Funk pipoca em novos discos indies

Estadão

13 de maio de 2012 | 06h33

ROBERTO NASCIMENTO – O Estado de S.Paulo

O funk reduzido ao seus elementos mais puros – ‘bum’ e ‘pá’ na bateria, acordes stacattos e baixos pulsantes – é palavra não grata no vocabulário musical de qualquer banda indie moderna (a não ser que esta, como os Dap Kings, se interesse em um revival específico). Não se trata de preconceito e sim de uma fuga da banalidade, que leva bandas com viés de pista a irem atrás de diásporas mais específicas do ritmo, como o dance punk (filho da disco com o punk).

Ecos mais crus de James Brown continuam sendo território de artistas de hip-hop ou de neo soul. No entanto, nuances mais próximas dessa raiz tem pipocado recentemente em discos de artistas que, em outros tempos, sem dúvida torceriam o nariz para o balanço.

O cantor e produtor Kindness - Divulgação
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O cantor e produtor Kindness

O disco mais esperado dessa leva chama-se World You Need a Change of Heart, trabalho do cantor e produtor Kindness. Nome artístico de Adam Bainbridge, Kindness navega pelos ricos mares da black música feita entre o final dos anos 70 e o início dos anos 90. Mas no lugar de um vozeirão cheio de alma, Adam divaga em melodias como se estivesse sonhando, um chillwave (o artista Toro Y Moi também divide tendências com Kindness) mais ritmado, um dream pop de pista. Há um mix variado de estilos, indo de disco setentista à R&B dos anos 90. O pontilhismo de guitarras de disco music e do funk sem firulas dos anos 70 é presença constante nas faixas do disco.

World You Need a Change of Heart promete ser um dos discos mais hypados de 2012. Já foi lançado na Europa e está disponível pelo iTunes brasileiro, mas ainda aguarda lançamento nos Estados Unidos pela gravadora Casablanca, que nos anos 70 lançou discos do Parliament com George Clinton, de Donna Summer e do Village People. A gravadora foi revitalizada este ano pela Universal.

Outra influência é o produtor de house francês Phillipe Zdar, que trabalhou com a banda de indie rock The Rapture no ano passado. Zdar traz o conhecimento enciclopédico de nuances da dance music ao disco.

Não muito distante de Kindness está o produtor Ital, cuja carreira serve de metáfora para estas palpáveis mudanças. Até recentemente, Ital fazia parte da banda de noise punk Mi Ami, mas acaba de lançar um álbum de disco music retrô pelo famoso selo Planet Mu. As faixas do disco são longas, feitas para a pista, e o músico as toca em DJ sets.

No festival South By Southwest, termômetro da cena indie contemporânea, Kindess e Nite Jewel, uma cantora de indie de baixa fidelidade, foram comentados. Nite Jewel é parceira de um dos mestres do revival de funk oitentista, o produtor Dam Funk, que faz música de pista nas diretrizes de Prince. A cantora tem um disco novo, e pode se tornar sensação este ano. No festival, o produtor da Carolina do Norte, Airbird, tocou acompanhado de baixo, bateria e sax. A incensada banda experimental Sun Araw também tocou funk dopado, mesclando-o à psicodelia que se ouve nos primeiros discos. Deve ter sido a influência da banda jamaicana The Congos, com quem eles colaboraram.

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