E os Beatles foram transformados em 'muletas'…

Estadão

19 de dezembro de 2011 | 06h54

Marcelo Moreira

A primeira muleta inventada para bandas em crise criativa foi a “coletânea de greatest hits”. Era uma festa para ressuscitar mortos e quase mortos. Quando a febre passou, vieram os “álbuns ao vivo”. Aí a MTV resolveu se apoderar do “acústico/unplugged”, que virou mania nos anos 90 e recolocou nas paradas gente como Kiss, Eric Clapton, Rod Stewart e muitos outros.

Já na beirada do século XXI o acústico cansou e o que veio para salvar carreiras em declínio? Os álbuns de covers (versões de músicas de outros artistas). Mas não é que o mercado sempre saca da cartola alguma solução mágica para resgatar artistas decadentes? A bola da vez agora é “regravar Beatles” – ao menos no Brasil.

É o que está fazendo a indefectível banda emo/eterna adolescente Restart. Já vazou desde agosto que a banda estaria “secretamente” gravando o seu álbum de versões para músicas dos Beatles, a ser lançado no primeiro trimestre de 2012 – embora o fã-clube da banda garanta que isso vá acontecer, os integrantes do grupo não confirmam a informação. O álbum teria até nome – “Let It Bee” (quanta imaginação!!!!).

Assim como o Restart pretende trucidar as belas canções de Lennon-MacCartney e George Harrison, outros já cometeram esse desatino. Zé Ramalho colocou recentemente no mercado o álbum “Zé Ramalho Canta Beatles”, onde ele fez questão de “descaracterizar” algumas das 16 canções que escolheu. E o cantor paraibano é reincidente, pois havia feito o mesmo com músicas de Bob Dylan.

Na maior cara de pau, copiou até mesmo a capa do segundo disco do quarteto de Liverpool, “With the Beatles”, de 1963. Ou seja, ninguém mais tem pudor de atacar como coiotes o acervo da maior banda de pop-rock do mundo para sair do limbo.

Os Beatles são o grupo mais regravado da história. Até mesmo os clássicos dos anos 50 e do blues que eles gravaram são atribuídos erroneamente a Lennon-McCartney. Até hoje os covers da banda inglesa infestam o mercado e as emissoras de rádio do mundo. E são incontáveis as versões feitas por artistas brasileiros, tanto em inglês como em português para os grandes clássicos da banda. Mas daí a gravar um CD inteiro com as músicas dos Beatles é demais, é total falta de inspiração, para dizer o mínimo.

Casos semelhantes no exterior são raros. O mago das guitarras Steve Howe, do Yes, lançou em 1999 “Portraits of Bob Dylan”, onde repaginou no formato instrumental alguns clássicos do músico norte-americano. De extremo bom gosto, o álbum passou longe de qualquer ameaça de oportunismo, soando como um grande tributo.

No heavy metal, o caso mais curioso é o da banda norte-americana Six Feet Under, de death metal. De projeto paralelo de Chris Barnes, vocalista do Cannibal Corpse, tornou-se um grupo grande e de prestígio dentro do metal, e decidiu no final dos anos 90 gravar uma série de versões no formado “death”, com vocal gutural e guitarras altíssimas e totalmente distorcidas.

Um dos três volumes de “Graveyard Classics” – o segundo – é dedicado ao AC/DC. Não só isso: o Six Feet Under decidiu gravar todas as músicas do álbum “Back in Black”, clássico de 1980, o primeiro após a morte do vocalista Bon Scott e um dos mais vendidos da história da música.

Oportunismo? Até certo ponto sim, mas isso pode cair por terra assim que um desavisado ouvir as versões das músicas do AC/DC de surpresa. Dificilmente conseguirá reconhecer as músicas, tamanha a desconstrução realizada pela banda de death metal.

Existem diversos outros exemplos no rock de “apropriação” total de parte da obra – ou de um álbum inteiro – por parte de artistas em declínio ou que simplesmente querem prestar um tributo. No entanto, não me lembro de ter visto tamanha cara de pau como nos casos de Restart e Zé Ramalho.

Por mais que seja legítimo e que tenham todo o direito do mundo de fazer tal coisa, não consigo me livrar da sensação de oportunismo. Os Beatles voltaram a ter grande destaque desde o ano passado na mídia e uma nova de regravações tomou o mercado ­– mas não de uma forma tão avassaladora como ocorre por aqui.

Um astuto e perspicaz amigo músico não teve dúvidas em qualificar de forma incisiva o que ocorre. “É um ataque predatório ao legado dos Beatles”. Talvez seja. E se isso se tornar uma tendência, corremos o risco de observar o sacrilégio de ver a obra de Lennon-McCartney e Harrison totalmente banalizada. Não consigo no momento imaginar pecado maior do que este.

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