Em clima europeu, três gerações do rock inglês em SP

Estadão

31 de maio de 2011 | 12h10

Pedro Antunes

Pessoas sentadas na grama. Casais, em sua maioria. O sol, tímido, era o suficiente para esquentar o fim de tarde. Havia uma sensação de estar num festival de música europeu, na primavera. Mas o local era o Parque da Independência, na zona sul da capital.

O line-up, no entanto, era todo dedicado ao som produzido na Inglaterra. As atrações internacionais do Cultura Inglesa Festival, anteontem, mostraram três diferentes gerações e vertentes da música feita na Terra da Rainha.

Todas – cada qual à sua maneira – conseguiram transportar o público, de cerca de 11 mil pessoas, a determinados pontos e períodos da história da música inglesa. A dupla Blood Red Shoes, o projeto solo do geniozinho Miles Kane e os pais do punk rock Gang of Four, nesta ordem, esquentaram o clima no festival, já que a temperatura verdadeira beirava os 13º.

Quando a dupla do Blood Red Shoes, formada por Laura-Mary Carter e Steven Ansell, subiu ao palco, às 15h22, recebeu olhares de surpresa por parte do público. Poucos ali conheciam o som punk e grunge produzido pelos dois. A surpresa era ainda maior porque a banda apareceu oito minutos antes do programado. Uma pontualidade inglesa às avessas.

O mais surpreendente foi a capacidade do Blood Red Shoes em produzir uma espécie de muro sonoro. Um paredão construído à base das pauladas de Ansell na bateria e aos acordes distorcidos de Laura-Mary na guitarra. Eles dividem os vocais. Tudo no melhor estilo de White Stripes e The Kills.

Banda Blood Red Shoes, da vocalista Laura-Mary Cartes, se apresentou neste domingo, no festival Cultura Inglesa Festival (FOTO: Maria Tuca Fanchin /DIVULGACAO)

Ao vivo, o material projetado pela dupla de Brighton é infinitamente mais potente do que o gravado. No show, o som ganha mais potência, fica mais cru e preenche ainda mais espaço. Delicada, Laura-Mary Carter vestia uma camiseta alguns manequins maior do que o seu tamanho e um short curto.

 Mais discreto no visual, Steven Ansell era mais falante e não cansava de conversar com o público. Inclusive sugeriu que as pessoas invadissem uma pequena área vip localizada na frente do palco e vazia naquele momento. Um dos maiores hits dos dois, It’s Getting Boring By The Sea, ganhou novo peso executada ao vivo.

Miles Kane apareceu e dissolveu a aura punk que Blood Red Shoes tanto construiu na sua apresentação. Exibiu um polido garage rock, letras melosas e um jeito de moço comportado – inclusive com uma camisa de manga longa devidamente ajustada para dentro da calça jeans.

Prodígio do rock inglês, o jovem de 25 anos conquistou não um, mas os dois irmãos Gallagher, Liam e Noel, ex-Oasis, além de ser parceiro de Alex Turner, líder do Arctic Monkeys. Depois de deixar o trio The Rascals, Kane começou a trabalhar em novo CD.

O repertório trouxe, basicamente, as músicas deste trabalho, Colour of the Trap, lançado em março deste ano. Além de um cover de Hey Bulldog, dos Beatles. Uma jovem promessa que se apresentou de graça, aqui em São Paulo.

Mas a subversão punk inglesa veio mesmo com uma vibrante apresentação do Gang of Four. Embora o som dos vocais estivesse mais baixo que o habitual e um vento de bater os dentes cortasse o Parque da Independência insistentemente, o quarteto inglês mostrou seu som minimalista, com groove, criado no fim dos anos 70.

Da formação original, somente Jon King (vocal) e Andy Gill (guitarra), ambos de 55 anos, continuam. Ele são a alma da banda. Tanto que eles ainda lançam trabalho inédito – Content saiu ano passado. No palco, eles são ainda mais viscerais. King, armado com um taco de beisebol, destruiu um micro-ondas. Já Gill arrebentou a sua própria guitarra. Um fim de festival eletrizante.

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