De volta aos tempos do vinil – em busca da qualidade de som perdida

Estadão

16 de agosto de 2012 | 06h45

Casas Bahia vendendo álbuns em vinil pela internet, assim como Saraiva, Fnac, Livraria Cultura e outras lojas especializadas em cultura. Em tempos de profusão de downloads ilegais e de várias condenações do CD e DVD à morte, eis que o velho e bom LP ainda tem um mercado cativo. Claro que no século XXI ainda é coisa de colecionador, na imensa maioria dos casos, mas cresce a parcela do público que está aderindo à moda retrô de ouvir o barulhinho mágico da agulha riscando o vinil. A tendência foi detectada com sagacidade e inteligência pela revista IstoÉ Dinheiro, em interessante texto da jornalista Bruna Borelli reproduzido abaixo, antecipando uma pauta que o próprio Combate Rock desenvolveria no mês de setembro. (Marcelo Moreira)

 BRUNA BORELLI – ISTOÉ DINHEIRO – EDIÇÃO 774 DE 3 AGOSTO DE 2012

“Steve Jobs foi um dos pioneiros da música digital, mas, quando ele ia para casa, ouvia discos de vinil.” Essa afirmação, feita pelo cantor canadense Neil Young pouco antes da morte do fundador da Apple, no fim do ano passado, vai ao encontro de um fenômeno mercadológico visto nos Estados Unidos nos últimos anos: as pessoas estão comprando mais LPs. Somente no primeiro semestre de 2012, a venda de discos de vinil cresceu 14,2% em relação ao ano passado entre os americanos, segundo dados divulgados pela consultoria Nielsen Soundscan, especializada na indústria fonográfica. Nem mesmo os álbuns digitais, tão em voga nesta década, apresentam crescimento superior ao de vinil, ficando em torno de 13,8%. 

 
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Mercado aquecido: João Paulo Bueno, diretor de compras de CDs e LPs da rede Livraria Cultura,
diz que cada vez mais os jovens, e não apenas os saudosistas, se interessam pelo vinil
 
O Brasil, como já era de se esperar, segue os mesmos passos. “Trata-se de um fenômeno mundial que o País vem acompanhando graças ao aumento na oferta de títulos”, afirma João Augusto, dono da brasileira Polysom, única fabricante de LPs da América Latina. Trata-se de uma virada e tanto no cenário, que nas últimas duas décadas praticamente havia selado a morte do vinil. Isso porque, com o sucesso do compact disc – os CDs – nos anos 1990, o vinil perdeu espaço no mercado. A Polysom, que surgiu justamente quando a indústria fonográfica abandonava o formato, é uma prova disso. Teve de fechar as portas em 2007 e reabriu dois anos depois, dessa vez pelas mãos do experiente João Augusto, que possui em seu currículo passagens pelas gravadoras EMI, como vice-presidente, e a Deckdisc, como proprietário. 
 
“Fazer vinil é caro, trabalhoso e pouco lucrativo”, afirma o empresário. “É assim até mesmo nos Estados Unidos, onde o revival começou.” Segundo ele, o crescimento do vinil no Brasil será mais efetivo quando o preço cair – hoje, os LPs produzidos pela Polysom custam entre R$ 70 e R$ 120. João Augusto culpa a taxação brasileira, que eleva em 70% o preço final, a maior carga tributária do mundo no setor. Mas esse valor ainda é baixo comparado a alguns discos de vinil originais encontrados no mercado, como o That’ll be The day, dos britânicos The Quarrymen (banda que deu origem aos Beatles), cujo exemplar vale US$ 180 mil. Os aparelhos toca-discos também são um mimo à parte quando o assunto é estilo e alto preço. 
 
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Charme e qualidade de som: o aumento nas vendas de discos de vinil traz otimismo aos donos
de lojas especializadas, como Luis Calanca, proprietário da Baratos Afins
 
É o caso da dinamarquesa Bergmann Áudio, com a sua tecnológica vitrola Sleipner, que custa US$ 54 mil e promete uma reprodução de som da mais alta qualidade. Mais luxuosa, ainda, é a Reference II da suíça Goldmund. Feita à mão e disponível em 25 unidades, a peça atinge a quantia exorbitante de US$ 300 mil. “Mais do que um resgate do passado, os consumidores procuram a união entre o design retrô e a tecnologia”, afirma a pesquisadora de tendências Sabina Deweik. Segundo ela, o advento da internet trouxe um excesso de informações que deixa o consumidor perdido no meio de tantas opções. “Vivemos um momento em que as pessoas confiam na história e na tradição.” Essas palavras soam como música para microempresários como o paulista Luiz Calanca, 59 anos, dono da loja Baratos Afins, especializada em discos de vinil. 
 
“Sempre acreditei na força dos LPs”, diz o ex-farmacêutico, que hoje tem cerca de 100 mil discos de vinil em sua loja na Galeria do Rock, na rua 24 de Maio, no centro de São Paulo. “Cheguei a comprar coleções inteiras dando como moeda de troca o CD porque sabia que as pessoas se desencantariam com essa modernidade no passar dos anos”, diz Calanca. Outro a investir no ramo é Marcio Custódio, 32 anos, dono da Locomotiva Discos em parceria com o irmão Gilberto. “Tenho percebido um aumento na quantidade de jovens que se interessam pelo disco de vinil”, afirma Custódio. Para ele, isso acontece porque, no computador ou iPod, a música vira um mero fundo musical. “Você ouve música enquanto checa o e-mail ou dirige.” Já escutar no formato vinil é um ritual em que as pessoas param para ouvir a música de verdade. 
 
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Os irmãos Marcio (de óculos, abaixo) e Gilberto Custódio,
da Locomotiva Discos, as duas de São Paulo
 
“E na ordem de faixas que o artista pensou ao gravar aquele álbum”, afirma. Tanto é verdade que o mercado não está em crescimento apenas por conta dos saudosistas que no ano passado os dez discos de vinil mais vendidos (abaixo do clássico absoluto Abbey Road, dos Beatles) são de artistas contemporâneos, como Jack White, Radiohead e Black Keys. A rede Livraria Cultura, de São Paulo, também colhe bons frutos com o aquecimento do mercado. Segundo João Paulo Bueno, responsável pela compra de CDs e LPs para as 13 unidades da rede, só no primeiro semestre de 2012 a procura por discos de vinil na loja cresceu 300% em relação ao ano passado, sem revelar o número de unidades vendidas. 
 
“É claro que é preciso levar em consideração que os LPs ainda representam 6% do faturamento total da Livraria Cultura”, afirma Bueno. A ligação com o design é outro motivo para os discos de vinil voltarem à tona. “Os projetos gráficos das capas são muito mais bonitos e elegantes”, diz João Augusto, da Polysom. Sem contar os toca-discos que, novos ou antigos, se tornaram também um item de decoração. Como outro atrativo, o empresário destaca a qualidade do som, muito superior aos seus concorrentes mais modernos. “O vinil conserva uma profundidade do som que se perde claramente nos formatos digitais.” Se até o próprio Steve Jobs, um dos maiores gênios da tecnologia, concordava com isso, quem haverá de achar o contrário?
 
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