Dois Queensryche e a constatação de que o racha foi ruim para todos

Estadão

26 de junho de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

Quando Cazuza saiu do Barão Vermelho, em 1985, e Max Cavalera do Sepultura, em 1996, parte da imprensa musical repetiu o que ocorria na Inglaterra nos anos 70 e 80: “agora os fãs terão dois grandes grupos e artistas para admirar e curtir, será qualidade em dose dupla”. Uma grande falácia, para não dizer mentira estúpida. Uma cisão em bandas grandes e importantes geralmente causa perdas para todas as partes, principalmente para os fãs. Cazuza, Barão, Sepultura, Max Cavalera, Ozzy Osbourne e Black Sabbath demoraram para encontrar o rumo.

A recente briga que rachou o Queensryche, grande banda norte-americana de prog metal, não foi boa para ninguém. Pior, as desavenças não levaram em conta os fãs, que agora estão mais confusos do que nunca. Existem dois Queensryche na praça, sendo que um deles vai tocar no Monsters of Rock de São Paulo, no segundo semestre.

A banda que virá ao Brasil está sendo chamada na Europa de Geoff Tate’s Queensryche, e tem como líder o vocalista Geoff Tate, obviamente. É o único membro da formação clássica e recrutou nomes como o baixista Rudy Sarzo (ex-Ozzy e Whitesnake) e o baterista Simon Wright (ex-AC/DC e Dio)para a “nova” formação.

Já a outra banda, que faz sua divulgação como o “verdadeiro Queensryche”, reúne o guitarrista Michael Wilton, o baterista Scott Rockenfield e o baixista Eddie Jackson, todos da formação clássica. Os três se uniram ao cantor Todd la Torre e agora lutam pelo reconhecimento dos fãs.

Os quatro já tocavam juntos desde 2011 em um projeto que fazia versões para as músicas do Queensryche, justamente na época do início dos desentendimentos entre as partes. O guitarrista Chris DeGarmo deixou a a banda em 1996, para retornar apenas como músico de estúdio e compositor em 2000 para novamente sair em seguida.

A briga que separou a banda foi semelhante à que rachou o Sepultura. A mulher e uma das filhas de Tate praticamente dominavam a administração da banda desde os anos 2000, o que ocasionou um processo de desgaste grande entre todos. A mulher de Tate era a empresária e a filha mais velha, Miranda, cuidava do marketing, da promoção e do site oficial. A filha mais nova, Emily fez uma participação especial cantando em uma faixa do grupo no álbum “American Soldier”, em 2009, aos 11 anos.

Capa de “Frequency Unknown”, de Geoff Tate’s Queensryche

Quando os três remanescentes da formação clássica questionaram Tate sobre os problemas financeiros e administrativos do Queensryche, foram rechaçados e se recusou a discutir a questão – com o Sepultura ocorreu o mesmo: Gloria Cavalera, mulher de Max, era a empresária e foi “demitida” no começo de 1997 pelos outros três integrantes, que questionavam a condução dos negócios.

A questão ficou tão feia que até mesmo Parker Lundgren, o segundo guitarrista, se viu envolvido na questão por ser namorado de Miranda Tate. Michael Wilton deixou escapar numa entrevista recente que o guitarrista estava na banda por ser genro do vocalista. Só que o mais estranho é que Lundgren, surpreendentemente, não seguiu Tate e ficou ao lado do trio rebelde – e, mantendo a discrição, não fala sobre a continuidade ou não do namoro.

Em meio a disputas judiciais para ver quem usa o nome Queensryche oficialmente, as duas bandas correram e lançaram álbuns novos em 2013. A turma de Geoff Tate foi mais rápida e colocou na praça em abril “Frequency Unknown”. A impressão que fica é que a pressa atrapalhou a condução dos trabalhos de composição e gravação.

O álbum, que tem como principal música o rock atmosférico “Cold”, parece uma continuação de “Kings and Thieves”, segundo álbum solo de Tate, lançado em 2012. Segue uma linha diferente do metal progressivo do Queensryche, com timbres de guitarra mais modernos, muita presença de teclados e elementos de música eletrônica. Apressado e sem conjunto, torna-se uma miscelânea de algumas boas ideias, mas executadas de forma não muito organizada.

“Queensryche”, da banda que reúne o trio rebelde, conseguiu finalmente libertar-se das amarras estéticas impostas por Tate e mostra uma banda mais voltada para o passado de metal progressivo, o que foi uma boa ideia, já que os últimos trabalhos, os do século XXI, deixaram a desejar.

O problema é que Wilton, Jackson e Rockenfield resolveram repetir o Yes quando da saída do vocalista Jon Anderson. Escolhendo Todd la Torre, o som do grupo parece saído diretamente de 1986 ou 1988, mas sem a inspiração da época. A similaridade dos vocais do novo vocalista com os de Tate é assustadora, assim como os de Benoit David e Jon Davison são cópias do de Anderson.

As boas ideias e os riffs pesados e intensos acabam naufragando diante da impressão de que o cantor está tentando imitar Geoff Tate, mas sem ter alcance vocal e mesmo talento para tal. Fica a impressão de que contrataram um cover.

 Capa de “Queensryche”

Seja como for, o disco do trio rebelde é melhor do que o de Tate. É mais pesado, mais bem acabado e melhor produzido. O primeiro single, “Redemption”, é bem, razoável, tentando equilibrar a modernidade do metal melódico atual com o prog metal dos anos 80. La Torre dá conta do recado, mas não consegue em nenhum momento se livrar do fantasma de Tate. A abertura, com a dupla “X 2” e “Where Dreams Go to Die”, é a melhor coisa do álbum, com bastante peso, velocidade e clima soturno.

“Queensryche” é a prova de que o rompimento foi ruim para os dois lados. Deveria ser um bom álbum, uma redenção da banda em relação aos últimos trabalhos, caso Geoff Tate fosse o cantor. Ao contrário do que sempre se alega quando ocorre a separação, agora são duas bandas, e nenhuma delas é boa, seja em estúdio ou ao vivo. 

 

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