Dorsal Atlântica convoca os fãs para repartir a glória

Estadão

14 de maio de 2012 | 06h51

Marcelo Moreira

O público tem de participar bem mais do que mero espectador: tem de colaborar. Esse é o lema que norteia a volta às atividades da banda pioneira do heavy metal nacional 14 anos após o encerramento das atividades e 31 após sua criação.

A banda carioca Dorsal Atlântica decidiu retornar para lançar um novo álbum, que só verá a luz do dia se os fãs ajudarem na arrecadação dos R$ 40 mil estimados para o projeto. É o crowdfunding, iniciativa inédita dentro do rock brasileiro, em especial no heavy metal.

O crowdfunding é uma espécie de “vaquinha profissional”: no caso de shows nacionais e internacionais, um grupo de pessoas se junta, entra em contato com os artistas, levantam os custos de uma apresentação ou turnê pelo Brasil e vão atrás do dinheiro, que é obtido, na maioria das vezes, com a venda antecipada de ingressos.

No caso ainda incipiente de gravação de CDs, fãs e artistas levantam todos os custos envolvidos na produção e adiantam o dinheiro para o início dos trabalhos. Quem colabora ganha privilégios, como receber edições especiais do CD antes do público, material de áudio e gráfico exclusivo e até ingressos para shows, dependendo do caso.

“Passei 12 anos de minha vida ouvindo quase que diariamente que tinha de reativar a Dorsal Atlântica, que ‘é uma referência na música brasileira’. Ok, acho que chegou a hora, mas se querem tanto que o grupo volte, então que seja um projeto sério e de qualidade, com a participação de todo mundo, inclusive dos fãs, colaborando para viabilizar o álbum”, desafia Carlos Lopes, guitarrista, vocalista e fundador do trio. A campanha de arrecadação, com o apoio do empresa/site Catarse (www.catarse.me), termina no dia 10 de junho. Clicando aqui você acessa o canal da banda no Catarse.

Formação atual da Dorsal Atlântrica: Cláudio Lopes (esq.), Carlos Lopes e Hardcore (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O músico é bastante direto ao falar da questão. “É a forma que encontramos para fazer a vontade de muita gente. A Dorsal Atlântica é uma lenda, tem uma importância enorme no rock brasileiro, mas foi o projeto que não rendeu tanto dinheiro. Meus outros projetos, Mustang e Usina Le Blond, recebem cachês mais altos. Precisamos de R$ 40 mil. Se arrecadarmos, ótimo. Se não ocorrer, devolvemos o dinheiro e enterramos o assunto para sempre.”

A formação que volta é o trio responsável pela clássica trilogia de LPs gravada entre 1984 e 1988 – “Ultimatum” (1984, dividindo com a banda Metalmorphose), “Antes do Fim” (1985) e “Dividir e Conquistar” (1987). Além de Lopes, voltam Cláudio Lopes no baixo, irmão de Carlos, e o baterista Hardcore.

Ex-jornalista e atualmente dividido entre vários projetos musicais e aulas de violão e guitarra, Carlos Lopes parece estar empolgado com a volta do trio histórico, mas se mantém bastante cauteloso quanto ao futuro. “Se tudo der certo, o CD fica pronto em setembro. Shows? Veremos como as coisas acontecem até lá.”

Pioneira do som extremo no Brasil, misturando o heavy metal cru de bandas inglesas do início dos anos 80 com a urgência punk, a Dorsal Atlântica fazia um som sujo e bastante agressivo, ao contrário dos paraenses do Stress, que pendiam mais para a vertente tradicional do heavy metal. As duas bandas surgiram em 1981 e são consideradas as precursoras do rock pesado brasileiro.

Polêmico e engajado, Lopes carregou o trio por longos 18 anos, tocando no Brasil e no exterior, chegando a gravar um álbum na Inglaterra, “Straight”, em 1996, um excelente produto que teve repercussão discreta no Brasil – o grupo trocou o português pelo inglês em seus álbuns a partir de 1988.

 

Dorsal Atlântica antes de um show em Belo Horizonte, em 1986 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Sempre disposto a uma boa briga, cansou de ser criticado por conta de sua aparente falta de modéstia – Lopes nunca se cansou de bradar que sua banda e seu trabalho, bem como ele próprio como instrumentista, eram muito importantes para a história do rock brasileiro, que é verdade. A autovalorização do Dorsal Atlântica sempre incomodou parte do público.

Agora ele enfrenta as insinuações de que estaria “ficando rico” ao estabelecer em R$ 40 mil o valor do orçamento para gravar o CD. “A Dorsal Atlântica não tem esse recurso para bancar. Estou nesse negócio há 30 anos para saber quanto custa cada coisa, já gravei e lancei 15 CDs por Dorsal, Mustang e Usina Le Blond. Eu sei quanto custa. Agora me acusam de querer ‘ganhar dinheiro’ em cima do público. Esses caras querem que monte meu equipamento na minha sala de estar, grave dez músicas em duas horas e saia distribuindo CDs toscos gravados em computador ou em pen drives. Desculpe, sei o quanto a Dorsal é boa e importante. Vou fazer direito.”

O músico carioca não tem dúvidas de esta forma de crowdfunding é a maneira mais viável para realizar turnês e álbuns para artistas considerados alternativos (ou underground).

“As pessoas se contentam com pouco hoje? Não sei. O mundo é outro, não estamos mais nos anos 80, as gravadoras não apostam mais em ninguém, nem mesmo os selos pequenos. O risco é cada vez mais rechaçado e o dinheiro só aparece quando há alguma certeza de retorno, alguma garantia. Em tempos de download gratuito, ainda tem gente que acredita que bandas e músicos têm de ter gravadora para bancar tudo. Não vali rolar nunca mais desse jeito”, diz Calos Lopes.

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