo, um pouco acima da média. Queridinhos do metal mundial, os integrantes se vestem como monges e religiosos, e o vocalista, Papa Emeritus II, tenta parecer um bispo no palco. Tudo para acentuar letras fortes e de crítica ás religiões em geral, entre outros temas polêmicos.

É claro que a imagem do Ghost BC e de seus integrantes iria enfurecer padres e bispos da Igreja Católica – e ainda bem que isso aconteceu, porque a intenção era essa mesmo. Que apareceriam protestos estúpidos e vazios era esperado, mas espanta que alguns cidadãos integrantes deste grupo imenso e amorfo chamado Igreja Católica sequer tenham tido o cuidado de se informar a respeito do que se tratava em relação ao grupo sueco de heavy metal.

Não foram muitas as manifestações de protesto contra a apresentação do Ghost BC no Rock in Rio. Quase nenhuma repercutiu além das paredes de suas igrejas. O que chama a atenção é a preguiça e o nível de desinformação que predominou nos parcos manifestos contra o “satanismo” dos suecos. E pensar que o Slayer, que é mais extremo do que o Ghost BC, foi deixado de lado – provavelmente por pura desinformação também.

A banda no Rock in Rio (FOTO: ESTADÃO CONTEÚDO)

Um dos textos mais hilários e ridículos que circulou na internet é de autoria de um cidadão que se intitula Dom Adair José Guimarães, bispo diocesano de Rubiataba (GO), publicado em um site igualmente hilário chamado Frates in Unum.com. “Depois das cenas de culto ao demônio no Rock In Rio de ontem [19 de setembro], ficamos a imaginar até que ponto chega a criatura humana na sua degradação espiritual e renúncia à imagem de Deus que ostentamos em nós”, escreve o religioso. “É assustador o crescimento do culto satânico em nossos tempos que produz o caminho inverso no coração da pessoa humana.Há muito tenho alertado nossos jovens do perigo de se contaminarem espiritualmente com este mundo tenebroso de certas bandas de rock que fazem apologia ao satanismo e o praticam de forma ostensiva como vimos na festa do rock no Rio de Janeiro.”

Esse cidadão sequer se deu ao trabalho de se informar sobre a banda Ghost BC e suas letras. Não quis fazer uma pesquisa básica de cinco minutos na internet. a preguiça foi tamanha que não quis nem mesmo perguntar a algum coroinha que soubesse usar a internet. Bastou ver as fotos e imagens do vocalista Papa Emeritus II e escutar meia dúzia de asneiras de fanáticos religiosos e tecer comentários estapafúrdios sobre o “satanismo” do Ghost BC. Se o tal bispo se dispusesse a ler as letras do Slayer, será que teria um colapso nervoso então?

“Quanto mal o rock satânico faz aos nossos jovens que, na falta de discernimento espiritual, acabam mergulhando nesse fosso. É fácil entrar, o difícil é sair e voltar à saúde espiritual de antes. Infelizmente muita gente que está nisso nunca conheceu a luz de Deus. Esses satânicos são afigurados à covardia de quem eles servem. Abusam e escarnecem da Igreja Católica, dos nossos símbolos e das pessoas consagradas. Trata-se de um deboche que nos dói a alma, nos machuca nossa estima de pessoas de fé, pois desejamos a salvação dos jovens e nos custa ver a destruição de tantos que se tornaram presas do mal”, continua o bispo goiano.

Assim como as seitas evangélicas, a Igreja Católica é incapaz de aceitar a diversidade, a oposição e críticas. Trata de medir e avaliar o mundo apenas pela sua doutrina, e apenas por ela, e despreza todo o restante da humanidade que pensa diferente. Não se conforma com o fato de que parcela expressiva da juventude, desde os anos 70, faz questão de ignorar e atropelar qualquer dogma e preceito religioso originado de qualquer religião.

As letras da banda Ghost BC são bastante críticas à religião, em especial ao cristianismo e à Igreja Católica, que acaba se tornando um alvo que na verdade são todas as religiões, paralisadas e amarradas por seus dogmas e regras esdrúxulas e restritivas, sempre em oposição à liberdade de comportamento e pensamento.

Há referências ao satanismo nas letras do Ghost BC? Sim, em quatro ou cinco músicas de sues dois álbuns. É uma banda satanista? Não, bem longe disso, assim como o Iron Maiden não é, embora tenha duas ou três músicas que tratem do assunto, sendo uma delas a clássica “The Number fo the Beast”.

A falta de credibilidade de tais “fontes” é tamanha que nem mesmo entre os católicos a coisa prosperou, exceto em alguns sites mantidos por fanáticos e crentes empedernidos. E não basta a ascensão ao trono de um papa um pouquinho mais inteligente e esclarecido para acabar com as trevas no cérebro dessa gente medieval. Não basta reunir milhões de pessoas em uma Jornada Mundial da Juventude e continuar disseminando conceitos e pensamentos do século XIV. Se a cúpula de tal igreja sequer tem capacidade para se informar sobre o que acontece em um dos maiores eventos culturais do mundo, qual a credibilidade que tem para fazer qualquer crítica a quem quer que seja?

Para constar: um dos Nameless Ghouls, músico integrante da banda, foi entrevistado pelo repórter Jotabê Medeiros um pouco antes da apresentação do Ghost BC no Rock in Rio e deu a seguinte declaração: ““Nosso principal inimigo são as religiões lineares. Elas são três, essencialmente: católica, judaica e muçulmana. Mas, como fui criado na Europa, como cristão, sei o peso que tem uma escolha estática religiosa. Não sou judeu, não sou muçulmano, então também essa é a explicação pela qual o alvo é a religião católica. Das três religiões, é a que tem uma tradição muito forte, seus dogmas são claros e bem documentados, assim como as blasfêmias. Mas é preciso lembrar que, no fim das contas, o que fazemos é entretenimento”, disse Nameless Ghoul. “Algumas músicas tem um conteúdo que, até certo ponto, contém elementos que podem ser associados ao satanismo, o que levou a perseguições de grupos religiosos e da própria Igreja Católica na Europa. Satanistas? Somos apenas críticos ferrenhos das religiões.”

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