Fabio Ribeiro: iPad é um dos dispositivos mais interessantes para tocar, produzir e gravar música atualmente

Estadão

23 de março de 2013 | 12h29

Marcus Padrini – do site MA – musicapps.com.br

Uma ferramenta não é muito mais do que um simples objeto, se você não souber usá-la. Podemos dizer o mesmo de um instrumento musical e, por que não, de um aplicativo musical rodando em um iPad. Nosso entrevistado de hoje no MusicApps identificou novas possibilidades musicais no tablet e vem explorando com criatividade os recursos do iPad e seus aplicativos em suas composições, gravações e performances.

Fabio Ribeiro é tecladista, produtor e consultor de tecnologia musical. No currículo, traz a passagem por bandas como AngraShaman e Violeta de Outono, além do trabalho solo e como especialista em instrumentos e equipamentos musicais de importantes marcas.

Envolvido com música eletrônica deste 1986 e com larga experiência em sintetizadores, Fabio hoje utiliza, além de seus equipamentos e teclados clássicos, novidades em seu trabalho com o Remove Silence, projeto que combina música eletrônica, elementos de vários estilos e que está lançando o terceiro EP. Entre as novas ferramentas sonoras, encontramos Monotrons e diversos aplicativos musicais para o iPad.

Nesta entrevista, vamos saber um pouco mais sobre a história e o trabalho de Fabio Ribeiro, falando de música, instrumentos musicais, música móvel e tecnologia.

MA: Na história, temos alguns casos de músicos que concluíram uma formação erudita em um determinado instrumento e depois acabaram indo para o caminho dos sintetizadores e outros instrumentos menos convencionais. Este foi o seu caso?

Fabio Ribeiro: Foi o meu caso sim. Meu pai era professor de violão erudito e tinha uma banda de chorinho. Minha mãe tocava piano. Então foi quase que uma obrigação eu ingressar no universo da música. Quando eu nasci, meu pai disse que certamente eu iria tocar algum instrumento. Ele sempre dizia que a música engrandece a cultura e a sensibilidade de um indivíduo e eu também sempre concordei com isso. Minha casa foi sempre essa central para pessoas envolvidas com música, desde os tempos dos ensaios da galera do chorinho. Tenho algumas lembranças deles tocando aqui até altas horas da madrugada… Hoje tenho um estúdio de gravação que acabou ocupando metade da casa e o ambiente continua o mesmo. Nunca houve muito silêncio por aqui.

Comecei os estudos com o curso de piano erudito em 1975, o qual concluí onze anos depois. Em 1984, fui convidado pelo baixista Fabio Zaganin a integrar minha primeira banda – Annubis – que fazia um som instrumental muito variado, com fortes influências de rock progressivo e heavy metal. O fato curioso é que eu entrei na banda tocando guitarra. Os primeiros shows do Queen, Kiss e Van Halen no Brasil geraram em mim um interesse incontrolável pelo instrumento e eu resolvi arriscar. Mas a banda tinha mais um guitarrista, e não levou nem um ano para que todos me questionassem sobre qual instrumento eu realmente deveria estar usando, em vista dos meus dotes musicais em um e no outro. Foi então que comprei meu primeiro instrumento elétrico de teclas, um híbrido de órgão e sintetizador de fabricação nacional, não muito aprimorado. A banda toda foi comigo. Foi um evento festejado. Costumo contar esta fábula para ilustrar as dificuldades que tínhamos para encontrar informações sobre instrumentos na época.

O iniciante não tinha suporte algum. Em uma segunda loja havia um Korg Poly 800 por um preço equivalente. Era um teclado respeitado, quase tão desejado por aqui quanto um Juno 106 ou um DX7. Algo que eu não fazia a mínima idéia. Em uma época onde o máximo que se podia encontrar sobre tecnologia, sintetizadores e afins era uma coluna ou outra na revista SomTrês e olhe lá, não foi nada fácil a decisão. Acabei optando pelo maior, com mais botões e luzes… O aprendizado da parte operacional do instrumento aconteceu da mesma forma, caçando material didático onde fosse possível. Sou totalmente autodidata na área de tecnologia musical. Foi tudo na base da experiência e da tentativa e erro mesmo. Os tecladistas e demais músicos iniciantes hoje deveriam agradecer muito pela imensa quantidade de informação disponível, na mídia impressa e na internet, e também pelo acesso fácil a instrumentos de qualidade, nacionais e importados. Hoje nenhum músico interessado e ambicioso por informação se depara com a sensação de estar isolado em um território remoto no terceiro mundo.

MA: Você tem passagens importantes em bandas de grande expressão. Nestes trabalhos havia/há espaço para experimentar instrumentos e equipamentos diferentes ou isto ficou restrito ao estúdio e trabalho próprio?

Fabio Ribeiro: Eu sempre procurei ter uma personalidade musical própria, mas também sempre me adaptei bem aos diferentes estilos musicais das bandas pelas quais passei, de acordo com a necessidade do som, ou com as regras que alguns sistemas de mercado costumavam impor sobre o músico por diversas razões.

Fabio Ribeiro e o Remove Silence

Em qualquer uma destas situações, seja para aprimoramento do som ou simplesmente para atender a um determinado público ou mecanismo quando se está em um trabalho controlado, procurei sempre que possível imprimir a minha cara. Afinal esse é o grande barato da arte, a tal da expressão pessoal. Do contrário a coisa não valeria a pena… Desde cedo, quando eu comecei a escrever sobre tecnologia na mídia impressa dos anos noventa, eu costumava dizer que os timbres de um tecladista também fazem parte da sua personalidade musical. Continuo acreditando nisso, e hoje percebo que este universo é ainda mais extenso, fundindo-se perfeitamente com o que se chama de “sound design”.

Posso arriscar e dizer que no momento atual estou trabalhando mais como um “sintesista” ou “sound designer” do que simplesmente como o instrumentista cuja ferramenta é o teclado. O que se conhecia por “teclado” no contexto de uma produção musical ou de uma banda se tornou uma estação de criação e performance em uma variedade enorme de formas! Por isso estamos fazendo esta entrevista 🙂 Acho primordial o domínio técnico de um ou mais instrumentos, afinal esta é a base mecânica para que a interface – por enquanto suas mãos e dedos – funcione bem e possa administrar os geradores de áudio que irão constituir o seu som. Mas, para uma expressão musical completa, muitas vezes é necessário ir além. Acho que o contexto de som é algo muito maior que um instrumento isolado. O apreciador de música, que está no final desta linha de comunicação, capta a mensagem como um todo, na grande maioria das vezes de forma emotiva, não muito racional. Então o que importa é esta “onda de energia” final que atinge o ouvinte, não exatamente o que está sendo feito e, menos ainda, por quem ou por o quê… É como costumo brincar com a galera aqui no estúdio, o que importa é o som que sai, não de onde vem… Mas se este som é o seu som, com a sua cara, as pessoas saberão que é você.

MA: Em que momento o iPad surgiu para você como ferramenta musical?

Fabio Ribeiro: Desde o primeiro momento. Na verdade, entrei com um certo atraso neste universo, mas já vinha pesquisando muito sobre o dispositivo, desde a época do lançamento do primeiro modelo. Adquiri o iPad 3 exclusivamente para fazer música e pretendo agora incluir no set uma segunda unidade iPad 4.

MA: Sei que você sempre está cercado por ótimos sintetizadores. Qual espaço o iPad ocupou nos seus equipamentos? Substituiu algo ou só agregou possibilidades? Ele vai para o palco?

Fabio Ribeiro: Com certeza vai para o palco. Este foi o pensamento inicial. Um dos objetivos do Remove Silence é apresentar um show diferenciado, amplamente baseado no uso de tecnologias diversas para geração de música e entretenimento áudio-visual. Todos na banda usamos uma variedade de dispositivos alternativos além de nossos instrumentos de origem, para reproduzir as camadas de sonoridades presentes nos álbuns e também para acrescentar elementos de performance aos shows. O baixista/vocalista Ale Souza está incluindo o iPad em seu set também.

 

Sintetizadores, Theremin e iPad nas gravações do Remove Silence

Meu equipamento sempre variou muito com o passar dos anos, no estúdio e no palco, de acordo com as necessidades das bandas pelas quais passei. Procuro pelos instrumentos mais dinâmicos, de melhor qualidade sonora, e que de certa forma ofereçam praticidade e confiabilidade na estrada. De uns tempos para cá, graças aos avanços da tecnologia, o set veio diminuindo de tamanho e aumentando em poder de fogo. Estou usando atualmente o set mais compacto e prático que já pude organizar, e ainda assim as opções me oferecem mais flexibilidade que qualquer outro set anterior. Tudo gira em torno do Workstation Korg Kronos, responsável pela maior parte do sistema.

Um segundo teclado, o Korg X50, é usado simplesmente como um conjunto adicional de teclas e controles para o Kronos, conectado via USB. Os sinais de áudio do Workstation, divididos em seis saídas separadas, são administrados por um Mixer Mackie 1402. Alguns equipamentos complementares como o Nord Electro 2, responsável pelos sons de órgão Hammond, o Moog Theremin, e os sintetizadores analógicos da série Korg Monotron são conectados diretamente ao Kronos para processamento dedicado música-a-música, ou ao Mixer. É um sistema muito simples, não existem conexões MIDI complicadas, pedais ou processadores de efeito, não há excesso de cabos…

As unidades iPad estão sendo incorporadas justamente devido às possibilidades de performance e controle de outros dispositivos, além das excelentes sonoridades exclusivas produzidas por diversos de seus aplicativos. A tela multi-touch é um recurso único para aplicações musicais, oferecendo possibilidades de controle e expressão que simplesmente não podem ser obtidas através das técnicas convencionais usadas em um instrumento como o teclado, por exemplo. Trata-se de uma nova maneira de controlar a música, em seus mais variados aspectos. Ao agregarmos isto a mecanismos de síntese inovadores e interfaces de usuário extremamente intuitivas, em um aparelho praticamente do tamanho um caderno, temos um dos dispositivos mais interessantes para tocar, produzir e gravar música atualmente.

O iPad está sendo utilizado intensamente aqui no estúdio também. Estamos lançando um EP com mais sete faixas, algumas das quais são composições novas. O iPad e seus apps foram responsáveis pela inspiração, desenvolvimento e sonoridades finais de grande parte destes momentos e está presente no trabalho em suas mais variadas formas.

MA: Como você avalia a qualidade sonora dos melhores apps musicais para iPad da atualidade? Eles já conseguem competir com instrumentos virtuais para o computador ou até mesmo teclados e equipamentos reais?

Fabio Ribeiro: Esta foi uma das minhas primeiras preocupações na época em que o primeiro modelo foi lançado. Será que um dispositivo com estas especificações e proporções será capaz de lidar com as altas cargas de processamento exigidas pelos aplicativos musicais de alta qualidade?

Teclados Korg e iElectribe no iPad

A satisfação em relação à qualidade sonora veio logo de início, com um dos primeiros apps musicais profissionais lançados, o Korg iMS-20. Em seguida, apps como o Animoogchamaram minha atenção devido às inovadoras possibilidades de controle das notas em seu teclado customizável. Ao conhecer o TC-11 da Bit Shape, percebi o quão fantástica a tela multi-touch pode ser ao controlar até mesmo aspectos conhecidos dos sistemas de síntese sonora… Sabemos que não é nada fácil idealizar e desenvolver softwares musicais de qualidade. Isto carece de know-how, muito tempo e, principalmente, de dinheiro.

Obviamente as empresas com maior estrutura saíram na frente no início, mesmo que algumas vezes dispondo de produtos já disponíveis em outros sistemas, aprimorados ou simplesmente adaptados para os recursos do iPad. Os novos desenvolvedores, por outro lado, vieram com idéias novas, muitas delas excelentes, embora algumas vezes ainda detidas pela limitação inicial de recursos destas pequenas empresas.

É interessante notar que a situação vem se modificando, com o aparecimento constante de novos apps muito bons, desenvolvidos por nomes que jamais havíamos ouvido falar. O maior problema, na verdade, tem sido a capacidade de processamento e armazenamento de dados do iPad, assim como vem acontecendo com todos os computadores até agora. Nos anos setenta, não imaginávamos um poder tão grande em dispositivos pequenos como os desktops dos anos oitenta e noventa. Até outro dia, não acreditávamos que um laptop seria capaz de administrar completamente e de forma profissional a gravação de um álbum inteiro… É apenas uma questão de tempo.

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