Financiamento coletivo de shows começa a avançar no Brasil

Estadão

28 de julho de 2011 | 07h00

Felipe Branco Cruz

Bandas como Belle and Sebastian, LCD Soundsystem e Vampire Weekend têm muitos fãs no Brasil. Mas parece que não são suficientemente conhecidas para despertar o interesse de produtores culturais dispostos a bancar sua vinda ao País.

Os fãs, no entanto, têm essa disposição. Foi com essa ideia em mente que cinco empresários criaram o site Queremos.com.br. “Negociamos com os produtores das bandas e levantamos os custos. Depois convidamos os fãs a financiarem os projetos comprando cotas. Quando atingimos as cotas, o show acontece”, diz Pedro Seiler, um dos criadores do site.

A produção do show do Belle and Sebastian, por exemplo, realizado em novembro do ano passado, custou R$ 56 mil. O dinheiro veio de 280 fãs que pagaram R$ 200 cada um.

Esse montante depois foi reembolsado com o faturamento da bilheteria. Ou seja, os fãs ajudaram a trazer a banda e ainda entraram na apresentação de graça. Ao todo, em menos de um ano, o Queremos já produziu dez shows, sendo que em seis deles o dinheiro investido pelo fã foi devolvido integralmente.

No total, 1.957 pessoas compraram cotas no site para shows como os do Belle and Sebastian e do LCD Soundsystem. Pedro Seiler explica que o financiamento coletivo, no entanto, não funciona para bandas grandes, como o Foo Fighters.

Vampire Weekend (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Muitas pessoas querem esses shows grandes. Mas não vejo sentido em fazer um financiamento coletivo de bandas com cachês milionários, que fecham estádios”, diz. “Eles virão para o Brasil, mais cedo ou mais tarde”.

Essa prática de financiamento coletivo chegou ao País no ano passado, mas ainda atende pelo nome em inglês de “crowd funding”. E ela vale para qualquer tipo de financiamento cultural, desde a produção de disco até a de um festival. Além do Queremos.com.br, outros sites estão promovendo o crowd funding no Brasil. Entre eles estão Embolacha.com.br, Mobsocial.com.br, Incentivador.com.br e o Catarse.me.

Recompensas a quem investir

A banda carioca Autoramas, por exemplo, precisa de R$ 14 mil para gravar seu novo disco, batizado de Música Crocante. Por meio do site Embolacha, até o momento, eles já arrecadaram R$ 4.751.

Se em 20 dias não conseguirem levantar todo o montante, as pessoas que colaboraram com a ideia receberão o dinheiro de volta. “É tudo ou nada”, diz Gabriel Thomaz, vocalista da banda. Os fãs podem investir de meros R$ 20 a significativos R$10 mil e cada cota de patrocínio dará uma recompensa.

Quem ajudar com R$ 60, receberá em casa o disco antes de ele ir para as lojas, além de ter o nome incluído nos agradecimentos do encarte e de ganhar um kit com pôster e postal do grupo. Quem financiar R$ 5 mil ganhará a guitarra de Gabriel, usada nas gravações.

 

Misfits

 “Mas até agora ninguém comprou essa cota”, diz. “Comparo a uma pessoa que compra uma casa na planta. Ela ajuda a financiar o disco que ainda não está pronto.”Segundo Paulo Monte, um dos sócios do Embolacha, a dica para fazer o projeto funcionar é fazer um orçamento o mais baixo possível e oferecer boas recompensas. “Além disso, é uma forma de relacionamento mais próximo do artista com seu fã”, explica.

O Embolacha está no ar desde maio e por meio dele já foram financiados três projetos. Entre eles o festival Móveis Coloniais de Acaju Convida, em Brasília, no início do mês. “Não conseguimos nenhum patrocinador na iniciativa privada”, diz o tecladista Eduardo Borem. “Foi o público que patrocinou os R$ 30 mil necessários”, diz.

Este foi o 12º festival promovido pelo grupo e o primeiro que contou com financiamento coletivo. Deu tão certo que eles já pensam no festival do ano que vem. A Banda Mais Bonita da Cidade também pediu ajuda aos fãs para gravar seu primeiro CD. A estratégia, no entanto, foi diferente.

Usaram a plataforma do site Catarse.me. Eles tinham 12 composições e cada uma delas custava R$ 4 mil para ser produzida. Se somente uma dessas músicas atingisse o valor no prazo de um mês, lançariam o disco com só uma canção. “Felizmente, os fãs financiaram 11 músicas. Vamos lançar o disco com elas”, diz Walquiria Raizer, produtora da Banda. No total, o grupo arrecadou R$ 51 mil.

 

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