Ex-astro da axé music agora quer ser estrela do heavy metal

Estadão

12 de julho de 2011 | 07h00

Marcelo Moreira

Quando a pseudobanda de heavy metal Massacration surgiu, em 2002, como extensão de um programa de humor da MTV Brasil, repercussão dividiu os apreciadores do gênero: a maior parte detestou por se ver retratada, de certa forma, por um grupo zoando com todos os clichês do gênero. Outra parte entendeu espírito da coisa e gostou, achando bem engraçada intenção humorística. 

O resultado é que a coisa deu tão certo que o que era zoeira e mero apêndice de um programa de humor virou um projeto musical quase sério: as brincadeiras e sacanagens com o gênero permanecem, assim como o humor rasteiro e, de certa forma, escroto, mas agora faz shows em todo o Brasil, participa de festivais e já rendeu dois CDs hilários. 

Brincadeira ou oportunismo? Com certeza a primeira coisa, e merece aplausos por aproveitar uma oportunidade de fazer graça com um tema “sagrado” e ainda ganhar elogios da turma. Mas parece que tem gente querendo “colar” na onda do Massacration, mas fazendo um trabalho de profundo mau gosto. 

 Luiz Caldas é um músico e instrumentista baiano que fez fama no Nordeste, e depois em todo o Brasil, compondo e executando hits de axé music a partir do final dos anos 80. Fez sucesso e se tornou um bem-sucedido artista e empresário do ramo.

 Esquecido pela grande mídia, de vez em quando é objeto de reportagens de TV do tipo “que fim levou?” ou “onde está fulano?”. Nestas reportagens, fala de sua carreira e nunca deixa de ressaltar o que ele chama de “ecletismo” musical, já que aprecia e até executa peças de vários gêneros, “até de heavy metal”, como fez questão de ressaltar em uma reportagem para a TV Globo. 

E eis que, para nosso assombro – literalmente –, aos 48 anos, Luiz Caldas reaparece fantasiado de vampiro, acompanhado por uma banda com integrantes fantasiados com temas ligados ao terror, tocando no Programa do Jô, de Jô Soares, na TV Globo, na madrugada de sexta para sábado, já avançando pelo dia 9 de julho. 

Foi anunciado como líder de uma banda de heavy metal (????) que iria tocar uma música heavy metal (?????) em português. Quem diria, o heavy metal servindo de inspiração, parâmetro – e refúgio – para fracassados e exilados em geral… 

O que se viu em seguida foi medonho – literalmente. Se aquilo era sério, ficou pior do que péssimo. Se era brincadeira, não teve a menor graça, pis todos os clichês do mundo, desde as letras até o visual, foram utilizados, e da pior maneira. Parecia uma banda de música infantil de peça sobre vampiros para crianças de cinco anos de idade. 

A música? Qualquer coisa que se diga é pouco para descrever o quanto é ruim e rasteiro. Vejam no vídeo o final do texto e tirem suas conclusões. 

Oportunismo? Totalmente. Motivado por qual sentimento? “Se ele é um dos criadores do axé, então é um ser possuído pelo demônio, nada mais natural do que virar metaleiro”, foi uma criativa frase escrita por um sacripanta no YouTube.
Algo parecido ocorreu no final dos anos 80, quando Alceu Valença decidiu “compor” um blues, que inundou as emissoras de rádio da época, provocando a ira dos blueseiros nacionais, na época em alta e conquistando mais espaço. 

Seja lá qual for o motivo, não passa de oportunismo barato e de péssima qualidade. Logo essa iniciativa estará na lata de lixo da história. O que chama a atenção é a falta de pudor em mergulhar em um estilo musical alheio ao que sempre fez na vida – axé music, o que por si só demonstra que tipo de carreira ele conduziu e o tipo de “música” que ele criou.

 Se queria fazer rock, então que fizesse com competência, seja para zoar, como fez o Massacration, ou para entrar de cabeça no gênero, como fez Hudson Cadorini, ex-integrante da dupla sertaneja Edson e Hudson. 

 Se era para achincalhar, o Língua de Trapo fez com maestria há 25 anos com a “música” “Os Metaleiros Também Amam”, que inclusive foi incluída em um festival da TV Globo.

 Oportunistas e aproveitadores existem aos montes por aí, e principalmente na música brasileira. Caldas é só mais um. Conseguiu um segundo e meio de atenção no Jô Soares e aqui no Combate Rock. Retornará rapidinho para o ostracismo, para sorte da humanidade.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.