Dez anos sem o melhor baixista da história do rock

Estadão

27 de junho de 2012 | 16h25

Marcelo Moreira

John Entwistle foi o primeiro baixista a fazer um solo em uma canção rock. Ele nunca teve essa intenção, mas foi convencido pelo guitarrista Pete Townshend e pelo produtor Shel Talmy de que seria uma boa ideia brincar com isso naquele que se tornou o maior sucesso da carreira do Who, “My Generation”.

Em uma entrevista à rádio BBC, de Londres, duas décadas depois do lançamento do single – na Inglaterra, no fim de 1965 –, Talmy disse que o Who era uma banda instintiva, orgânica e furiosa, e que só percebeu o tamanho do som do baixo de Entwistle no estúdio.

“Eles tinham gravado ‘I Can’t Explain’ antes, além de ‘Zoot Suit’ como High Numbers, mas foi em ‘My Generation’ que o som alto e pesado de John preencheu a sala. Ele era um verdadeiro guitarra-base, com sua técnica apurada, precisão e velocidade. Era óbvio que seria natural aparecer um solo de baixo com o volume lá em cima. Townshend teve a mesma impressão na hora em que percebi isso”, disse o produtor.

Entwistle, apelidado de “Thunderfingers” (dedos de trovão), foi eleito no mês passado pelos leitores da revista norte-americana Rolling Stone como o melhor baixista de todos os tempos no rock. Neste dia 27 de junho completam-se 10 anos da morte deste gênio do baixo.

Talvez fosse desnecessária tal pesquisa, já que há muito tempo é consenso de que o baixista do Who ocupa tal posto. Se as listas de melhores vocalistas e bateristas de rock sempre são polêmicas, devido ao número elevado de candidatos, as de guitarristas e de baixistas sempre foram consideradas “barbadas”. Jimi Hendrix quase sempre liderou as de guitarristas, assim como Entwistle a de baixistas.

Formação original do Who: da esq. para a dir., Roger Daltrey, Keith Moon, John Entwistle e Pete Townshend

O instrumentista do Who sempre desdenhou de tal “título”. Com seu jeito quieto e discreto, sempre foi modesto ao analisar sua carreira. Fã de jazz e de rockabilly, costumava dizer que não conseguia identificar algo de inovador em seu trabalho. Nem sequer conseguia perceber um estilo própprio, quanto mais afirmar ter criado um.

Quem desmitifica a questão é Glenn Tipton, guitarrista fundador do Judas Priest, amigo de Entwistle desde os anos 70 e que o teve como companheiro de banda em dois de seus trabalhos solo, “Baptizm of Fire”, de 1997, e “Edge of the World”, de 2003, creditado a Tipton, Entwistle and Powell (Cozy Powell, baterista fantástico morto em acidente de carro em 1998).

“Se é consenso que o heavy metal pode ter nascido a partir dos riffs de guitarra pesados de ‘You Really Got Me’, dos Kinks, o baixo pesado surgiu com Entwistle na mesma época. O som vibrante, gordo e intenso de seu baixo representava uma mudança de postura e de modo de encarar o instrumento. Em uma banda sem guitarra-base, o peso e a melodia que Entwistle imprimia ao som do Who eram muito mais do que ritmo, era uma verdadeira base”, afirmou Tipton à revista Guitar World nos anos 2000.

Entwistle com sua pequena coleção em sua mansão na Inglaterra, em 1975

A versatilidade e a genialidade de Entwistle às vezes incomodava Roger Daltrey, o cantor do Who, no palco. Não foram poucas as vezes que o vocalista brincou, mas dando o recado, quando o baixista fazia algum riff em músicas que requeriam tal procedimento: “Para que tantas notas ao mesmo tempo, John?”, perguntava Daltrey, geralmente no começo ou no final de músicas como “Boris The Spider”, “My Wife” ou “The Quiet One”.

John Entwistle morreu em 27 de junho de 2002, em Las Vegas, às vésperas do início de mais uma turnê do Who pelos Estados Unidos. Tinha 57 anos e sofreu um ataque cardíaco após uma noite bebendo brandy (uma espécie de conhaque) e usando cocaína no hotel.

 

O baixista em show do Who nos Estados Unidos no ano de 2000

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