Decadência dos games musicais é mais um golpe contra o conteúdo musical

Estadão

19 Abril 2011 | 08h00

Marcelo Moreira

A porta de entrada para as coisas boas do rock, ou seja, para a música boa e de qualidade, também foi uma sobrevida para bandas e músicos na questão da remuneração por seu trabalho intelectual, situação que praticamente não existe mais em tempos de downloads.

Guitar Hero e Rock Band,os games de maior sucesso do mercado relacionados à música, mostraram que era possível ganhar dinheiro com o licenciamento de músicas por parte de artistas e gravadoras. Era só mais uma faceta da nova realidade de mercado da música digital. Na verdade, soa mais como consequência da venda de músicas para celulares e os chamados ringtones.

O declínio de vendas dos games musicais é ruim para o mercado como um todo. Tudo bem que ainda eram poucos os artistas que tiveram suas músicas executadas nos jogos para computador – alguns, como o Metallica (sempre eles) se recusaram no começo a permitir e licenciar seu trabalho para este segmento -, mas as possibilidades de remuneração pelo trabalho intelectual usado neste modelo era imensas e esperançosas. Mais gente tinha convição de seu trabalho poderia migrar para os games

Resta agora incentivar a disseminação de conteúdo pago – e de qualidade – digital para que o mercado se restabeleça  e incentive a possibilidade de novos modelos de negócio que privilegiem (ou valorizem) o conteúdo musical, e não o destrua ou o entregue de graças a abutres.

Uma possibilidade bem concreta é a de desenvolvimento de programas e aplicativos que permitam a venda e execução de conteúdo legal musical para celulares, tablets e smartphones sem tantas restrições, como é o caso do iTunes.

O especialista da nossa equipe em convergência de novas mídias, Maurício Gaia, em breve vai discorrer sobre as novas possibilidades reais de artistas e gravadoras ganharem dinheiro com a venda e licenciamento de conteúdo  músical legal e vai mostrar aos mais céticos, como eu, que existe sim futuro para o mercado musical no formato digital, desde que, é claro haja criatividade e investimento em tecnologia.

Integrantes do Sepultura brincam com o Guitar Hero em desafio à banda Angra (FOTO NILTON FUKUDA / AE)

 E apenas arrematando o interessante ponto de vista de Décio Trujillo a respeito do “fechamento” da porta de entrada para as crianças à música decente e de qualidade, como era o caso do Guitar Hero e do Rock Band, resgato aqui trechos de um texto do Jornal da Tarde de janeiro de 2010, de autoria do repórter Marco Bezzi. O personagem retratado é a maior evidência e o maior exemplo do que Trujullo narrou:

” Com canções de clássicos do rock como Queen, Deep Purple, Motörhead e Cream, o jogo fez com que uma nova geração abrisse os ouvidos para velhas canções. Uma delas foi Spanish Castle Magic, de Jimi Hendrix.

“Conheci o jogo no shopping e pedi pro meu pai comprar. Depois de jogar por um ano e pirar no Jimi Hendrix, Joe Satriani e Slash meu pai me deu uma guitarra de presente há dois anos”, conta Bruno Ramos, de 9 anos.

Para conhecer mais o “novo” ídolo, Bruno foi atrás de suas composições e de vídeos no You Tube. “Baixei muitas músicas dele e sei tocar Spanish Castle Magic.”

Outro aficionado pela franquia Guitar Hero é o carioca Thomas Sampaio, de 11 anos. “Meu pai me comprou o jogo e eu viciei logo de cara”, fala Thomas. “Logo no primeiro dia ele me mostrou o Jimi Hendrix e eu achei muito legal. Comecei a assistir a DVDs, baixar música na internet, ler sobre sua vida.”

Thomas também trocou o instrumento de brincadeira pelo real. “Comecei a tocar violão e depois passei para a guitarra.” Hoje, tanto Thomas como Bruno sabem quem é Jimi Hendrix e sua importância para a música mundial. E pensar que a “culpada” de tudo isso foi uma simples guitarrinha de plástico.