Dinho Ouro Preto canta para gerações

Estadão

29 de abril de 2012 | 07h32

PEDRO ANTUNES

Em 1980, a enorme Variant de Fê Lemos (baterista do Capital Inicial) cruzava Brasília com todo o equipamento de seu grupo na época, o Aborto Elétrico, formado ainda por Renato Russo (baixo e voz) e André Pretorius (guitarra).

Era nesse carro que o jovem Dinho Ouro Preto, então com 16 anos, maior fã do Aborto e amigo da banda, também viajava. A trilha sonora, ali, era sempre a mesma. E ele não reclamava. A voz chorosa e as letras melancólicas de Ian Curtis (1956-1980), à frente de seu Joy Division, cortavam a capital do País de cima a baixo.

No ano passado, todas essas lembranças vieram à tona quando Dinho, hoje aos 47 anos, pensava no repertório do seu disco solo Black Heart, lançado agora pela Sony Music. Um álbum de releituras de canções que o tocaram. Ontem e hoje. De Curtis, escolheu a clássica Love Will Tear Us Apart, originalmente de 1979.

Há ainda Elvis Presley, Patti Smith, The Cure, Nick Cave, Eddie Vedder, Smiths, Muse e, veja só, Pet Shop Boys (confira abaixo todas as faixas, comentadas pelo músico).

Tudo começou num impulso. Em agosto, Dinho visitou o escritório da gravadora, em Botafogo, no Rio, um mês antes de sua apresentação no Rock in Rio, em meio à turnê do álbum Das Kapital, da sua banda Capital Inicial. Perguntou a Bruno Batista, diretor artístico, se ele poderia gravar um disco solo.

“Será simples, voz e violão, com músicas clássicas em inglês”, disse o músico a Batista, que topou de imediato. Na mesma hora, eles já discutiam quais músicas entrariam, como seria o formato. A ideia era conseguir se distanciar o máximo possível do som do Capital Inicial.

(FOTO MRossi/DIVULGACAO)

“Achei que seria algo rápido”, confessa Dinho, em entrevista por telefone. “Mas acabou como o disco que mais demorei para gravar da minha carreira.” De agosto a janeiro deste ano, ele precisou organizar a agenda entre gravações de Black Heart, os shows do Capital Inicial e a rotina de composição para o próximo disco da banda.

“Foi uma loucura, cara. Uma semana gravava um dia, na outra duas, na seguinte, nenhuma…”, conta ele. O próprio disco solo, no meio do processo, ganhou mais corpo e tornou-se mais trabalhoso.

Para produzir e mixar o álbum, Dinho chamou o francês David Corcos, que deu ao Capital Inicial, em seu mais recente disco, Das Kapital (2010), um som de garagem, mais sujo. A grande qualidade de Corcos é exatamente essa: deixar essas pequenas imperfeições, sem limpar demais as canções. “Nós, já no Capital, sempre tivemos esse problema. Sempre soávamos mais pesados nos shows do que no estúdio. Isso nos incomodava demais. E o Corcos conseguiu dar essa sonoridade mais suja e imperfeita.”

O rock limpinho, diz ele, é um grande problema dos produtores do Brasil. “O Corcos trabalhou lá fora, sabe que é bom não limpar demais. Uma nova geração sabe disso, como o Daniel Ganjaman”, completa, referindo-se ao produtor do disco Nó Na Orelha, de Criolo, um dos melhores de 2011.

Nos ensaios das 12 canções escolhidas, Dinho estava sempre acompanhado por uma banda. Na hora de gravar, de fato, não conseguiu ver o disco sem Lourenço Monteiro (bateria), Eduardo Bologna (guitarra) e Mauro Berman (baixo). E isso começou a deixar o projeto dispendioso. Para os teclados e backing vocal, chamaram Koool G. Murder e Lisa Papineau, respectivamente.

Dinho sabe que, ao reinterpretar canções de Smiths e Joy Division, vai cutucar um vespeiro de fãs xiitas. “Até os próprio autores, quando regravam, recebem críticas. Esses fãs mais fervorosos ficarão putos da vida. Mas eu sei do que estou falando. Ouço essas músicas há mais tempo que eles. E outra: é gostoso sentir essa sensação de fazer algo proibido.”

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