Enfim, o fim do mundo chegou para os punks

Estadão

29 de março de 2012 | 06h59

Marcelo Moreira

No tempo em que ser punk era um estilo de vida na Inglaterra e nos Estados Unidos, no Brasil era uma um ato de fé, uma verdadeira missão. Protestar não era o suficiente: era preciso enfrentar e confrontar, mesmo que na vigência de um regime militar, ainda que em fase final e esfarelando, enquanto no mundo a guerra fria entre norte-americanos e soviéticos assombrava diante de um eventual conflito nuclear.

Esse foi o espírito que predominou nos dois dias de violência sonora em novembro de 1982, no Sesc Pompéia abarrotado de músicos e fãs com “sangue nos olhos”. Antes relegados a guetos e nichos escondidos, os punks fizeram a sociedade brasileira finalmente que eles existiam no Brasil – e em bom número, grande parte deles moradores da periferia.

O festival “Começo do Fim do Mundo”, realizado nos dias 27 e 28 de novembro de 1982 sob inspiração do escritor e dramaturgo Antonio Bivar, deu uma visibilidade inimaginável para o movimento paulistano. “Foi um dos mais importantes eventos punks do mundo”, lembra Clemente Nascimento, líder e vocalista dos Inocentes e um dos músicos que tocaram há 30 anos.

Ele é o curador e um dos organizadores do evento “O Fim do Mundo, Enfim…”, que vai de hoje a sábado no mesmo Sesc Pompéia, que vai relembrar o festival marcante de 30 anos atrás. Quase todo o programa é preenchido por grupos que estiveram naquela edição: além de Inocentes estarão presente as bandas Garotos Podres, Ratos de Porão, Devotos, Questions, Invasores de Cérebros, Flicts, Os Excluídos e os argentinos do Attaque 77.

Músicos que vão participar da versão 2012 do 'Fim do Mundo' (FOTO: ALICE VERGUEIRO/DIVULGAÇÃO)

Clemente diz que o festival de 1982, além de mostrar ao país que existia um movimento punk considerável, foi importante porque celebrou a união entre as várias “tribos” espalhadas pela capital e pela periferia. Era notória a rivalidade, por exemplo, entre os punks do ABC, que se consideravam ideológicos e politizados, e os de São Paulo, que eram tidos como anarquistas ou até mesmo alienados. “A música e as mensagens era o mais importante, e houve respeito a todos os artistas e o clima foi ótimo e intenso.”

Mesmo assim houve quem temesse por confusão e briga generalizada. “Havia tensão no ar, estavam lado a lado na plateia caras que viviam se estranhando nas ‘quebradas’ meses antes. No primeiro dia tudo correu aparentemente bem, mas no segundo o pessoal do ABC e o da zona norte começou a olhar torto e fazer cara feia. Aí, do nada, apareceu a polícia para conter a ‘zoeira’ de uma galera que estava arrepiando. Era o que precisávamos, um inimigo para selar a união”, lembra o empresário Carlos Martins, o “Rato”, que tinha 22 anos na época. Então office boy, andava com uma turma do Tucuruvi (zona norte).

Capa do LP que registrou algumas das bandas que tocaram no festival

A repercussão foi grande em jornais, revistas e emissoras de TV. Para a ira dos participantes do evento, os punks foram retratados como meros arruaceiros e seres perigosos a serem combatidos. Mesmo assim, o festival rendeu uma coletânea em LP ao vivo com as principais bandas e um vídeo lançado de forma tosca em fita de VHS.

A lamentar apenas o cancelamento do quarto dia do evento, em 1º de abril, que teria entrada gratuita e shows das bandas Cólera, Olho Seco, Agrotóxico, Restos de Nada, Condutores de Cadáver e Lixomania. A direção do Sesc Pompéia alegou falta de estrutura para receber um público superior a 1,2 mil pessoas e promete reagendar o show com as mesmas bandas em breve.

SERVIÇO

Inocentes, Devotos e Os Excluídos
Dia(s) 29/03 Quinta, às 21h30.

Garotos Podres, Attaque 77 (ARG) e Flicts
Dia(s) 30/03 Sexta, às 21h30

Ratos de Porão, Invasores de Cérebros e Questions
Dia(s) 31/03 Sábado, às 21h30.

* Sesc Pompeia –  Choperia – . R. Clélia, 93, 3871- 7700. Cc.: D, M e V. Cd.: todos.   R$ 8/R$ 16.

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