Dream Theater mergulha cada vez mais no progressivo em novo trabalho

Estadão

24 de outubro de 2013 | 06h50

Marcelo Moreira

A pressa atrapalhou o Dream Theater em 2011, quando lançou “A Dramatic Turn of Events”, imediamente após a saída do baterista Mike Portnoy, um dos líderes. O disco era muito bom, e agradou aos fãs, mas ficou a sensação de que a banda poderia ter feito bem mais, poderia ter sido mais cuidadosa e caprichosa. Aparentemente o quinteto percebeu o “lapso” e decidiu se redimir com seu mais novo trabalho, recém-lançado e intitulado apenas como “Dream Theater”.

É o segundo álbum do baterista Mike Mangini, mas é o primeiro em que ele efetivamente participa de todo o processo de criação e composição – e isso fez uma boa diferença. As entrevistas dos integrantes sobre o novo trabalho indicam que o grupo sentiu estar “rejuvenescido” e com um clima bem diferente em termos de procedimentos no estúdio.

John Petrucci (guitarra) e Jordan Rudess (teclado) assumiram a liderança da banda por completo e se tornaram os principais compositores e não economizaram nas farpas, ainda que sutis, ao ex-baterista: ressaltaram a tranquilidade das gravações e do processo de composição e o clima de união e camaradagem, indicando que o tempo de Portnoy, que saiu em 2010, estava contado.

Sem grandes invenções e inovações, eis que o Dream Theater soa realmente mais intenso, rejuvenescido e mais inspirado. Todos os elementos que caracterizam o som da banda estão lá – guitarras pesadas e complexas, bateria veloz e bem trabalhada, baixo criando cadências e texturas próprias e um teclado cada vez mais presentes, assumindo o protagonismo em alguns trechos.

Pela primeira vez em dez anos surgiram canções instrumentais. A introdução leva o ouvinte a uma conclusão errada, indicando uma direção um pouco mais sinfônica. Bem executada, é bem curtas, para ser emendada com “The Enemy Inside”, o primeiro single, uma canção rápida, frenética, nervosa e urgente. A banda decidiu demonstrar em uma faixa heavy metal toda a sua versatilidade e técnica apurada.

A outra faixa instrumental, “Enigma Machine”, expõe o entrosamento quase telepático entre Petrucci e Rudess. Camadas deslumbrantes de teclados servem de apoio fundamental para os fraseados ora cortantes, ora delicados, do guitarrista.

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“The Looking Glass” e “Bigger Picture” mantém o nível alto das composições. O tom progressivo começa a dominar as ações, com Rudess conduzindo com destreza e delicadeza as melodias para que Petrucci surfe com uma facilidade irritante, transformando frases inimagináveis em sons lógicos e coerentes.

“Behind the Veil” é uma aula de bom gosto no rock pesado e técnico, enquanto que “Surrender to Reason” dá uma pequena freada na adrenalina para servir de prenúncio para a boa balada “Along for the Ride”, delicada e intensa – não tão boa quanto a épica e maravilhosa “Wither”, de “Black Clouds and Silver Linings”.

O melhor para o final, com a fantástica suíte “Illuminati0n Theory”, dividida em partes, à moda progressiva dos anos 70. Perfeito equilíbrio entre peso, técnica e dramaticidade, é uma viagem de 22 minutos em que a banda conseguiu resumir mais de uma década, neste século XXI, em uma obra-prima do metal progressivo. Não entre muito a fundo na letra filosófica e etérea, o que conta aqui mesmo é o desempenho instrumental fenomenal que ressalta a qualidade alta da composição, que tem uma estrutura que se assemelha a uma grande sinfonia.

É difícil o Dream Theater errar. Ainda que a fórmula seja certeira e que os elementos característicos estejam todos lá, o grupo ainda consegue manter a criatividade e variar na elaboração instrumental dos temas. O novo trabalho não é o melhor do grupo no século XXI, mas mantém a mesma pegada que a transformou em um dos grandes nomes do heavy metal.

“Dream Theater” é bastante pesado, mas cada vez mais progressivo, o que abre infinitas possibilidades criativas e musicais. Os fãs mais radicais vão torcer o nariz para o crescimento da influência de Rudess e seus teclados mágicos, mas esse é um caminho que não tem volta. Prestes a completar 30 anos de sua fundação, o quinteto decidiu que é hora de acelerar ainda mais, para a alegria de quem gosta de boa música.

 

 

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