Fuja da mesmice pop e rock no Rio

Estadão

23 de setembro de 2011 | 20h00

Pedro Antunes

“O rock deriva do blues e o blues vem da África”, disse a cantora e jazzista americana Esperanza Spalding ao JT, anteontem, em São Paulo. Exímia baixista, tida como um fenômeno do jazz e fã de Milton Nascimento, a moça, ao lado do ídolo mineiro, é uma das atrações que funcionarão como sopros de criatividade em meio ao som dominante e manjado do Rock in Rio, que começa hoje. Longe do mainstream do Palco Mundo, a dupla se apresenta amanhã à tarde, no Palco Sunset.

E Esperanza Spalding não se acanha em misturar jazz e influências africanas, com a MPB do parceiro, no mesmo dia em que a Cidade do Rock reunirá fãs roqueiros do Stone Sour, Snow Patrol e Red Hot Chili Peppers. “Além do meu jazz, o Milton faz uma música que traz folclore, que tem origem africana. Então, de certa forma, a gente está tocando rock também”, disse ela.

Sua volumosa cabeleira esconde seu rosto delicado, sempre sorridente. Também confunde sua estatura, que não passa de 1,60 m, mas ela fala com propriedade: “É o mesmo que aconteceu com o jazz, com o blues e com R&B. As palavras não mudam, mas a música evoluiu.”

Falante, aliás, Esperanza não disfarça a empolgação de estar no palco com Milton Nascimento. “A forma como ele compõe me influenciou de muitas maneiras. As harmonias, os arranjos, tudo é tão fenomenal”, derreteu-se. “Não preciso, necessariamente, entender toda a letra para me envolver com a música. Essa é a mágica. Eu,às vezes, apelo para a tradução, mas sei algumas palavras”, garantiu.

Tanto que Esperanza gravou, por exemplo, Ponta de Areia, de Milton e Fernando Brant. Com o mineiro, aliás, gravou também Apple Blossom, presente no disco Chamber Music Society, lançado ano passado e lhe rendeu o Grammy de Artista Revelação este ano.

 Encontros promissores

O objetivo do curador do palco Sunset, o músico e produtor Zé Ricardo, foi criar situações em que músicos saíssem de sua zona de conforto. “Morro de nervoso e de medo de errar uma nota”, confessou Esperanza. A promessa é promover tardes musicais agitadas.

Nos sete dias de festival, a programação cria expectativa para encontros cheios de criatividade. Como é o caso, hoje à noite, do inusitado encontro entre Mariana Aydar, a Orkestra Rumpilezz, do maestro baiano Letieres Leite, e os brasilienses do Móveis Coloniais de Acaju. E o que esperar do rap de Emicida, misturado ao samba de Martinho da Vila e com o reggae do Cidade Negra?

No segundo fim de semana, o eterno curioso Zeca Baleiro toca com o congolês Lokua Kanza em apresentação ousada no sábado. Será interessante também a união do som de Marcelo Camelo com a surf music psicodélica do The Growlers no último dia. Há, ainda, no espaço, nomes de outsiders conhecidinhos, como Janelle Monáe e seu soul pop revigorante, e a dupla carioca de música eletrônica The Twelves, que tocará na Tenda Eletrônica no domingo.

Qualquer estranheza com a língua portuguesa, como bem mostra Esperanza, por certo não será obstáculo. “Falar português é como tocar baixo elétrico. Experimento, sei que está errado, peço desculpas. Aprendi com minha mãe que só conseguimos se tentarmos. Foi assim na música. Será assim no português.”

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