Elis Regina poderia ser a melhor cantora de rock

Estadão

20 de janeiro de 2012 | 06h43

Marcelo Moreira

E se Elis Regina cantasse rock? “Seria uma das melhores de todos os tempos, colocaria no chinelo Janis Joplin e qualquer outra. Isso como brasileira. Se nascesse na Inglaterra ou nos Estados Unidos, seria deusa.”

A brincadeira/provocação surgiu após um show no Centro Cultural São Paulo em meados de 1987 que reuniu três importantes grupos do cenário nacional – então iniciantes naquela época. A provocação partiu de um guitarrista bem-sucedido na música brasileira, então sentado na calçada, comento cachorro quente e tomando cerveja – igualmente quente.

Lembrei dessa conversa não por conta dos 30 anos da morte da cantora brasileira, ocorrida em um 19 de janeiro de maneira estúpida. Mas sim porque eu vi no Facebook algo relativo à banda de tal guitarrista – omito nomes por conta da falta de autorização para divulgar tal diálogo.

A conversa foi longa e o cidadão calmamente desfiou uma série de argumentos pertinentes para concluir que o mundo perdeu a maior cantora de rock de rock de todos os tempos – primeiro para a MPB, depois para a morte propriamente.

Dois momentos da carreira de Elis Regina corroboram tal afirmação: uma apresentação em 1965 em um festival de música, transmitido pela TV, e a série de shows “Falso Brilhante”, entre 1976 e 1977.

Tentando me recordar da conversa com o músico há quase 25 anos, foi o que consegui pescar para em 2012 me certificar. E tenho de concordar que ela daria uma roqueira maravilhosa.

A cantora Elis Regina no DVD "Na Batucada da Vida" ( FOTO DIVULGACAO)

O comportamento errático e rebelde já seria um grande requisito para mostrar que ela poderia, quem sabe, se tornar um misto de Keith Moon e Janis Joplin. Irascível, meio cabeça dura, bocuda e de opiniões fortes, espantava e surpreendia em um momento complicado da vida brasileira, época brava do regime militar ditatorial.

Como cantora, sem entrar no mérito do repertório – nenhuma música que ela cantou me agrada –, era uma potência, tanto em volume como em consistência. No palco, a pequenina Elis Regina crescia e dominava todos os espaços, criando ressonâncias e atingindo níveis de extensão vocal nunca vistos no Brasil e raramente vistos no cenário internacional.

De longe foi a melhor cantora que existiu no Brasil – ou seria a única? Em uma rápida comparação no cenário internacional, não tem para ninguém: Janis Joplin, Patti Smith, Joan Baez, Debbie Harry (Blondie), Chryssie Hynde (Pretenders), Joan Jett (Runaways), Tarja Turunen (ex-Nightwish), Angela Gossow (Arch Enemy), Anneke van Giesbergen (ex-The Gathering), Maggie Bell (Stone the Crow), Sandy Denny (Fairport Convention), Mama Cass Elliott (Mamas and the Papas), PP Arnold, Grace Slick (Jefferson Airplane), Imelda May, Amy Winehouse…

Daria uma disputa boa se a comparação fosse com Tina Turner, Aretha Franklin, Nina Simone, Billie Holiday, Doro Pesch… Mas não é que Elis deu uma passeadinha pelo rock que tanto ignorava, ainda que tinha sido o soft rock? Ela cantou na TV “Yesterday”, dos Beatles, com o então marido César Camargo Mariano ao piano, em uma versão interessante, bem jazzística. Os Beatles voltaram a merecer a sua atenção na dobradinha ” Golden Slumbers”/Carry That Weight, que fecha “Abbey Road”, álbum de 1969, em uma versão muito boa. Escute e veja ao final do texto.

Elis Regina não teve concorrentes no Brasil, e sorte de Rita Lee, Cássia Eller, Paula Toller e Fernanda Takai, entre outras, que a cantora gaúcha tenha ignorado o rock – tanto é verdade que liderou um estapafúrdio protesto-passeata contra a guitarra elétrica nos anos 80.
É triste – e lamentável, por que não? – que Elis Regina tenha optado pela MPB. No rock, seria estrela internacional e uma das maiores de todos os tempos – com chances de ser a maior de toda. Azar de Elis e azar do rock.

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