Duas noites para ouvir Joy Division

Estadão

16 Junho 2011 | 12h18

Pedro Antunes

Foram quatro anos de banda. Dois deles fazendo shows. Dois álbuns lançados. Um suicídio. Foi tudo muito rápido. Intenso. Mas o legado do Joy Division, que durou de 1976 a 1980, parece não ter fim. A lista de bandas influenciadas é enorme. E não fica restrita ao pós-punk, termo criado pela imprensa britânica para classificar o som do grupo e que se tornou sinônimo de uma forte vertente espalhada por todo o Reino Unido.

Vai de Placebo, Moby, Interpol, Bloc Party, Girls Against Boys, Low, The National até os novatos do The Drums. No Brasil, a influência mais evidente é no Legião Urbana de Renato Russo. É por isso que a presença de Peter Hook, ex-baixista do Joy Division, de 55 anos, interpretando na íntegra o primeiro disco da banda, Unknown Pleasures, lançado há 32 anos, no Estúdio Emme, hoje e amanhã, às 23h, é tão significativa.

A ideia da apresentação surgiu como uma simples homenagem a Ian Curtis, em 2010, pelos 30 anos do suicídio do vocalista. Hook planejava fazer um show com a sua nova banda pós-New Order, a The Light, em sua casa noturna The Factory, em Manchester (ING). “Pensei em tocar uma noite e nunca mais faríamos isso”, explica o músico ao JT, da sua casa, em Manchester. “Mas nunca esperei que fosse gostar tanto disso tudo”.

‘Eles que se ferrem’

É claro que os fãs mais puristas não gostaram da ideia de Hook sair pelo mundo revisitando a obra do Joy Division. Logo que foi anunciada a turnê Unknown Pleasures: A Celebration of Joy Division by Peter Hook & The Light, ele ouviu comentários de que o “Joy Division era sacrossanto e não deveria tentar ser repetido”. Ele não se importou. “Mandei todos se ferrarem (risos)”.

Estar num palco, voltando a interpretar músicas criadas há mais de três décadas fez emergir, em Hook, emoções que ele julgava estarem perdidas para sempre. “Aquilo tudo foi mágico. Não imaginava que pudesse me sentir daquela maneira de novo”, diz. Para ele, o mais emocionante era observar, ao seu lado, o filho, Jack Bates, de 21 anos, tocando as mesmas linhas de baixo que ele criara há 30 anos.

“Era como ver a mim mesmo, fazendo a primeira apresentação do Joy Division”, diz ele, referindo-se ao show em 25 de janeiro de 1978, num muquifo em Manchester chamado Pips Disco, ao lado de outra banda que viria a ser ícone do rock inglês, o Echo & the Bunnymen. “Isso foi um pouco estranho também”, completa.

O primeiro show e a turnê que se seguiu proporcionaram uma nova experiência a Hook: cantar as músicas imortalizadas pela voz grave de Ian Curtis. Algo que o aproximou ainda mais do amigo, encontrado morto por enforcamento, em sua própria casa, em 18 de maio de 1980. “Eu não era um cantor. Não sabia como isso poderia ser. Só agora comecei a perceber melhor o estilo de escrita de Ian Curtis”, analisa.

Hook, inclusive, lançou em maio uma música inédita do Joy Division, Pictures In My Mind, com a companhia da The Light, no EP intitulado 1102/2011, que também inclui as já conhecidas Atmosphere, Insight e New Dawn Fades, desta vez cantadas pela cantora Rowetta Satchell, ex-vocalista do Happy Mondays. “Ela é ótima e sabe o que é e foi o Joy Division”, diz.

Com a morte de Curtis, Hook se juntou com Bernard Sumner (guitarra e voz) e Stephen Morris (bateria), todos membros do Joy Division, para a criação do New Order. A banda fez sucesso, mas também acabou. Hook e Summer não se falam mais. “Só através dos nossos advogados (risos)”, diz.

Perguntado se os outros ex-membros do Joy Division comentaram sobre o tributo, o baixista é seco: “Não disseram nada. Aliás, eu gostaria de ver ele tentando”, diz. “Essa turnê me mostrou como a obra do Joy Division ainda é boa e atual. Isso que importa.” 

DIVIRTA-SE
Peter Hook & The Light.
Hoje e amanhã, às 23h.  Abertura da casa às 21h.
Estúdio Emme. Rua Pedroso de Moraes, 1.036, Pinheiros. % 2626-5835.
R$ 100 (hoje) e R$ 150 (amanhã).

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