Ex-Legião vira morador de rua: o tempo mostra quem tem razão

Estadão

26 de março de 2012 | 19h00

Marcelo Moreira

Legião Urbana e sua formação clássica em meados dos anos 80: da esq. para a dir., Villa-Lobos, Bonfá, Renato Russo e Renato Rocha (FOTO:DIVULGAÇÃO)

A reportagem da TV Record sobre o ex-baixista do Legião Urbana Renato Rocha como um morador de rua no
Rio de Janeiro é uma grande vitória dos outros membros ainda vivos. Esnobados e patrulhados desde a expulsão do baixista, no final dos anos 80, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos ficaram cansados de ser acusados de cometer uma injustiça, contando com a complacência de Renato Russo, o vocalista morto em 1996.

O desfecho inevitável há mais de 20 anos, a saída de Rocha, determinada por Russo dentro de um elevador, como o próprio baixista contou em uma entrevista em 2002, até que demorou para acontecer. 

Entre os músicos de rock do Brasil era consenso de que Renato Rocha era um problema que precisava ser resolvido o quanto antes. Não foram poucos os que aconselharam a banda a se livrar do músico encrenqueiro e muito chegado a excessos químicos.  Estava em jogo a sobrevivência da banda.

Enquanto Rocha não perdia a chance de atirar contra os ex-colegas, como na entrevista de 2002, sem o menor respeito e compostura, os outros três integrantes mantiveram a elegância e evitaram ao máximo retrucar os ataques e alimentar o bate-boca. Sempre que possível evitavam o assunto ou amenizavam as palavras rudes e mal-educadas do ex-baixista.

A reportagem piegas e sensacionalista, mas não menos importante jornalisticamente, mostra quem é que tinha razão e quem manteve o equilíbrio necessário para seguir em frente.

Claro que é lamentável que um músico importante esteja na situação de Rocha – assim como qualquer pessoa que tenha perdido a fé e virado morador de rua. Mas o fato é bastante revelador do tipo de vida pela qual o baixista optou.

Marcelo Bonfá, no Twitter, manteve a elegância ao comentar a reportagem da TV Record. Veja aqui em reprodução feita pelo ótimo site de rock Whiplash.

Por outro lado, o mesmo Whiplash republica a entrevista virulenta de Renato Rocha à extinta revista Zero em 2002, onde ataca de forma desnecessária e baixa os outros ex-integrantes do Legião Urbana. Leia a entrevista aqui.

A postura elegante e saudável de Bonfá e Villa-Lobos, que merece elogios, não pode, no entanto, mascarar o que na verdade o Legião Urbana representou, e ainda representa para o pop rock nacional. É mais do que evidente que sua importância não pode ser ignorada, mas a banda precisa ser colocada em seu devido lugar.

De tudo aquilo que alguns resolveram chamar de rock brasileiro, de longe o grupo é o mais superestimada, e de longe é o mais fraco. Rivaliza em fragilidade artística e baixa qualidade musical com coisas como Inimigos do Rei, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, Absyntho e outros menos votados.

Na comparação com grupos contemporâneos, o resultado é constrangedor em relação a Ira!, Golpe de Estado, Plebe Rude, Barão Vermelho, Titãs e Paralamas do Sucesso. Se forem mencionadas então bandas mais agressivas e extremas, como Garotos Podres, Ratos de Porão, Inocentes e Cólera, o constrangimento é ainda maior.

O trio Legião Urbana (FOTO:DIVULGAÇÃO)

O Legião Urbana foi popular e conquistou um público cativo – que se contenta com muito pouco, é verdade, mas é um público fiel. É admirável a devoção ds apreciadores do grupo, de longe a banda (ou artista ) brasileiro mais cultuado.

A bem da verdade, muita coisa ruim já foi extremamente popular, como as mais “expressivas” bandas de axé e pagode, que venderam milhões de CDs e desapareceram com a mesma velocidade que surgiram. Portanto, esse é o pior dos critérios a serem considerados.

Só que o endeusamento de Russo e a elevação da Legião a “ícone” de uma geração é um dos maiores absurdos da música brasileira. Músicos fracos e pouco criativos, canções óbvias e letras pretensiosas e de conteúdo no mínimo questionável – nada que se pareça com on trabalho lírico de Cazuza, o melhor letrista do rock brasileiro da época.

E dá-lhe reedições de CDs, livros e quilômetros de reportagens vazias e repetitivas sobre a suposta genialidade de Renato Russo e a pretensa qualidade musical do trio.

E pensar que o Ira! teve de penas por 25 anos para obter algum reconhecimento, e que os ótimos Golpe de Estado, Garotos Podres e Inocentes se tornaram underground, quando não relegados ao ostracismo…

(FOTO: PAULO PINTO/AE)

 

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