Edições de luxo mostram o melhor dos Small Faces

Estadão

21 de junho de 2012 | 06h44

Marcelo Moreira

Quatro moleques da periferia de Londres, feiosos e sem a menor experiência musical comercial, mas fãs dos Kinks e muito fãs do Who, de quem logo ficariam amigos. O improvável Small Faces tinha tudo para dar errado, exceto pelo vocal diferenciado do guitarrista encrenqueiro Steve Marriott e das pérolas certeiras compostas pelo baixista e ocasional vocalista Ronnie Lane.

Os Small Faces eram muito mais novos do que a concorrência, e chegaram um pouco tarde na disputa por um lugar no rock britânico de 1965. Os Roling Stones já estavam na cola dos Beatles, enquanto Yardbirds, Animals e Kinks vinham logo atrás, emplacando hit atrás de hit. Os Small Faces correram por fora, foram adotados pelo movimento mod quando o Who ficou grande demais, e se tornaram a cara do britpop por excelência em 1966.

Essencialmente uma banda de singles, os Small Faces finalmente foram homenageados neste ano com o relançamento de seus poucos CDs, coincidindo com a indicação para o Rock’n Roll Hall of Fame, em maio.

A banda, que era completada por Kenney Jones na bateria e Ian McLagan nos teclados, receberá a honraria ao lado dos Faces – grupo que foi originado dos Small Faces quando da saída de Marriott em 1969 para formar o Humble Pie; o trio remanescente se juntou a Rod Stewart e Ron Wood (baixista que virou guitarrista), ambos saídos do Jeff Beck Group, ainda em 1969.

Os relançamentos jpa estão nas lojas dos Estados Unidos e da Inglaterra. Para os brasileiros, por enquanto, só comprando pela Amazon ou encomendando em alguma loja nacional especializada e a Galeria do Rocke, são Paulo0, está cheia delas.

As edições de luxo contam com uma edição limitada apenas em vinil do clássico “Ogden’s Nut Gone Flake”, de 1968. O mesmo álbum sai em CD triplo, com as mixagens em mono e estéreo do álbum no segundo CD e raridades e versões alternativas no terceiro CD. Outra pérola do pacote é o álbum auto-intitulado de 1967 , que tem CD duplo em digibook de capa dura, com 17 faixas bônus e as mixagens em mono e estéreo.

Smal Faces: Ronnie Lane e Ian McLagan (em cima), Steve Marriott e Kenney Jones (em baixo)

Genial e irascível, Steve Marriott também era bom guitarrista, mas se destacava principalmente como cantor de rhythm & blues fascinado pela mússica negra norte-americana. Sua voz era o contraponto para a potência e o timbre rouco e grave de Eric Burdon, dos Animals. Dentro dos Small Faces, era o contraponto ao baixista Ronnie Lane, de voz pequena e anasalada, que venerava a música folk britânica e tinha a veia pop por excelência.

Com shows marcantes e uma cama perfeita na melodia feita pelos teclados simples mas precisos de McLagan, o quarteto conseguiu ombrear com as principais bandas da época, mas começaram a perder terreno para as grupos que partiam para um som mais pesado, como Jimi Hendrix Experience, Cream, Jeff Beck Group, Yardbirds na fase Jimmy Page e até mesmo para os estreantes Pink Floyd, The Move e Moody Blues.

O purista Marriott insistia nos temas puxados para a música negra norte-americana, apesar de contribuir decisivamente para a lapidação dos temas pop de Lane e de McLagan. Avesso ao “barulho” da concorrência, começou a se aproximar da cena de r&b inglesa e iniciou colaboração com vários outros artistas, entre elas a grande cantora norte-americana P. P. Arnold.

Na verdade, os Small Faces só lançaram um LP de verdade, “Ogden’s Nut Gone Flake”, de 1968, quando a banda já estava em pleno processo de esfacelamento. O álbum de estreia, “Small Faces”, do ano anterior, não passava de uma coletânea dos compactos (singles) lançados entre 1965 e 1967.

Capa do álbum “Ogden’s Nut Gone Flake”

Com a saída não muito pacífica de Marriott em 1969, os Small Faces se transformam em The Faces com as chegadas de Ron Wood e Rod Stewart, que romperam com Jeff Beck. A banda se tornou um gigante dos anos 70, rivalizando de igual para igual com Rolling Stones, Led Zeppelin, Queen e Who.

Enquanto isso, Rod Stewart mantinha carreira solo paralela, usando os Faces como banda de apoio nas gravações de seus álbuns. Foram oito álbuns excelentes lançados entre 1969 e 1974, quadro de Stewart e quatro da banda.

Ronnie Lane partiu para uma carreira solo direcionada ao folk no fim de 1972, substituído pelo baixista japonês Tetsuo Yamauchi. Os Faces seguiram em frente até 1975, quando Rod Stewart, percebendo a exaustão criativa, optou apenas por sua carreira solo. Sem Stewart, Wood não hesitou em aceitar no mesmo ano um convite para substitui Mick Taylor nos Rolling Stones, que ainda contratou por três turnês Ian McLagan como tecladista de apoio.

Os Small Faces ensariaram uma volta entre 1977 e 1978 com a formação original, mas Ronnie Lane decidiu não participar em meio às negociações. Marriott, Mclagan e Jones lançaram dois álbum muito fracos, e o fim veio de vez no começo de 1979.

Até a frustrada volta dos Small Faces no fim dos anos 70, Marriott teve uma carreira bem-sucedida no Humble Pie, que criou ao lado do guitarrista-prodígio Peter Frampton logo em 1969. A mistura de blues e hard rock, na linha Free e Deep Purple agradou em cheio, em especial nos belos duelos de guitarras e nas vozes dos dois guitarristas.

Só que a paixão pelo r&b falou mais alto e Marriott tentou redirecionar o som da banda em 1972, ocasionando o rompimento e a saída de Frampton, que virou astro pop em carreira solo. Dave “Clem” Clempson o substituiu e deixou o Humble Pie bem mais pesado e funky ao mesmo tempo. Coincidentemente, o Pie também se esgotou em 1975, encerando as atividades.

Marriott engatou uma carreira solo longe dos grandes palcos mas, de certa forma, bem-sucedida em um circuito de clubes ingleses e da costa leste dos Estados Unidos. Morreu em 1991 em um acidente estúpido, ao deitar com um cigarro aceso no chalé de uma pousada, aparentemente bêbado. O chalé pegou fogo e ele morreu queimado aos 46 anos.

Ronnie Lane se estabeleceu como bem-sucedido cantor folk, embora seu projeto itinerante de unir música e circo tenha fracassado. A partir de 1980 foi gradativamente deixando a música quando descobriu que era portador de uma doença degenerativa chamada esclerose múltipla, que ainda é incurável.

Participando ativamente de projetos e programas de apoio à pesquisa sobre a doença em busca de novos tratamentos, abandonou definitivamente o mundo da música em 1989, já impossibilitado de tocar. Morreu em 1997, aos 51 anos.

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