Dylan Carlson e o ressurgimento do 'drone metal'

Estadão

08 de fevereiro de 2012 | 17h00

Roberto Nascimento

No fim dos anos 80, o visionário guitarrista Dylan Carlson delineou praticamente sozinho um subgênero musical, ao incorporar o heavy metal à placidez dos “drones”, os zumbidos recorrentes na música indiana e em outros formatos tradicionais que, na década anterior, influenciaram compositores da vanguarda nova-iorquina, como La Monte Young e Terry Riley.

Mas esta brilhante e utópica transformação de distorção em algo meditativo, só existiu em sua arte. Carlson, que era amigo íntimo de Kurt Cobain, viciou-se em heroína no início dos anos 90 e teve uma participação infeliz na história do rock: foi o próprio que comprou a espingarda com que Kurt Cobain cometeu suicídio, o que lhe transformou em um vilão nos olhos de muitos fãs do Nirvana.

Em 2005, depois de uma boa década no fundo do poço, morando em parques, clínicas e na prisão, Carlson voltou para reafirmar sua relevância para a evolução da música experimental com o excelente disco Hex – Or Printing in the Infernal Method. Deu sequência à retomada com The Bees Made Honey in the Lion’s Skull e Angels of Darkness, Demons of Light Part I. Lança este mês a segunda parte deste último, disponível pela Amazon. O guitarrista falou com o Estado sobre sua história e a continuação de sua volta por cima.

Earth, com Dylan Carlson à frente

Depois de quase uma década sem gravar, você voltou em 2005, com menos distorção e mais tranquilidade. Como se deu esta transformação?

Quando eu voltei a tocar, também voltei a ouvir os meus discos. Sempre dou aquela fuçada no baú para ouvir coisas antigas, que marcaram uma determinada fase. Desta vez foi música country. Também tinha comprado uma Telecaster, que é a guitarra que nós associamos ao som do gênero. Fora isso, eu estava “clean”, literalmente (risos), pois tinha me livrado de um vício em heroína. E arte imita a vida que imita a arte.

Foram 8 anos sem gravar. Sei que estava usando heroína, mas isso nunca impediu músicos de produzirem…

Eu comecei a usar bem antes disso. Mas eventualmente a droga complicou minha relação com o meu selo. Eles rescindiram o meu contrato, mas na época eu não estava nem aí. Fui para Los Angeles, me internei algumas vezes em uma clínica, voltei para Seattle, fui para a cadeia.

O Earth criou o drone metal, Como se deu, no fim dos anos 1980, a lapidação desta proposta musical?

Foi uma combinação estranha. Eu já ouvia muita coisa, mas era muito fã de Slayer e dos Melvins. Sempre gostei do Velvet Underground também, e por intermédio deles me liguei em Terry Riley e La Monte Young, caras de Nova York que foram pioneiros do minimalismo e da repetição. Ao mesmo tempo, ouvia bandas que tinham riffs ótimos, mas eram sempre três ou quatro riffs em um música, o que me fez pensar: por que não pegar um desses riffs e repeti-lo por um tempão?

A paciência também é característica marcante do Earth, que trabalha com andamentos lentos, e os desenvolve vagarosamente. Como enxerga essa música que requer tanta atenção num contexto atual?

Acho que nossa música anda na contramão desse mundo de gratificação instantânea que existe hoje em dia. É o oposto daquela ideia de que “tudo se resolve com um clique de mouse”. Sempre uso uma analogia. É como se estivéssemos numa cidade em que há um monte de prédios e toda aquela loucura de uma metrópole, mas também há parques, lugares em que você pode ir simplesmente sentar. Nossa música é como esses parques. Morei como sem-teto em L.A. por um tempo e entendo por que as pessoas enlouquecem nesta situação: ninguém pode ficar parado em lugar algum sem fazer algo. Nosso estado psicológico está sendo dominado por uma angústia consumista. Espero que a minha música seja um antídoto para isso.

Essa analogia pode ser usada para descrever qualquer gravação de drone. Mas, hoje em dia, me parece que sua música fugiu um pouco da atenção religiosa ao drone…

As afinações abertas e o drone estão lá. Mas estão no fundo. Acho que hoje em dia o trabalho é mais como música indiana, ou drone folk, mais do que uma coisa eletrônica com uma nota que se estende perpetuamente. As pessoas acham que o drone tem de ser alto ou óbvio, mas isso não é necessariamente verdade.

Eu li em algum lugar que você é influenciado pela literatura de Cormac McCarthy. Você leu The Road?

Não! É estranho. Sempre me perguntam se é o The Road.

Talvez por causa da escuridão pós-apocalíptica que se pode enxergar na música do Earth?

Não. Na verdade eu pensei bastante na trilogia Blood Meridian, All the Pretty Horses, etc… Todas estas coisas foram parar no Hex quando eu voltei à ativa. O livro é baseado em fatos históricos. É situado na fronteira entre o México e o Texas depois da guerra entre os Estados Unidos e o México. É a história de um monte de índios e brancos, e gente ganhando dinheiro para escalpelar os outros. Os direitos de filmagem foram comprados, mas duvido que alguém faça um filme, pois não há bonzinhos nessa história (risos). Na época do disco eu também li um outro livro, cujo nome me esqueci, que argumentava que a geografia americana era em si uma entidade malévola. Além do caos que os europeus trouxeram, a própria terra era um paradigma da expansão.

Como você conseguiu superar o vício em heroína?

Eu fui para a clínica e não funcionou. Aí fui para a cadeia e comecei a usar metadona por um tempo. Deu certo. Quando saí, consegui um emprego num business de moldura de quadros e virei um ser humano novamente. Quando você vai parar na cadeia, você tem tempo de sobra para questionar o que quer fazer da sua vida. Fui forçado a crescer.

Como foi parar lá?

Cometi um crime besta. Não matei ninguém, foi só um assalto. Mas aprendi que só porque me sentia mal, não tinha o direito de fazer algo ruim às pessoas.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: