E o folk volta aos trilhos do trem nos Estados Unidos

Estadão

09 de julho de 2012 | 07h00

Jotabê Medeiros

Coloque 21 músicos de três bandas da mais nova e badalada safra do folk em um trem Zephir vintage estiloso de 1934. Leve-os para fazer música e tocar música por seis cidades, percorrendo centenas de quilômetros sob trilhos passando por praias, montanhas, campos, vales, vilas e metrópoles.

Ideia fora de propósito? Pois aconteceu. E o que poderia parecer apenas um confinamento de reality show acabou se tornando uma das viagens mais alto-astral do pop contemporâneo. Os grupos Edward Sharpe & The Magnetic Zeros e Old Crown Medicine Show se juntaram aos britânicos Mumford & Sons para uma viagem musical, em abril de 2011, num trem fabuloso, por três Estados americanos. 

 jornada, uma espécie de laboratório do folk, foi filmada pelo badalado diretor Emmett Malloy, e o filme foi lançado esta semana. Está disponível com exclusividade no iTunes para 50 países, incluindo o Brasil (US$ 9,99)

Big Easy Express poderia ser meio claustrofóbico, mas acaba sendo um precioso documento que amarra duas pontas da tradição do folk americano. Durante 8 dias, o trem com os músicos cortou a paisagem do sudoeste americano, fazendo seis paradas para shows que foram de Oakland a New Orleans, naquilo que foi batizado de Railroad Revival Tour.

As paisagens, as jams de vagão em vagão, os passeios descalços pelos campos, a aparição de uma fanfarra, a atmosfera ingênua e pacífica que o filme transmite remetem a um paraíso perdido. Entre canções fantásticas dos próprios grupos, como Home, de Edward Sharpe, compareceram covers que atestavam a legitimidade da viagem – casos de Bound for Glory, de Woody Guthrie, e Wagon Wheel, de Bob Dylan.

“É como se fosse a turnê dos sonhos”, disse Ben Lovett, dos Mumford & Sons. Dos sonhos, mas não dos banhos, lembra Marcus Mumford, líder da banda britânica.

 Curiosa sinergia juntou os grupos americanos e o inglês, como se compartilhassem algum DNA das famosas sagas musicais que forjaram o imaginário da América desde os tempos da Grande Depressão – o clima era bem mais amistoso do que aquele do filme O Imperador do Norte, que tinha Ernest Borgnine como o vilão.

“Big Easy Express conta sua história por meio da música e da beleza lírica da paisagem em movimento, permitindo à audiência ver o país do jeito que as pessoas viam há mais de 100 anos”, disse Alex Ebert, líder do grupo Edward Sharpe & The Magnetic Zeros.

“Estar num trem vintage, correndo as estradas de ferro através do coração da América, nos levou de volta a um outro tempo. Foi fácil se perder e imaginar que estávamos lá só pela diversão, curtindo com os amigos e tocando música simplesmente porque se ama fazer isso. Nossas câmeras estavam lá para participar da jornada e nunca atravessar o caminho do trem em movimento”, considerou o diretor Emmett Malloy.

Malloy dirigiu em 2009 o documentário Under Great White Northern Lights, que lhe valeu uma indicação para o Grammy. No filme, ele acompanhava a banda White Stripes pelo Canadá. No seu currículo, consta também a direção do vídeo St. Anger, do Metallica, que ele filmou na prisão de San Quentin.

As apresentações estão permeadas por uma alegria de tocar que há muito não se via no mercantilizado mundo do pop. Edward Sharpe tem essa característica de fazer happenings, mais do que shows, mas nessa turnê eles se superaram.

“Foi algo sobre a alegria da música e a alegria da camaradagem. Cada um era de uma banda diferente. Vínhamos de lugares diferentes: Inglaterra, Los Angeles, Nashville. Mas todos nos juntamos e tocamos nossos corações. Foi maravilhoso”, disse o cantor Gill Landry, do grupo Old Crow Medicine Show.

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