Galeria do rock lado 'B'

Estadão

29 de outubro de 2010 | 15h00

Marcelo Moreira

Uma feira itinerante de compra, venda e troca de LPs e CDs e jam sessions com músicos famosos uma vez por mês regadas a cerveja gelada. Essas são as primeiras atividades do “instituto cultural informal” formado pelas lojas da Rua Alta da Galeria Nova Barão, no centro de São Paulo.

Enquanto a famosa Galeria do Rock foi “personagem” da novela Tempos Modernos, da TV Globo, e acentua cada vez mais a sua nova vocação de shopping center de novas tendências de comportamento e moda, as 11 lojas de vinis e CDs da Nova Barão começam a se movimentar para transformar o seu espaço na alternativa para os órfãos do rock tradicional.

A ideia da criação de um instituto cultural na Rua Alta não é nova e pode sair formalmente até o final de 2010. Enquanto isso, o casal Kátia Pimentel e Carlos Suárez, da Big Papa Records, e os irmão Cláudio e Márcio Morais, da Art Rock, lideram o movimento para atrair os amantes de música descontentes dos rumos que a Galeria do Rock original, entre as ruas 24 de Maio e São João, tomou em direção ao mundo fashion.

“Fui o primeiro a chegar aqui, há dez anos, e mantenho a loja como um ponto de encontro de amigos que gostam de ouvir um bom rock e tomar cerveja”, diz Cláudio Morais, engenheiro químico psico-pedagogo que toca a Art Rock com irmão Márcio, jornalista e professor. “Em que outro lugar é possível juntar gente legal, com bom gosto, tomar cerveja e ouvir rock progressivo?”

Cláudio (esq.) e Márcio Morais, proprietários da loja Art Rock

Já Kátia e o norte-americano Suárez, da Big Papa, são os mentores do projeto em si do instituto cultural e os coordenadores da primeira feira itinerante de troca, compra e venda de LPs de São Paulo. Eles ainda promovem sessões de música no interior da loja, que vende gravuras e pinturas de artistas sem espaço para expor seus trabalhos.

Migração

As 11 lojas do bulevar da Rua Alta devem se tornar 13 até o meio do ano. Lojistas tradicionais da Galeria do Rock têm espaços reservados no local, já prevendo a possível decadência da venda de música no tradicional reduto de roqueiros da cidade.

É o caso dos sócios Fausto Mucin e André Mesquita, da Die Hard, especializada em heavy metal e rock clássico. Os dois já compraram uma loja na Nova Barão. “O público atual não tem o mesmo apreço pela música e se contenta com arquivos simples de áudio no computador. E esse é o público atual da Galeria do Rock”, diz Mucin, que não tem data para migrar. “Enquanto der, vamos ficando, mas uma hora teremos de tomar uma decisão. O aluguel na Nova Barão é um terço do que pagamos hoje aqui. Quando o consumo de música for se tornar uma coisa ‘cult’ deveremos ir para lá.”

Embora predominem as lojas especializadas em rock e em venda de vinis, o conceito cultural é mais amplo – pelo menos essa é a ambição de quem trabalha ali. A Big Papa, por exemplo, tem um acervo bastante interessante de CDs e LPs de jazz e música brasileira em geral, atraindo aficionados estrangeiros, como a estudante canadense Sarah Anton, frequentadora assídua das lojas e fã de Gal Costa e Maria Betânia.

“Venho pelo menos duas vezes por mês aqui e sempre encontro o que quero. Agora sou ‘sócio’ da Art Rock”, brinca Celso Capanema, consultor em tecnologia. Ricardo “Cachorrão” Flávio é outro que adora passar tardes de sábado passando por todas as lojas. “Conheço pessoas diferentes, ouço boa música, ensino meu filho a escutar coisa boa e me divirto tomando cerveja. Bom demais.”

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