Deep Purple e Black Sabbath: a paixão pela música passa por novas composições

Estadão

07 de maio de 2013 | 06h44

Marcelo Moreira

Deep Purple e Black Sabbath de um lado, Twisted Sister e Rolling Stones do outro. Artistas consagrados com visões completamente diferentes de como conduzir a carreira fonográfica no século XXI. Ainda vale a pena produzir música inédita em um mercado destruído pelo download ilegal e pela pirataria física (no caso do Brasil)? Dá para competir com artistas ruins massificados pelo que restou de gravadoras e por esquemas fabulosos de mídia, como Lady Gaga?

Dee Snider, vocalista do Twisted Sister, esteve recentemente no Brasil, onde se apresentou com a banda no Live’n’Louder. Em várias entrevistas concedidas a revistas especializadas justificou o fato de sua banda não ter mais a intenção de lançar discos com músicas inéditas.

“Hoje somos uma banda que toca por hobby, cada um tem seus compromissos pessoais e outras atividades. Tocamos 2o vezes por ano, no máximo. Além disso, hoje ninguém, dá a mínima para as músicas novas de qualquer artista. Antigamente, nos shows, as pessoas iam ao banheiro ou comprar cerveja no solo de bateria. Agora fazem isso quando as músicas novas são executadas. É um desrespeito, mas as coisas são assim hoje. Fazer o quê? Hoje não vejo mais sentido em lançar coisa nova. Nosso público quer sempre os dez grandes  hits que produzimos e é isso que terão”, disse Snider à revista Roadie Crew, edição de abril.

Em momentos distintos, Mick Jagger e Keith Richards disseram quase o mesmo em março, em entrevistas separadas a jornais ingleses. O último álbum da banda é “A Bigger Bang”, de 2005. “Em 50 anos de banda fizemos toneladas de músicas, mas o público não curte muito quando tocamos as novas nos shows. As pessoas também não se interessam em ouvi-las em outros meios. Dá trabalho compor, gravar e produzir coisa nova, e os resultados têm sido decepcionantes para muitos artistas. Então as coisas ficam como estão”, declarou Richards à BBC.

Deep Purple em ação na Europa em 2013

Na contramão, Deep Purple e Black Sabbath decidiram lançar novos álbuns e novas músicas. O Sabbath, pelo menos, tem um grande apelo em 2013: o retorno de Ozzy Osbourne a um álbum da banda após 35 anos de sua última gravação com a  formação original.

Já o Deep Purple acaba de lançar “Now What”, o seu primeiro álbum com novas músicas desde 2005. “Demoramos um pouco para voltar a gravar, mas sentimos que ainda somos relevantes e que temos coisas relevantes para dizer e produzir. Nosso público pede trabalho novo”, diz Ian Gillan, o vocalista do Purple, ao site Blabbermouth.net.

Mick Jagger comentou ainda em uma revista norte-americana que conversou com Jeff Beck nos bastidores do show que fizeram na Casa Branca, em Washington, no ano passado, sobre o assunto. “Admiro quem tem fôlego para encarar o estúdio e gastar horas compondo e gravando. Jeff tem produzido regularmente e é legal, mas eu vejo músicos frustrados quando lançam novas músicas que são constantemente bombardeadas, sempre comparadas a clássicos de 20, 30, 40 anos atrás. Parece que gente como nós só conseguiu fazer ‘Satisfaction’ e ‘Star Me Up’, mais nada.”

Capa de “Now What”, novo álbum do Deep Purple

Pete Townshend, líder e guitarrista do The Who, reclamou, bem humorado, da cobrança por material novo na entrevista coletiva que deu no ano passado quando do anúncio da turnê “Quadrophenia”. “Gosto de compor, mas não tenho pressa de lançar. O Who lançou ‘Endless Wire’ em 2006, havia grande expectativa e tudo para quê? Para ouvir jornalistas dizendo que não era ‘My Generation’? Claro que não era, e nem era para ser. ainda há uma certa incompreensão atualmente sobre as motivações de se fazer música nova.”

Mas a incompreensão não existiu quando David Bowie gravou em segredo seu novo álbum, “The Next Day”, lançado em março passado. Elogiado pela ousadia e pela constante inovação de seu trabalho musical e de seu marketing, Bowie se mostrou em forma dez anos depois de lançar seu último álbum. Boas canções, trabalho instrumental perfeito e um público ávido por uma novidade de um artista sempre surpreendente formam a receita para se dar bem hoje com material inédito. Foi o caso de Bowie.

“Quando a música é boa as pessoas compram, vão atrás, seja qual for o formato. Se a música é boa toca nas emissoras de rádio e ‘bomba’ no YouTube. O que ocorre é que a maioria dos artistas veteranos está preguiçosa e, quando grava, acaba por fazer algo de forma protocolar, como se fosse apenas para cumprir contrato. Para que lançar material irrelevante?”, questiona Mark Farner, ex-guitarrista do Grand Funk Railroad. Em entrevista coletiva em São Paulo, no ano passado, revelou ainda ter prazer em tocar, gravar e compor, mas que zela pela qualidade do material que produz. “Gosto de ter o que dizer.”

Essa é a essência de um músico profissional e com carreira consolidada, segundo Andre Matos, cantor brasileiro de heavy metal conhecido internacionalmente. Qual a motivação de compor e gastar dinheiro com estúdio, produção e marketing em uma época em que o público dá pouco valor ao trabalho artístico, em especial a música? “A vontade de criar e evoluir, expandir limites, fala mais alto. O músico para se sentir vivo precisa criar, compor, fazer música nova. Respeito os intérpretes que são apenas intérpretes, mas mesmo quem não compõe precisa tocar coisas novas e diferentes. Reproduzir a mesma coisa infinitamente por anos leva à estagnação.”

O arremate de Matos é perfeito para explicar porque ainda fazer música e ouvi-la no rádio/YouTube fascina, assim como observar o trabalho sendo consumido. As bandas novas não têm alternativa, precisam ter material próprio e novo para conseguir algum lugar no mercado competitivo e predatório da música atual.

Já aos artistas veteranos não basta apenas continuarem vivos e tocando por aí as mesmas canções. Para boa parte deles, não basta estar vivo: é preciso que esse pessoal sinta que está vivo. E não apenas precisa sentir que está vivo, mas que ainda é capaz de se manter relevante, ao menos para uma parcela do público.

“Antigamente a gente fazia shows para conseguir contratos para gravar álbuns. Hoje é o contrário: fazemos álbuns para termos alguma novidade e conseguir agendar uma turnê”, disse resignado Chris Boltendahl, vocalista e líder do Grave Digger, grupo alemão de heavy metal. “Entretanto, compor é para mim um ato sublime de criação, e é uma maneira de tornar m eu trabalho cada vez mais atraente e renovado.

Que o exemplo de Deep Purple e Black Sabbath perdurem por muito tempo e que seja disseminado sobretudo entre as grandes bandas que se sentem soterradas pelo mar de porcarias que dominam as paradas musicais da atualidade.

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