Galeria do Rock: espaço é de todos, para celebrar a diferença

Estadão

24 de agosto de 2012 | 12h00

O texto abaixo foi publicado em 13 de julho de 2004 n o Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo. Luiz Carlos Merten é um dos críticos de cinema mais respeitados do Brasil, assim um repórter antenado em todos os segmentos culturais. A publicação no Combate rock se justifica por ser um dos mais interessantes – e definitivo – sobre a importância cultural da Galeria do Rock para a cidade de São Paulo. É bem pertinente diante de uma mudança significativa de perfil e orientação econômico-comercial do espaço, ao memso tempo em que ganha cada vez mais status de ponto turístico paulistano importante. (Marcelo Moreira) 

LUIZ CARLOS MERTEN 

Nova York tem a Estátua da Liberdade; Paris, a Torre Eiffel; Brasília, o  Palácio do Planalto; e o Rio, o Cristo Redentor. São Paulo tem a Galeria do  Rock, o maior centro comercial de cultura alternativa do mundo. Duvida?

É  porque você nunca passou pelo conjunto de 450 salas encravado no centro de  São Paulo, com entradas pela Av. São João, onde fica espremido entre um  decadente cinema pornô e o novo centro cultural que a Prefeitura de São  Paulo, se tivesse cumprido o cronograma, já teria inaugurado; e a Rua 24 de  Maio, entre lojas da C&A e das Casas Bahia.

O nome é Grandes Galerias, mas  se você perguntar, mesmo ali em frente, é capaz que ninguém saiba explicar  onde fica. Porque As Grandes Galerias, para todos os efeitos, formam a  Galeria do Rock.  Hoje – 13 de julho – é dia do rock. Todo dia é dia de rock nas Grandes  Galerias, corrige Antônio Souza Neto, síndico – desde 1993 – do conjunto. 

Nestes 11 anos, num paciente trabalho que não é só dele, mas da comunidade  inteira, consolidou-se um projeto – a Galeria do Rock é hoje, realmente, um  centro de cultura alternativa cuja fama ultrapassa as fronteiras do Brasil.  “Vem gente até do exterior nos visitar”, conta Toninho, como é conhecido. 

 Ele conversa com o repórter do Estado no sábado à tarde. A Galeria do Rock  está fervilhando. Ela é aberta, todos os dias, às 9 horas, mas até às 10  horas funciona quase que exclusivamente como passagem. Poucas são as lojas  que abrem nesse horário.

Em dia especial, o público improvisou pequenas apresentações acústicas para comemorar o Dia do Rock, em 13 de julho de 2012 (FOTO: CRIS FAGA)

O comércio, mesmo, começa a funcionar a partir das  10, tem um pico entre 12 e 14 horas e, depois, ocorre uma coisa curiosa – o  público da galeria vai mudando, principalmente se o dia é sábado. “Durante a semana, temos um público diferenciado. Vem muita madame de carro,  muito motorista traz os filhos de políticos e grandes empresários que querem  fazer compras ou, simplesmente, visitar a galeria . Eles vêm nos dias mais  tranqüilos. No sábado, a periferia toma conta.”

Toninho se entusiasma  falando da galeria , vamos logo colocando o possessivo – da ‘sua’ galeria,  pois ele tem sido a alma da Galeria do Rock nos últimos 11 anos. Ela já era  chamada assim, mas o nome pegou quando a revista Veja São Paulo dedicou uma  capa ao fenômeno. Já era um fenômeno, um ponto de encontro de diversas  tribos, de diversos tipos de comércio, de diversas culturas. Mas não foi  fácil esculpir esse modelo de galeria .

“O síndico anterior era um delegado que tolerava todo tipo de baderna aqui dentro. Era local de assaltos, as  pessoas se drogavam nos corredores. Criamos uma associação – o Instituto  Cultural Galeria do Rock – para expulsá-lo e começamos o trabalho de  recuperação. Hoje, a galeria é segura e você não vê drogas aqui dentro.”

Famílias

Vê gente jovem e bonita, de várias etnias, vê famílias inteiras  que circulam pelos corredores, olhando, comprando. Os Landgrafs são a prova  de que família que vai à Galeria do Rock unida permanece unida. São o pai, a  mãe, três filhos pré-adolescentes (um par de gêmeos), uma menininha e o  filho mais velho, do primeiro casamento dela. Foi esse último que arrastou a  família para a Galeria do Rock.

“Gosto muito de vir aqui. Me sinto mais  jovem”, ele diz, como se não tivesse só 30 anos. Os irmãos estão formando  uma banda de rock. De garagem? “Rock pauleira, heavy metal”, define um dos  gêmeos.

A mãe é a estranha no ninho neste universo. Olha tudo com assombro,  diz que não é roqueira. Ana, que também veio fazer compras neste sábado, é  roqueira assumida, diz o namorado dela, Milanesi. Ana é de Bauru, ele é de  Santo André. Ambos usam camisetas com o logo ‘Pink Floyd’.

Ana é louca pelo  Pink, adora The Wall. Neste sábado, Milanesi e ela procuram um disco raro,  do Led. Ana tem o dela, mas, sabe como é, pode ser que um dia o amor termine  e Milanesi e ela se separem. Ela iniciou o namorado no culto do disco. Não  quer ter de dividi-lo com ele. “É melhor cada um ter o seu”, diz. 

 Conheceram-se na internet, num chat. O que é o rock para Ana? “É uma maneira  de ser, é rebeldia, é energia”, ela define. Ana já ultrapassou a barreira  dos 30 – é uma balzaquiana de espírito jovem. “O rock é mais do que música,  é comportamento”, explica Snoopy 5 Manos. Ele é DJ, procura um disco (de  vinil) para uma festa que deve animar à noite.

Procura no subsolo da galeria  – onde se concentram as lojas de hip-hop e os manos encontram cabeleireiros  e lojas adequadas para o seu gosto. Pois essa é outra característica da  Galeria do Rock. No subsolo, você encontra a força da Afro-América, com o  hip hop. No térreo, a pujança industrial dos importados asiáticos.

No 1.º e  2.º andares, o rock. Nos andares acima, diversos tipos de serviços de  impressos e serigrafia. Seria matéria para especulação de críticos musicais  – até que ponto o suíngue dos ritmos afros pode ser considerado a base do  rock? Ou não tem nada a ver? Tem tudo a ver.

Snoopy se move à vontade neste  universo do hip-hop que também é a base da galeria do rock. Curte o hip hop  sem deixar de ser roqueiro. Dois andares acima, Ana, roqueira de  carteirinha, faz a festa com o namorado. Por esses corredores, costumava  andar Raul Seixas. Hoje, a galeria abriga fãs-clubes dedicados a ele, ao  Sepultura, aos Beatles, ao Zé Geraldo.  Diversidade é o lema de Toninho. E cidadania, e democratismo. “Isso aqui não  é shopping, só para riquinhos. O povo da periferia é muito bem-vindo, é a  nossa casa, aberta para todos.”

Entrada da Galeria do Rock pela avenida São João (FOTO: PAULO LIEBERT/AE)

Toninho está pensando em abandonar a função  de síndico. “Preciso tratar dos meus negócios.” Tem lojas que administra mal  na galeria , sempre preocupado em cuidar de tudo. “Felizmente, tenho gente  muito boa trabalhando comigo”, explica.

 Mesmo quando sair, ele sabe que a  Galeria do Rock continuará sendo essa grande galeria da cultura alternativa  em São Paulo. Pois a cultura alternativa, além dessa festa audiovisual,  dessa riqueza humana e social, é excelente negócio. Movimenta dinheiro – e  idéias.

O Instituto Galeria do Rock promove em agosto uma programação  dedicada a José Mojica Marins. “Quer coisa mais alternativa do que Zé do  Caixão?”, pergunta Toninho. Na galeria , abrigam-se todos – os góticos são os  donos das tardes de sábado. “Eram discriminados em toda parte. Fazem parte  da nossa casa.”

Toninho propõe – “Fique até o fechamento. A galeria fecha às  6, mas se deixarmos eles ficam a noite toda. Aqui, não excluímos ninguém.  Prevalece o respeito pela diferença, desde que todos nos respeitemos.”