‘Eles não são donos da nossa música’, diz músico do Galaxy 500

Estadão

04 de março de 2013 | 17h03

Damon (direita) and Naomi. FOTO: Divulgação

Camilo Rocha – caderno Link – O Estado de São Paulo

 

SÃO PAULO – Para nosso especial de streaming musical, ouvimos também o lado dos músicos. Alguns são muito críticos do novo modelo, acusando-o de injusto e explorador. Conversamos com dois artistas cujas queixas repercutiram pela rede: Damon Krukowski, do Damon and Naomi, e East Bay Ray, dos Dead Kennedys.  Por motivos de edição, entraram só algumas frases dessas entrevistas.

Por motivos de edição, é claro que entraram só algumas frases dessas entrevistas. Aqui a íntegra da entrevista com Damon Krukowski, que integrou a banda Galaxie 500 entre 1987 e 1991 e depois formou a dupla Damon and Naomi, na ativa até hoje. Em novembro de 2012, ele publicou um artigo no site Pitchfork chamado “Ganhando centavos” onde alertou para o pouco dinheiro que os músicos têm recebido dos serviços de streaming.

1) Você teve bastante apoio de outros músicos depois do seu artigo no Pitchfork? São reclamações comuns de artistas hoje em dia?

Tive uma quantidade surpreendente de reações ao artigo, mas principalmente de pessoas do mundo dos negócios. Fui até entrevistado pelo Wall Street Journal! Sou músico, não uma pessoa de negócios, então fiquei surpreso que havia fornecido a eles informações novas. Quanto aos músicos… eu acho que todo mundo já sabe que estão nos pagando pouco!

2) Mas o YouTube também pode ser útil como plataforma promocional. Isso de certa forma é uma compensação?

A promoção é útil para uma carreira artística, mas no fim você precisa ganhar dinheiro de algum lugar para sobreviver. Serviços de streaming como Spotify e Pandora tomaram o lugar dos discos para muitos consumidores. As bandas que podem ganhar mais dinheiro tocando ao vivo podem usar a promoção para ajudá-los a sobreviver assim, vendendo ingressos para shows. Mas, e se você é um artista de estúdio?

3) A indústria musical enxerga o streaming como solução para o download ilegal, conseguindo pelo menos algum dinheiro em vez de as pessoas estarem baixando sem pagar nada. Os artistas também não deveriam enxergar assim?

O argumento principal do meu artigo é que o dinheiro que ganhávamos de downloads ilegais e o dinheiro que ganhamos de Spotify e Pandora é exatamente o mesmo: nada. Eu acho que Spotify e Pandora deviam admitir que se aproveitam da disponibilidade da cultura livre, assim como o Napster. Não sou contra cultura livre, pelo contrário. Mas por que algumas pessoas devem ganhar milhões com ela? Spotify e Pandora deveriam vender o que pertence a eles – software. Eles não são donos da nossa música”.

4) Você disse que seu próximo lançamento provavlmente só vai sair em vinil, certo? Você também colocou sua música em streaming gratuito no Bandcamp. Uma solução potencial então seria passar ao largo do sistema mainstream?

Sempre operamos nas margens da “indústria” musical, em todos os sentidos. Mas, economicamente, a diferença antes era apenas uma questão de escala: vendíamos muito poucos discos, em comparação a artistas mais populares, então ganhávamos apenas uma fração do que eles ganhavam. Agora, não importa quantas pessoas ouvem nossa música, nunca iremos ganhar qualquer dinheiro com ela. Enquanto isso, os grandes nomes da indústria – Spotify, Pandora, Apple – fazem fortunas.

Não é mais uma questão de escala – é um problema com o sistema, porque ele se divorciou do negócio de produzir e vender música. Nenhuma dessas empresas – Spotify, Pandora, Apple etc – produz discos. Elas não têm nenhuma conexão com as pessoas que produzem. Mesmo as maiores gravadoras mantinham algum tipo de conexão e, pelo menos, com alguma responsabilidade.

5) Alguns argumentam que o negócio de streaming musical ainda está no começo e que as coisas podem melhorar com o tempo. Por exemplo, Donald S. Passman, conhecido advogado de música e autor do livro All You Need to Know About the Music Business. Ele disse: “Os artistas também não ganhavam muito quando os CDs apareceram. Eles eram uma coisa de especialista, e tinham uma taxa de royalty baixa. Daí, quando eles se tornaram populares, os royalties melhoraram. E é isso que vai acontecer aqui. Você acredita que isso poderia acontecer?

Não acredito nesse argumento porque não vejo essas empresas tendo responsabilidade com os artistas nunca. Essas empresas dependem de fornecimento de informação, mas elas não diferenciam entre informação. Para o YouTube e seus lucros é tudo a mesma coisa, tanto faz se são vídeos de gatos ou do [cineasta russo Andrei] Tarkovski, contanto que haja espectadores.

Esta é uma qualidade interessante destes serviços, eu mesmo me utilizo deles. Posso achar música verdadeiramente obscura no Spotify, às vezes música que nunca vou conseguir achar em disco, tão facilmente quanto posso achar novos lançamentos. Mas se nunca mais existir outro Tarkovski, o YouTube vai se importar? Sempre haverá mais vídeos de gatos. Que modelo de negócios! Não vejo porque eles algum dia iriam querer trocar um lucro garantido baseado em volume pelo arriscado negócio da qualidade.

 

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