Galeria do Rock, novo ponto turístico de São Paulo

Estadão

14 Julho 2012 | 06h58

Marcelo Moreira

Quando as primeiras lojas abriram, entre 9h30 e 10h, já havia muita gente na calçada e nos corredores esperando com certa ansiedade. Muita gente vestia camisetas, blusas e calças pretas, mas um pessoal bem mais jovem preferiu roupas coloridas, mas sem espalhafato. “É minha primeira vez na Galeria do Rock, tem de ser um dia especial”, afirmou uma garota alta, com piercing no nariz e nas orelhas. Camila Silva tem 14 anos e ganhou de presente do pai, Roberto, um dia em São Paulo. “Saí de Araraquara às 6h para não perder um minuto.”

O Dia Internacional do Rock consolidou o centro musical de compras da região central como o ponto turístico mais variado e “cosmopolita” da capital para o público jovem. O fenômeno começou há cerca de cinco anos, mas os próprios lojistas se surpreenderam com a presença grande de forasteiros. “Muita molecada hoje aqui, o que é ótimo, e uma variedade interessante de sotaques. Nunca vi isso”, disse o lojista Moacir Febraio, da Aqualung, que resiste vendendo CDs, DVDs e camisetas.

Camila Silva estava pontualmente às 10h na entrada da Avenida São João, da Galeria do Rock. Ao lado do pai Roberto, ficou maravilhada com a diversidade do público e com a variedade musical. “Eu baixo músicas, mas não imaginava que houvesse tanta loja de CDs ainda. Aqui tem coisas que não se acha na internet”, disse a metaleira iniciante, para orgulho do pai.

Carlos Eduardo Martinez é bancário em São José dos Pinhais (PR) e está em São Paulo fazendo um curso de uma semana de informática. Na tarde de ontem, “deu o cano” nas últimas aulas para gastar R$ 200 em CDs e DVDs de rock progressivo. “Não acreditei que estaria em São Paulo neste 13 de julho. Visitei só uma vez a Galeria do Rock, há muito tempo. Fiz questão de passar a tarde aqui.”

Pelo menos duas emissoras de TV passaram o dia gravando imagens e depoimentos, o que encantou ainda mais os visitantes de fora. Ao menos três “pocket shows” ocorreram à tarde, nos formatos acústico e à capella (só voz).
“Isso aqui transborda cultura, conheci tanta gente interessante e de bom astral que pretendo vir pelo menos uma vez a cada dois meses, seja para comprar ou para conversar”, afirmou empolgado João Pedro Nunes Reis, estudante de 16 anos de Bragança Paulista, todo contente com a camiseta preta dos Ramones recém-adquirida e imediatamente vestida.

Em dia especial, o público improvisou pequenas apresentações acústicas para comemorar o Dia do Rock (FOTO: CRIS FAGA)

Os puristas estão detestando, mas o projeto do administrador do local, o também lojista Antonio de Souza Neto, está dando certo. A Galeria do Rock virou um centro cultural ainda lastreado na música, mas que atrai as mais diversas manifestações e tribos urbanas. Está mais aberta e mais diversificada. “É a tendência, não tem jeito, estamos atraindo gente que tem um outro tipo de relação com a música e a cultura, e isso não é ruim, pelo contrário”, diz Souza.

Para quem ainda vende música no formato físico, as mudanças incomodam, mas este pessoal está resignado. Ficaram felizes com o movimento grande e inesperado de ontem, e venderam bem. Algumas lojas de CDs e DVDs conseguiram faturar três vezes mais do que em um dia de semana normal, quase atingindo o nível do sábado, o melhor dia comercial do local.

O número de estabelecimentos que vivem exclusivamente de música diminuiu quase à metade nos últimos dez anos. No auge, nos anos 1990, havia ali cerca de 140 lojas de música. Hoje, são pouco mais de 50, com a tendência de diminuição a médio prazo.

“A Galeria já está virando um ponto de comércio musical específico, para colecionadores ou apreciadores que procuram coisas pouco comuns e raridades. Vai sobreviver quem conseguir atender esse público”, define Dionísio Febraio, sócio da Aqualung.

 

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