Fun e as maravilhas de um único hit

Estadão

27 de setembro de 2012 | 17h00

Jotabê Medeiros

Certas canções nascem destinadas à eternidade. Mas as bandas que as compõem nem sempre as seguem nessa trilha de êxito. Isso resulta naquilo que os americanos chamam de “one hit wonder”, a maravilha de um só sucesso.

Andrew Dost, pianista e vocalista da banda norte-americana de pop rock Fun., torce para que esse não seja o seu caso. Eles emplacaram aquele que talvez seja um dos maiores sucessos de 2012, We Are Young (com ajuda vocal de Janelle Monáe). “Vamos tocar fogo no mundo/ Podemos queimar mais ardentemente que o Sol”, diz a letra. A música virou tema da série Glee e foi usada de fundo num comercial da Chevy. Estão vivendo seu momento: a Warner acaba de lançar no Brasil seu novo disco, Some Nights, e o trio negocia vinda ao Brasil no começo do ano que vem.

We Are Young é de fato um achado pop. Foi um dos poucos rocks a ficarem no Top 100 da Billboard em cerca de quatro anos (permanecendo seis semanas no topo). Não é só o refrão que pega, mas a pegada cronística de um baladeiro, “entre os drinques e coisas sutis, minhas desculpas esfarrapadas”, na fugacidade de seu meio ambiente. “Meus amigos estão em uma banheira ficando mais altos que o Empire State/ Minha mina está esperando por mim do outro lado do bar”, canta Nate Ruess, o vocalista da banda.

“Essa canção tem um lado sombrio, tem certo cinismo. Expressa até um lado mais depressivo e desconfortável do Nate. Não parecia boa para se tornar um hino adolescente, mas fico feliz de ver que se tornou o que se tornou. Virou algo importante, tem significado para as pessoas, e isso me deixa orgulhoso”, disse Andrew, falando ao Estado de S. Paulo por telefone.

Eles não são adolescentes há um bom tempo. Nate Ruess tem 30 anos, seu estilo tem espasmos de Freddie Mercury e ele conta que escreveu We Are Young após a pior bebedeira de sua vida. “Você já foi expulso de um táxi depois de ter emporcalhado todo o carro? O taxista pedindo todo seu dinheiro, e tudo que você podia fazer era continuar escorado com a cabeça numa parede na esquina? Levei um dia para me dar conta de que podia escrever sobre aquilo tudo e que, portanto, já era um adulto funcional.”

O grupo Fun. é daquele tipo de banda que os adolescentes adoram, mas a crítica despreza. Em seu desfavor, pesa até a acusação de usar o autotune (processador de áudio que contorna falhas da voz e turbina a performance de um cantor), diatribe que Dost rebate indignado.

 “Todo mundo no R&B usa, mas ninguém diz nada. Só porque somos uma banda de rock não pode? Nate tem uma grande voz, ele usou o autotune nessa canção somente para obter um efeito extra. Nós somos adeptos de dar ênfase à voz humana, mas não achamos desonesto usar um auxílio eletrônico. Fico um pouco triste com essas insinuações.”

Com o disco Some Nights, o trio buscou a diversificação de sua assinatura musical, mas não tem memórias musicais muito remotas. All Along lembra um pouco os primeiros passos do Maroon 5. Some Nights, a faixa título, uma balada sobre insônia, evoca bastante o Vampire Weekend.

É evidente que já é uma banda que ouviu alguma coisa de Paul Simon e do afropop. “Acho que aquele tipo de percussão do Vampire Weekend é muito interessante, nós adoramos aquela batida. Mas nem eles nem Paul Simon são referências diretas”, considera o músico. “Somos uma banda que é orientada pelos teclados, pelo piano. É um som definitivamente diferente, o piano no rock serve para demarcar um território, dá uma versatilidade ao som.”

Para Dost, um fã extremado do Weezer, não existe uma fórmula para fazer um hit imemorial. “Acho que fica mais fácil se tem a ver com a sua verdade. Nós procuramos compor sobre nosso mundo. Às vezes, não há muito, você apenas descreve como, sozinho no quarto, perde o dia pensando em sua vida, em como ele era. Você sabe, tocar música pelo mundo envolve essas situações de tristeza e alegria, solidão e festa. O problema é descrever.”

“Amo os Beatles, tenho encontrado inspiração em cada álbum deles. Também adoro as harmonias dos Beach Boys, aquilo tem uma grande influência em mim. Todos aqueles com quem nos comparam são importantes: Queen, Crosby, Stills, Nash and Young. O Nate também adora country music e especialmente o Wilco. É um cardápio variado.”

O diagnóstico de um “one hit wonder” é complicado. O brasileiro Sérgio Sampaio, por exemplo, pode ser enquadrado. Ele só teve um sucesso na vida, Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua (1972). Mas a excelência do seu trabalho só vem sendo descoberta mais massivamente agora.

Tudo o que sabemos sobre:

Fun

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.