Galeria do Rock derruba previsão e dá sinais de vitalidade

Estadão

20 de maio de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

No final de 2010 um importante lojista da Galeria do Rock, em São Paulo, o maior centro de vendas de CDs e DVDs do Brasil, profetizou em uma conversa informal que todas as lojas do local deixariam de existir até dezembro de 2012, dado lugar a lojas de roupas, de quinquilharias variadas e estúdios de tatuagem, mesmo que o conceito “rock” ainda predominasse no centro comercial. E cravou: em junho de 2013 não haveria mais resquícios de música na galeria, tão cultuada que virou ponto turístico de São Paulo e “personagem” de novela da TV Globo.

Junho de 2013 está chegando a a Galeria do Rock está mais viva e cheia de gente. Nem todos compram, mas está longe o dia em que as lojas sairão por falta de clientes. Quase todas não só continuam vendendo como repondo estoques com frequência e apostando em produtos diferenciados para manter a clientela que se mantém fiel.

Um exemplo é a loja Zeitgeist. Com variado estoque de produtos de vários subestilos do rock, atrai colecionadores e fãs ávidos por novidades em vinil, CD e Blu-Ray. Uma caixa importada com toda a discografia da banda inglesa The Who em vinil de 180 gramas, com preço na vitrine de R$ 1,5 mil, não dura uma semana.

A Stand Up, especializada em rock progressivo e produtos com áudio mais qualificado, costuma vender bastante versões de clássicos do subgênero e do rock em geral com atrativos a mais – um DVD bônus ou mesmo um CD extra com gravações raras, tudo importado.

A Hellion, mais identificada com o heavy metal, por sua vez, aposta em licenciamento de lançamentos internacionais para vendê-los no Brasil a preços mais competitivos, mas ainda tem a sua enorme cota de produtos importados – como parte da discografia do Savatage remasterizada e com faixas bônus.

Entrada da Galeria do Rock pela avenida São João (FOTO: PAULO LIEBERT/AE)

A situação não está maravilhosa, longe disso, mas a Galeria do Rock prova que CD e DVD de rock ainda vendem. A internet e a pirataria causaram rombos nos orçamentos e no faturamento, mas as lojas bem estruturadas e com prestígio  permanecem no mercado graças a uma série de aficionados por boa música no formato físico. O faturamento não é mais o mesmo dos anos 90 e começo dos anos 2000, só que negócios estão a anos-luz de acabar.

“Atualmente o que mais tem na galeria são os ‘mirandas’: gente que só mira (olha a vitrine) e anda, não compra nada”, faz piada Dionísio Febraio, da Aqualung. Entretanto, sua loja, uma das maiores e mais importantes da galeria, vive cheia e com as paredes forradas de CDs novos e DVDs não lançados no Brasil. Ele não investiria em estoque se o mundo estivesse acabando.

Na Die Hard o panorama é o mesmo: vitrines e paredes forradas de produtos novos nacionais e importados, com os principais lançamentos. Seus proprietários nunca reclamaram da situação de mercado e sempre trabalharam com estoicismo e perseverança. “Trabalhamos com música há anos e vamos continuar trabalhando. Já houve tempos melhores, mas continuamos vendendo e trabalhando com afinco, com uma base forte de clientes que vem à loja, mas sobretudo que compram pela internet. Se havia alguma previsão de tsunami, não se concretizou”, diz Fausto Mucin, um dos sócios da loja.

A maior de todas as referências, a Baratos Afins de Luiz Calanca, a mais antiga da galeria, tem um dos maiores espaços do local e às vezes o cliente tem a impressão de que será soterrado por pilhas de CDs e LPs espalhados por todos os lados, ainda que de forma organizada.  O movimento na loja é constante, por mais que não repita os bons tempos dos anos 80 e 90.

Houve quem dissesse que a transformação da galeria em um ponto turístico e a proliferação de lojas de roupa afastou o público tradicional do local, aquele que gostava de música e que, principalmente, comprava. . “Parte desse público foi embora sim, não quer mais saber de Galeria do Rock, e até usa essas justificativas, mas a verdade é que esse pessoal parou mesmo de comprar. Investe seu dinheiro agora em uma conexão potente de banda larga de internet para baixar música e filmes. São pessoas que abandonaram o meio físico e mergulharam no digital. Faz parte da evolução do negócio”, disse resignado um lojista antigo que preferiu não se identificar.

Se o negócio não morreu, teve de se virar para sobreviver, já que o baque foi grande. Das 140 lojas de CDs e DVDs do auge da Galeria do Rock, no final dos 90, restam pouco mais de 40. Um dos ícones, a loja Animal Records, hoje ocupa metade do espaço que ocupava antigamente.

Algumas lojas vendem também camisetas, revistas e outros acessórios, como a Aqualung. Outras aprofundaram a segmentação, especializando-se em metal extremo ou rock progressivo, como a Stand Up, que também possui bom acervo de classic rock e produtos em DVD áudio, com melhor qualidade de som.

Se há um certo regozijo com o fato de que as previsões de desaparecimento da música na galeria não se concretizaram, sobram queixas e até um pouco de ressentimento em relação ao que o local se transformou com os anos, com o apoio do síndico, o comerciante Antonio de Souza Neto, que tem como negócio principal a venda de roupas.

“A Galeria do Rock, como o próprio nome diz, só existe por causa da música, e ela está em segundo plano faz tempo. As iniciativas para popularizar o local e mudar o ‘conceito’ não levaram em conta a opinião dos empresários que vendem música, o que é uma pena”, diz Mucin, da Die Hard, autor de um manifesto irado no ano passado contra a gestão de Souza.

O síndico rebate afirmando que a transformação da Galeria do Rock era uma evolução natural e necessária, principalmente por uma questão de estratégia de negócio. “Transformamos a galeria em um patrimônio cultural da cidade, conhecida internacionalmente e que virou atração turística de São Paulo. Tem gente que vem de outros Estados e países para conhecer a galeria”, afirmou Souza em uma entrevista ao Combate Rock em 2011.

Souza gosta de reforçar a ideia de que a Galeria do Rock hoje ultrapassou o estágio de centro comercial: transformou-se em uma instituição cultural. “Aqui é uma usina de criatividade, de irradiação de tendências da moda e do comportamento. Essa valorização do espaço e com a mudança do conceito trouxe um novo público que não é necessariamente ligado diretamente à música. mais gente passou a frequentar nossos corredores, e isso é fruto de um trabalho duro de revitalização e a readequação estética e conceitual do espaço. Teve gente que não gostou, eu entendo, mas tudo evolui na vida. O mercado musical mudou radicalmente e parece que gente que lida e vive da música aqui na galeria está com dificuldade de se adequar aos novos tempos.”

A venda de música sobrevive sem a mesma força de antes na Galeria do Rock, mas mostra sinais concretos de vitalidade.  O povo da moda e os alternativos da galeria vão ter de aturar os roqueiros por mais um bom tempo.

 

 

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