Elvis Presley é o personagem do nosso tempo

Estadão

16 de agosto de 2012 | 18h30

Marcelo Moreira

Elvis Presley não criou o rock, nem mesmo o formatou, mas sem ele o gênero jamais teria se tornado o que é hoje. São raros os artistas que conseguem se transformar em sinônimo de algo, ou de alguma coisa. Alguns são a verdadeira personificação de um instrumento musical, como o guitarrista Jimi Hendrix . Elvis é sinônimo não só de rock, mas de toda uma transformação social que assolou o Ocidente a partir dos anos 50.

Nenhuma outra celebridade ou figura histórica imprimiu sua marca tão forte em tão pouco tempo. Foram apenas quatro anos de vida a mil em alto nível, mas o mundo do entretenimento e a cultura ocidental nunca mais foram as mesmas.

De 1956 a 1960 Elvis fez de tudo na música e no cinema e deu o direcionamento para a criação e crescimento do entretenimento como negócio, equiparando a música (no caso o rock) ao tamanho do cinema norte-americano. Não é exagero dizer que é o cantor é pedra fundamental da cultura do século XX.

Após servir ao exército norte-americano por mais de um ano, Elvis retomou a carreira, só que mais domesticado e mais inserido no marketing de entretenimento de massa. A música passou ao segundo plano, com o cinema de qualidade duvidosa tomando quase todo o seu tempo.

Os álbuns foram rareando, assim como a inspiração e as performáticas apresentações. Tudo piorou quando os ingleses resolveram reclamar um lugar no banco da frente, quando os Beatles chegaram com tudo. Elvis Presley tentou respirar e foi atropelado em seguida pelos Rolling Stones e pelos Beach Boys.

O mundo mudava muito rápido e o rei do rock continuava tateando em busca de novos caminhos quando Bob Dylan estourou de vez e mais ingleses impertinentes se apossaram das paradas, como The Who, The Animals, The Kinks, The Yardbirds, Cream e um tal de Jimi Hendrix.

Quando finalmente Elvis saiu do retiro e decidiu voltar com tudo à música, em 1968, soava como um músico datado, um artista de outra era, apesar da reverência e do imenso respeito que todos devotavam a ele.

Se o conceito de “dinossauro do rock” existisse naquela época, seria perfeitamente aplicável neste caso. Elvis já era lenda, mas começou a ser tratado por parcela importante do mercado como algo ultrapassado, no mesmo balaio dos então esquecidos grandes nomes do jazz e do blues que ainda insistiam em se manter na ativa – gente fraquinha como B. B. King, Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Miles Davis…

Seja como for, os especiais de TV de 1968 e dos anos seguintes reacenderam parte do interesse na música do rei do rock, reapresentando-o a uma geração roqueira preferia nomes mais contemporâneos e que considerava a música dos pioneiros como “coisa do século anterior”.

A reverência continuou, mas o mercado foi inclemente e exilou o rei do rock nos cassinos de Las Vegas, colando um inacreditável rótulo de artista ultrapassado e decadente – e o pior é que Elvis não reagiu: resignado, aceitou ser uma caricatura de si mesmo até a sua morte, em agosto de 1977, aos 42 anos.

O homem que personificou o rock e que fez com que o gênero musical mudasse a história cultural da humanidade foi engolido por sua criatura. Foi incapaz de lidar com a avalanche de energia, intensidade e criatividade proporcionadas pelo rock.

O personagem Elvis se tornou muito maior do que qualquer um poderia imaginar e dominou de tal forma a vida do ser humano Elvis Aaron Presley que o aprisionamento a uma vida irreal era inevitável, mesmo que os tempos indicassem claramente decadência artística e criativa.

Elvis foi o personagem do nosso tempo. Impossível pensar em uma representação melhor.

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