Dono do Rock in Rio diz como escolhe as bandas

Estadão

11 Setembro 2013 | 06h36

Jotabê Medeiros – O Estado de S. Paulo

No dia 30 de outubro, um ano antes de acontecer o Rock in Rio 2013, àquela altura ainda sem programação definida, a pré-venda viu esgotarem-se em 52 minutos os 80 mil ingressos disponíveis. Na venda oficial, no dia 4 de abril, todos os ingressos foram vendidos em 4h e 4 minutos.

Medina e Rodolfo, seu filho - JOTABÊ MEDEIROS/ESTADÃO
JOTABÊ MEDEIROS/ESTADÃO
Medina e Rodolfo, seu filho

O que provoca tal frisson, que leva alguém a comprar ingresso para um show que nem sabe qual será? Um pouco, obviamente, é pela lenda do primeiro grande megafestival de rock do País (que completa 29 anos este ano). Sem contar o leque infindável de atrativos musicais: mais de 160 atrações (somente no Palco Mundo, 30 artistas nos 7 dias de evento). Mas há outras razões.

Chama a atenção, na Cidade do Rock, a profusão de logotipos. Serão 73 marcas presentes, o que provoca um certo incômodo. Mas o realizador do festival, Roberto Medina, 66 anos, diz que tudo só existe por causa dessas ações.

Como você explica que o Rock in Rio passe ao largo da turbulência que afeta no momento o show biz nacional?
O Rock in Rio vendeu 600 mil tickets em quatro horas, e havia 2 milhões e 200 mil pessoas esperando no sistema para comprar. “Com isso, dava para fazer cinco Rock in Rio”, espantaram-se alguns empresários. Eu respondi: “E, ainda assim, é o evento mais barato do Brasil”. “Mas então você é um mau empresário”, disseram alguns amigos. Veja como funciona: as empresas patrocinadoras têm uma quantidade de ingressos em mãos para fazer as suas promoções durante o festival. Com a busca exacerbada pelos ingressos, o valor da promoção dessas empresas parceiras do Rock in Rio é 10 vezes maior do que aquilo que está no mercado. Vira uma coisa rara. É um outro valor que eles têm em mãos, e é isso que muita gente não entende. O meu foco é na plateia. Não é meu foco só aqui no Brasil, mas no mundo todo. Busco uma relação com aquilo que o espectador sente, mas não vê. É uma filosofia completamente diferente da que vigora nos Estados Unidos, na Europa. Fiz um levantamento da qualidade dos serviços nos festivais americanos, porque estou tentando instalar em Las Vegas um Rock in Rio, em 2015, e é um desastre completo. Elegi o festival mais importante deles, não vou dizer o nome para não melindrar ninguém, e a única coisa em comum com o Rock in Rio são as bandas. O investimento do Rock in Rio em estrutura é algumas vezes mais do que o deles. Isso acontece apenas porque nós temos as marcas junto. Antes, não era possível botar em pé um festival aqui no Brasil. Inventamos esse conceito (de iniciar a divulgação e a comercialização anos antes) que nos permite criar um vínculo maior com o patrocinador. Quando fomos a Lisboa, o maior festival de Portugal arrecadava algo em torno de 600 mil e, no primeiro Rock in Rio lá, arrecadamos 12 milhões. Em Madri foi a mesma coisa, arrecadamos 14 milhões.

Como você chegou a esse conceito?
Isso não surgiu como uma coisa planejada, mas como uma necessidade, por causa da sobrevivência. No primeiro Rock in Rio, com ingressos a US$ 10, calculamos que teríamos de vender um milhão de ingressos para pagar 50% do festival. E a outra parte? E daí fomos desenvolvendo nosso sistema. Você pega hoje a Live Nation, que é a maior empresa de shows do mundo, e eles fazem 20 mil espetáculos por ano. Desse total, apenas 4% é patrocínio. No Rock in Rio, é de 50% a 55%. Isso obriga a manter um padrão de qualidade excepcional. Este ano teremos menos gente, tiramos 15 mil pessoas de cada dia. Havia gente demais. Não vai abolir as filas, isso sempre tem, mas haverá menos fila. Segundo pesquisa do Ibope, a nota atribuída pelo público ao festival é 9,2. Nós queremos melhorar isso. Tudo aqui estará melhor este ano: os telões de LED serão maiores, a iluminação é mais sofisticada. Teremos espetáculo de fogos de artifício na abertura e no encerramento. Trouxemos uma iluminação colorida para a plateia, para dar cor ao público. O palco Sunset sozinho é um dos maiores festivais do Brasil. Nossa área VIP, este ano, tem banheiros de azulejo e sanitários de louça. A tenda eletrônica é uma aranha gigante. A Rua do Rock é toda feita em fibra de vidro, o que nos permite levar daqui para Lisboa. Os camarins dos artistas foram transferidos para o Rio Centro, para evitar atropelos ali nos fundos. Haverá lá um pianista tocando um piano de cauda o tempo todo, massagistas, todo tipo de conforto. Eu não estava satisfeito, é um caminho muito estreito. Ainda assim, teremos dois camarins de apoio do lado de dentro da Cidade do Rock.

Recentemente, você anunciou a venda de 50% do Rock in Rio para o empresário Eike Batista. E agora, parece que ele está quebrando. Isso não compromete o futuro do festival?
Não tem nada a ver comigo. Ele é um sócio capitalista, a gestão é minha. Eu nunca venderia a gestão do festival. Além do mais, o Rock in Rio é extremamente rentável. Ele veio com recursos, já me pagou. Só tenho a lamentar que um símbolo do empreendedorismo esteja passando por essa situação delicada. Não posso dizer, no entanto, se ele vai ou não vender ações, mas de qualquer modo vem outra pessoa que não ele. O meu projeto está crescendo e acredito que ele vá ter uma rentabilidade excelente pelo investimento. Eu compro a parte dele, se ele quiser focar em outra atividade. Mas ele nunca tocou nesse assunto, não me procurou por nenhum motivo desses.

Dizem que você cada vez coloca mais pop e até axé music no festival e o rock está sumindo. O que diz disso?
Olha, eu tava na Espanha e contratei a Shakira. Tinha lá um rapaz que monitorava as redes sociais para a gente e fazia um tipo de aconselhamento. Ele fez um carão e me disse: “Olha, o pessoal das redes sociais não tá satisfeito…” Cada atração mais pop ele me olhava desolado. Aí teve um dia que ele veio e me disse: “O sr. virou um rei, só estão falando maravilhas do sr. nas redes sociais!”. Eu tinha acabado de contratar o Rage Against the Machine. Acontece que o show do Rage Against the Machine foi um dos que menos pessoas levou à Cidade do Rock na história do Rock in Rio. O cara que se manifesta nas redes sociais é o mais radical, o mais ativista, é mais duro e mais heavy. Muitos incorrem no erro de dar peso demasiado às redes sociais. Tem de olhar também, mas com cuidado. Tem dois dias de heavy metal no festival. E é o público mais pacífico, gosta muito de música, são respeitosos e querem ouvir suas bandas.

Quais são as bandas que você escolheu pessoalmente na escalação do festival?
Bruce Springsteen é meu mesmo. Vi o show dele nos anos 1980 aqui, naquele show da Anistia Internacional, e foi fraco. Quando o vi este ano em Portugal, pirei. Não sosseguei enquanto não fechei. Vai ser o grande show do festival, em minha opinião. A nossa programação é escolhida pelos fãs, primeiramente. As pesquisas nos mostram o que as pessoas querem ouvir aqui e agora. Claro que não é fácil, às vezes o artista não tem agenda, não pode viver. Consumo entre dois meses e dois meses e meio do ano vendo isso, quando está faltando 7 meses para o festival. Os curadores trabalham com os encontros. O Palco Sunset ganhou notoriedade, importância, veio cobrir um buraco dos grandes shows. Este ano nós estamos levando ao paroxismo a ideia de festa, com os shows de street dance, free dance. Já tem a Rock Street, que é um sucesso, leva os fãs a uma coisa irresistível, aquele lance de brincar de casinha, de voltar a ser criança.

E a globalização do festival? Você chegou a anunciar o Rock in Rio Buenos Aires, que não vingou.
Ah, o que aconteceu na Argentina foi um pecado… A presidenta não deixa mandar o dinheiro para o exterior. O governador de Buenos Aires ainda constrói a Cidade do Rock, nós já tínhamos fechado todos os patrocínios. Não entendo como um país pode fazer as coisas com uma intervenção dessas. É uma tontería absoluta. Não percebe o impulso que o festival dá aos negócios, que continuam mesmo após o evento. Nós voltaremos a tentar Buenos Aires quando o ambiente político e econômico for favorável, agora é impossível, não há garantias de que conseguiremos honrar os compromissos. No ano passado, só em produto de licenciamento, o festival gerou R$ 3 milhões. Este ano teremos 630 produtos licenciados, é um volume extraordinário de negócios. Estou cumprindo meu sonho de criar a maior marca de música do mundo.

O Rock in Rio desfruta de um prestígio curioso: uma empresa da TV Globo, a Geo Eventos, fazia o Lollapalooza, que não conseguia tanto espaço na programação da TV. Qual o seu segredo?
Não é nada complexo. Eu sou especialista em comunicação, tenho uma estrutura permanentemente pensando em como apresentar o festival para a população. O que seduz a televisão? O que dá audiência. E o Rock in Rio dá audiência, as notícias em torno do festival são atrativas. Sempre tenho o cuidado de oferecer isso seletivamente para os veículos. Em Portugal, a maior emissora é a SIP. Pois bem, a SIP está aqui, está cobrindo. Somos um projeto de comunicação, enquanto os outros são eventos com bandas. Sabemos criar o fato jornalístico. Agora mesmo, pintou um garotinho que canta Metallica e nós vamos levar o garoto para cantar para o Metallica. Os outros não sabem fazer isso. O ensaio da Angelique Kidjo em Nova York, nós abrimos para a imprensa. Isso é matéria. Quando eu crio um prêmio de US$ 1 milhão na internet, dizem que estou jogando dinheiro fora. Não, é fundamental, aquilo dá babado, confusão, vira notícia. Como não tenho as armas da infantaria, eu vou para a guerrilha.

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