Eles sobrevivem à era da pirataria e do download

Estadão

08 de setembro de 2011 | 06h26

Suzane G. Frutuoso

O presente mais antenado para dar a um amigo, nos anos 80, era um CD. O pequeno disco platinado revolucionou o jeito de ouvir música de gerações. As lojas, que vendiam vinil e cassete, logo formaram estoques da nova mídia. No final dos anos 90 foi o DVD que aposentou as fitas de vídeo. Mais uma vez, os lojistas se atualizaram para oferecer o moderno formato ao público.

Era difícil imaginar que outras tecnologias avançadas (e até o crime) atingissem um mercado que movimenta bilhões só no Brasil. A pirataria e os downloads pela internet, gratuitos ou por centavos, tiveram forte impacto no setor. Muita gente fechou as portas.

Quem permanece no ramo teve que aprender a oferecer serviços especializados para segurar a clientela, que caiu 50%, em média. E esses lojistas continuam planejando novidades para manter o faturamento, que varia entre R$ 50 mil e R$ 100 mil mensais.

Nos últimos dez anos, o empresário Marco Aurélio de Melo, de 43 anos, desativou três de suas quatro lojas de CDs e DVDs na capital. Permanece com a Music Shop, no Shopping Eldorado, zona oeste. Sem deixar de vender títulos populares, seu diferencial são importados, raridades e clássicos que agradam aos colecionadores, sempre acima dos 30 anos.

Marco Aurélio Melo, da Musical Shop, se define como um 'personal music' (FOTO: JB NETO / AE)

“Eu me tornei um ‘personal-music’”, diz. Ele sabe explicar em detalhes cada um dos produtos que vende. “Meus clientes consideram a música uma cultura maior. Têm coleções com milhares de CDs. E nenhuma paciência para esperar uma faixa baixar no computador.” Seu desejo futuro é abrir um local com espaço para pocket shows e cafeteria.

Também voltado ao cliente que considera a qualidade do download ruim, o empresário Alain Cohen, de 54 anos, proprietário da Musical Box, em Higienópolis, zona oeste, diz que os grandes nomes sempre vão vender. “Por isso, vale a pena importar, ter edições de luxo”, diz ele, que conta com um funcionário. Chegou a empregar 15 pessoas em parte de seus 32 anos de mercado. Está prestes a se render à venda de DVDs de filmes. “O público procura bastante.”

Segundo Clarisse Setyon, coordenadora do curso de gestão de negócios do entretenimento da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), os empresários estão certos em atender o desejo do cliente. “Precisa estar próximo, oferecer socialização, experiências”.

Eles dizem que até registraram um aumento de 20% no faturamento desde 2010. Acreditam que o crescimento está relacionado à melhora da economia. Antonio Campelo, 51 anos, dono da Musical Santo Antonio, na Rua Augusta, e da RW CDs, na Liberdade, enxerga a mudança de maneira pessimista. “Os que resistem estão faturando mais porque centenas de comércios acabaram.”

Planejando vender também acessórios e instrumentos musicais, até o fim do ano, Campelo afirma que são os medalhões da música que o ajudam a sobreviver. “Clara Nunes, Maria Bethânia e Adoniram Barbosa vendem todos os dias.”

Para Antonio de Souza Neto, administrador da Galeria do Rock, no Centro, a sociedade assiste a uma transformação natural da arte. “Mas vai demorar mais umas duas gerações para esse tipo de comércio desaparecer”, diz ele, que há seis anos deixou de vender CDs de rock para vender acessórios e camisetas. “A garotada, que passa a maior parte do tempo no computador, não compra mais.”

Ainda há artistas recentes que registram vendas impressionantes. É o caso da nova estrela do sertanejo romântico, a mineira Paula Fernandes, que em agosto alcançou a marca de 1 milhão de cópias de CDs e DVDs de seu show ao vivo. Mas, excetuando cantores populares, é raro um artista alcançar números altos hoje. Não é suficiente para bancar o mercado. A opinião dos proprietários das lojas é que a qualidade da música, em geral, despencou.

 

Alain Cohen, da Music Box (Foto: NILTON FUKUDA/AE)

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