Elvis Presley, o astro-rei

Estadão

23 Abril 2011 | 08h20

Ana Mestieri  – Especial para o Estado de S. Paulo

Elvis Presley e seus paradoxos… O jovem garoto branco de Memphis invadiu as rádios em 1954 cantando música negra, um furacão com cabelos longos e roupas extravagantes em meio a artistas tradicionais. Interpretava canções countries melhor do que seus ídolos. Foi um rebelde transformado em uma espécie de herói de guerra em tempos de paz. Um roqueiro que usava smoking.

De ator singelo e inexperiente tornou-se o astro mais bem pago de Hollywood. Em 1967, ganhou um surpreendente Grammy de melhor performance de música sacra e, em 1968, no auge da era hippie, foi o rebelde com roupa de couro.

A trajetória do artista ressurge minuciosamente descrita em “Elvis Presley – A Vida na Música”, uma envolvente pesquisa sobre Elvis contada por meio de detalhes de cada gravação, seja em estúdios, palcos, quartos de hotel ou ensaios.

O escritor dinamarquês Ernst Jorgensen, 60 anos, teve acesso irrestrito aos arquivos da RCA e tornou-se um especialista no catálogo do astro, responsável pelo resgate de sua obra por quase uma década.

Ernst deixa de lado detalhes da vida pessoal de Elvis e centra fogo na trajetória musical do garoto de Memphis, ex-caminhoneiro, que completaria 76 anos em janeiro. Elvis ergueu seu império durante 22 anos de carreira, e não para de renovar súditos mesmo 33 anos após sua morte.

O livro traz uma relação completa e detalhada da discografia, apresentando desde o número do registro de cada música até a máxima posição de cada nas paradas de sucesso.

Elvis tinha o dom de fazer uma releitura especial de músicas já lançadas. Se sentisse que poderia acrescentar algo a uma canção, não tinha remorso algum em desafiar uma versão já existente. Ao todo foram mais de 700 canções gravadas.

Mas a escolha do repertório não era nada fácil. O empresário que o acompanhou durante toda sua carreira, Tom ‘Coronel’ Parker, e os produtores eram responsáveis por negociar os direitos autorais com os compositores.

Para garantir contrato com as editoras antes que o cantor se apaixonasse por uma música, eles só apresentavam ao astro composições que já estavam sob o controle das empresas de Elvis. Mesmo assim, o astro era capaz de ouvir dezenas de sugestões e não se interessar por nenhuma, mesmo pressionado pela RCA, cujo contrato o obrigava a gravar quatro compactos e um álbum por ano.

O sucesso, relata a pesquisa, não foi apenas por golpe de sorte, boa aparência e ousadia, mas fruto de muita determinação. “Elvis tinha um enorme talento para trazer novidade e irreverência para as músicas, justamente em um momento que os jovens buscavam algo diferente, algo para chamarem de seu”, diz Jorgensen ao Estado.

Extremamente exigente com sua performance, sempre em busca da melhor interpretação, Elvis nunca se cansava até ficar completamente satisfeito. Muitas vezes eram necessárias mais de 20 tomadas para gravar uma master e, mesmo assim, em alguns casos, após ouvir o resultado, ele proibia a gravadora de lançar a canção.

Para gravar Doncha’ Think It’s Time, em 1958, por exemplo, foram feitas 48 tomadas. Eram nas gravações mais informais, recheadas de improvisos e que lembravam as primeiras realizadas na Sun Records, sua primeira gravadora, na qual Elvis conseguia mostrar o seu melhor.

O cinema também teve um importante significado na carreira de Elvis, que chegou a dizer que o ápice de sua fama seria se tornar um astro de Hollywood. Ele conseguiu, incentivado pelo Coronel que garantiu bons contratos financeiros com os estúdios.

Mas a estratégia levou Elvis a participar de verdadeiros desastres, com trilhas sonoras lamentáveis e roteiros de péssima qualidade. Mesmo assim, sua versatilidade esteve presente e a performance em alguns longas foi elogiada. Os maiores destaques são Ama-me com Ternura (Love Me Tender/1956), Estrela de Fogo (Flaming Star/1958) e Coração Rebelde (Wild in the Country/1961).

Ao todo foram 31 longas de ficção que tiraram o foco do que o astro mais gostava, cantar. A certa altura, o cinema apenas o deixava esgotado e entediado. “Se eu pudesse fazer uma única pergunta para ele hoje, seria ‘por que você não insistiu por melhores canções nos seus filmes?’”, diz Jorgensen.

A carreira de Elvis Presley sempre foi marcada por altos e baixos. Um dos seus últimos momentos foi o show Aloha from Hawaii, em 1973. Pela primeira vez na história, um show de uma hora seria transmitido ao vivo, via satélite, para o Extremo Oriente e para a Europa.

 Elvis, bem acima do peso, fez uso de remédios para emagrecer, exercício físico e bronzeamento para chegar próximo à antiga forma. Para o público, as apresentações foram um sucesso, mas para os observadores mais atentos havia um estranho distanciamento do artista.

A estrela perdera seu brilho. Elvis sofreu muita pressão, da imprensa, da gravadora, do empresário e de produtores, dos estúdios e, principalmente, de si próprio. Durante duas décadas foi uma das celebridades mais citadas no mundo, mas nos últimos anos de vida os jornalistas apenas diziam que ele estava inchado e desanimado.

Em 1976, Elvis mostrava-se cada vez mais descontente com a música e com a vida. Ele chegou a confessar ao amigo Sherril Nielsen, do Voice: “Estou entediado de ser Elvis Presley”.

O astro estava desmotivado e depressivo, a tal ponto de não se importar mais com o que estava gravando, situação que culminou com uma morte quase suicida em 16 de agosto de 1977.

A gravadora, entretanto, manteve um alto fluxo de lançamentos de material sobre o astro, muitos deles inéditos. “Quando você se torna história, as pessoas querem ter acesso a tudo o que você fez”, afirma Jorgensen. “Como esboços de Picasso, ou primeiros escritos de Shakespeare, na música não é diferente.”

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