Edu Falaschi finalmente deixa o Angra e o futuro da banda fica em xeque

Estadão

25 de maio de 2012 | 06h49

Marcelo Moreira

Aquela que foi a principal branda brasileira internacional depois do Sepultura completa 20 anos de atividade da forma mais melancólica possível. Em meio a mais um longo hiato na carreira, o angra sofre mais um baque, embora esperado: Edu Falaschi, o vocalista que substituiu André Matos em 2001, deixou oficialmente o grupo ontem, dia 24 de maio, ao publicar uma “carta aberta” em seu site pessoal.

Não é a primeira vez que o Angra passa por turbulências e troca de integrantes. O problema é que isso é cada vez mais recorrente, e acada vez que isso ocorre, o futuro da banda sofre mais uma erosão. E não dá para não traçar um paralelo: as duas maiores bandas da história do Brasil sofreram rachas e mudanças de formação no momento em que estavam no auge – e nunca se recuperaram.

A saída de Falaschi já era amplamente comentada desde o ano passado, antes mesmo da desastrosa (em termos técnicos) apresentação no Rock in Rio 4 – a performance do vocalista foi muito criticada, apesar de todos os problemas enfrentados pela banda.

Os boatos e comentários eram fortes desde pelo menos maio de 2011, quando o Angra já estava em mais um de seus longos períodos de hibernação e “reavaliação”. Ninguém falava com clareza, mas era notório que havia problemas de relacionamento, coisa comum desde a saída traumática e tempestuosa do baterista Aquiles Priester, em 2008.

Agentes e promotores de shows com acesso aos integrantes constatavam problemas sério entre os integrantes a partir das supostas cenas de quase pugilato entre Priester e o guitarrista Raphael Bittencourt após um show em São Caetano do Sul (SP), em 2007. Desde então, o clima ficou ruim, e nem o profissionalismo extremo que sempre foi a marca dos músicos conseguiu amenizar.

O jeito foi dar mais uma parada e partir cada um para projetos pessoais: Falaschi criou o Almah, que já lançou três álbuns e contou com a presença do baixista do Angra, Felipe Andreoli, em dois deles; Bittencourt criou o projeto Brainworms e o outro guitarrista, Kiko Loureiro, investiu em sua carreira solo.

A útima formação do Angra. Falaschi é o do meio

Apesar do sucesso obtido em grande parte da carreira, tudo sempre foi muito difícil no Angra. O fato de ser uma cria “artificial”, de certa forma – surgiu da ideia do empresário Antonio Pirani, dono e editor da revista Rock Brigade – acabou por definir o DNA do conjunto, por mais que ele tenha se tornado orgânico por muito tempo.

A formação de um Dream Team do metal nacional pareceu interessante no começo, com as presenças de gente estrelada como André Matos (ex-Viper na época), Ricardo Confessori na bateria e Hugo Mariutti no baixo, além de Bittencourt e Loureiro. O sucesso foi quase imediato, com fãs enlouquecidos e vendas em alta em países como França e Japão.

Ainda que fosse uma banda criada em laboratório, o sucesso inicial conseguia amenizar o clima de pouca espontaneidade e de muito profissionalismo. A formação, que foi a melhor do Angra, reuniu cinco músicos excelentes e de muita personalidade – em com egos nas alturas.

As trombadas ficaram evidentes e eram previsíveis, com o clima pesando definitivamente em 2000, após a extensa turnê do álbum “Fireworks”, com as constantes brigas e discussões a respeito da administração da banda, centralizada com mão de ferro por Pirani e seus sócios.

Matos, Mariutti e Confessori saíram para formar o Shaman, e foram substituídos por Falaschi, Andreoli e Priester. Foram dois álbuns excelentes – “Rebirth” e “Temple of Shadows” – e outros dois bons – “Aurora Consurgens” e “Aqua” –, mas O DNa falou mais alto: a própria natureza transitória do conjunto acaba por criar tensões e impasses, que sempre têm como consequência a saída de alguém e a troca de formação. É algo que Bittencourt e Loureiro precisam resolver, já que são os “fundadores” e, teoricamente, os líderes musicais e administrativos.

A saída de Edu Falaschi teve outra consequência: a saída do então amigo e companheiro Felipe Andreoli do Almah, optando ficar somente com o Angra, ainda que o futuro desta banda seja nebuloso – com chances razoáveis de a banda acabar. Em seu site pessoal, Andreoli revelou simultaneamente ao comunicado de Falaschi que saía do Almah, deixando nas entrelinhas que houve “desgaste” no relacionamento.

A esperada e cogitada saída do vocalista coloca a existência do Angra em xeque. Raphael Bittencourt assumirá os vocais? Ou será que André Matos, que está cantando temporariamente com o Viper, será convidado a retornar, mesmo morando na Suécia? Será que o clima na banda finalmente será amenizado para que haja uma estabilidade maior?

Quanto a Falaschi, o Almah seguirá sendo a sua prioridade, com composições próprias e adequadas ao timbre e ao seu jeito de cantar, coisa que o incomodava no Angra – ter de cantar em tons, timbres e volume muito diferentes, que levaram a um esgotamento físico e a problemas de saúde, culminando com uma cirurgia na garganta e cordas vocais no final do ano passado. O Almah vai bem, mas o Angra virou uma tremenda interrogação.

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