E da dor surge o Invisible

Estadão

10 de agosto de 2012 | 12h00

Emanuel Bomfim

Forte candidato a se tornar um dos discos do ano, Rispah tem o efeito que pouca gente é capaz de produzir. Um misto de estranhamento e graça. Não é para tocar nas FMs, mas pode virar objeto de culto entre indies interessados, roqueiros heterodoxos e, claro, em boa parte da crítica especializada mundo afora.

Na Inglaterra, o novo filhote do primo de primeiro grau do Radiohead foi recebido com entusiasmo. “Um conjunto de contemplação e catarse”, definiu a BBC.

O vanguardismo do momento atende pelo nome de The Invisible. O próprio título já é uma referência cult, ao homenagear um dos trabalhos do filósofo e poeta irlandês John O’Donohue. Fixado em Londres, o trio está na ativa desde 2006, mas tem vida em comum há mais tempo.

Dave Okumu (vocais e guitarra), Tom Herbert (baixo e sintetizadores) e Leo Taylor (bateria) são amigos desde a adolescência. Costumavam se encontrar ocasionalmente em estúdios, porém nunca cogitaram montar oficialmente um grupo.

Tanto é que sustentam até hoje inúmeros projetos paralelos. Herbert, por exemplo, integra a banda de jazz experimental Polar Bear. Taylor gravou com Adele no multiplatinado 21. Okumu produz a charmosa Jessie Ware. A lista de colaborações ainda inclui nomes como Jack De Johnette, Tony Allen, Hot Chip, Tracey Thorn e Chaka Khan – só para citar os mais ilustres.

O Invisible nasceu da perspectiva de Okumu gravar um disco solo, a convite do produtor Matthew Herbert, com quem costumava tocar. Na época, o austríaco filho de imigrantes quenianos era visto como promessa de renovação no jazz. Mas antes de assumir o estereótipo, preferiu contemplar os amigos num projeto musical colaborativo que deu o que falar desde os primeiros acordes.

“Minha maior inspiração sempre foram os meus colegas”, revela o músico. Homônimo, o primeiro álbum dos três foi lançado em 2009 e logo abocanhou vários prêmios, como o Mercury Prize, além de ser considerado o disco do ano pelo iTunes.

Três anos depois do festejado debut, o space pop do Invisible não perdeu em ousadia e ganhou em profundidade. Nas primeiras semanas de gravações de Rispah, a mãe de Okumu morreu, transformando radicalmente os rumos das novas composições. “O disco é uma carta de amor sobre o sofrimento”, declarou o filho antes do lançamento oficial, em junho.

Até a experiência vivida por ele no velório ganhou espaço na ambientação de algumas faixas. Okumu registrou o cântico religioso, os tais “spirituals” africanos, entoado pelas amigas de sua mãe. “O funeral foi muito comovente e centenas de pessoas passaram por nossa casa no Quênia para dizer adeus. Foi também o momento em que meu amor pela música se restaurou.”

O vocalista admite ter ficado com receio de extravasar sentimentos tão íntimos em novas canções, mas tinha em si o ímpeto necessário para manter-se criativo: a autenticidade. “O músico é chamado a ser o mais verdadeiro possível. É assim que as coisas se tornam realmente universais.”

Rispah, nome de sua mãe, é, de fato, um convite à melancolia. Mas não é um disco de cortar os pulsos. Na poética etérea do Invisible, a textura é trabalhada à exaustão, com guitarras em arpeggio, bateria de evocação jazzística e estrutura eletrônica abstrata, quase nada pop.

“Nossas experiências de tocar em diferentes projetos, de gêneros distintos têm cultivado uma dimensão de livre pensamento para a abordagem do nosso som. Suponho que o espírito de improvisação aponta caminhos para nossas criações”, explica Okumu.

Não bastasse a perda recente da mãe, o líder do Invisible por pouco não fritou em cima de um palco. Em maio, a banda estava em Lagos, na Nigéria, para um show com artistas locais, incluindo o ícone da world music, King Sunny Adé. Num certo momento, Okumu levou um terrível choque elétrico por mau funcionamento do baixo. A forte corrente que passou por seu corpo fez quebrar sua perna em dois lugares.

“Fiquei consciente durante todo o choque. Quando percebi o que estava acontecendo, tentei arremessar o instrumento, mas a força da corrente o mantinha preso em meu corpo. O baixo estava queimando em minha mão. Eu tentava falar, mas só gritava de agonia. Achei que não ia sobreviver.”

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