David Bowie, para ler no último volume

Estadão

26 Novembro 2010 | 08h28

Ana Paula de Barros – Especial para o Estado de S. Paulo

Nem Ziggy Stardust nem Thin White Duke, os dois personagens misteriosos e hipnotizantes criados por David Bowie, são David Bowie. Com um talento incomum para observar tudo ao redor, o inglês flertou com gente e estilos de toda cor, do glitter ao punk, do hippie ao eletrônico, homens e mulheres.

A reinvenção artística foi uma obsessão do tamanho do seu apetite pelas fileiras de cocaína que o transformariam em um dos artistas que mais consumiram drogas nos anos 70. E que melhor manipulou a própria sexualidade em benefício dos discos que lançava.

O jornalista e fã assumido Marc Spitz começa Bowie – A Biografia com uma frase convidativa: “Para ler no volume máximo.” Não é à toa. O livro faz um relato com detalhes de fatos importantes de sua criação e episódios muitas vezes polêmicos, conseguidos por meio de pesquisas e entrevistas com pessoas do círculo íntimo de Bowie, como sua ex-mulher Angie Bowie e os amigos Kenneth Pitt, Siouxsie Sioux, Camille Paglia, Dick Cavett, Todd Haynes, Ricky Gervais e Peter Frampton.

David Bowie nos anos 70 (FOTO: MICK ROCK /DIVULGAÇÃO)

David Bowie não lança um disco desde 2003, quando fez “Reality”. No ano seguinte, interrompeu uma turnê para fazer uma cirurgia de emergência e reparar uma artéria obstruída.

“Mal posso esperar para me recuperar totalmente e voltar ao trabalho. Contudo, digo a vocês que não vou escrever uma música sobre isso”, disse alguns dias depois da cirurgia. E não escreveu mesmo. Os anos de fama, drogas, má alimentação e principalmente muito fumo mostraram seus efeitos, como conta Spitz.

David Robert ‘Bowie’ Jones, de 8 de janeiro de 1947, sempre foi ambicioso e dedicado. “Sou o melhor e não dou a mínima para quem sabe ou não”, disse em uma entrevista de 1964. Mas só conseguiu sucesso após seis anos de carreira, três álbuns fracassados e quase uma dúzia de singles sem êxito. Assim, o livro de Marc Spitz vai desconstruindo as personas de Bowie para fazer entender o artista.

Personagens

Durante a adolescência e em parte da vida adulta, ele sofreu muito com a sua timidez e este, provavelmente, é um dos motivos que o levaram a criar personagens como Ziggy Stardust, que marcou o início do seu reconhecimento artístico. O medo da loucura também sempre o assombro.

 Bowie passou boa parte do começo de sua vida se perguntando ‘quando’ e não ‘se’ ficaria realmente maluco. Doenças mentais pareciam manchar seu código genético. Várias pessoas da sua família por parte de mãe eram loucas.

Seu meio-irmão Terry manifestou transtornos mentais desde jovem. Bowie venerava Terry, e o irmão mais velho amava o menino. Em 1985, uma semana depois de Bowie completar 38 anos, Terry cometeu suicídio em uma ferrovia em Londres, o que o abalou profundamente.

Drogas

 Em 1973, após o fim do personagem Ziggy Stardust, a cocaína passou a ter um papel fundamental na vida de Bowie. A biografia afirma ser bem possível que tenha sido ele a criatura a usar mais cocaína na metade dos anos 70 do que qualquer outro ser na história da cultura pop.

“Se você realmente quer perder todos os seus amigos, cocaína é a droga certa”, contou Bowie em uma entrevista. O pó foi responsável por aparições sem sucesso em programas de TV, deterioração da sua imagem e saúde. Ele chegou a pesar 40 quilos. Por outro lado, foi durante esse período que compôs Station to Station, considerada por muitos sua melhor obra.

Desde pequeno Bowie já apresentava uma aparência andrógina, sua característica marcante. “Quando fiz 14 anos, o sexo, de repente, se tornou relevante. Não importava realmente com quem ou como era, contanto que fosse uma experiência sexual. Não era difícil levar algum cara bonitinho da classe para casa e transar com ele”, aparece dizendo no livro.

FOTO DIVULGAÇÃO

A homossexualidade muitas vezes foi usada para chamar a atenção da mídia e dos fãs. Sua primeira grande jogada de marketing foi assumi-la durante uma entrevista para promover seu disco Hunk Dory, de 1971. “Sou gay e sempre fui, mesmo quando era David Jones.”

Ambiguidade

O que mais chamou a atenção da mídia à época foi sua ambiguidade sexual, já que ele estava casado com Angie Bowie. Uma década depois, no início dos anos 80, o astro ‘decepcionou’ seus fãs gays ao declarar que sua homossexualidade era apenas “curiosidade da juventude”.

 Ao longo de sua carreira, Bowie fez amizades com diversos astros. Gente da grandeza de Brian Eno, Tony Defries, Tony Visconti, Ralph Norton, John Lennon, Frank Sinatra, Moby e Freddy Mercury, com quem criou “Under Pressure”, composta, gravada e mixada em apenas um dia. Com Iggy Pop, a relação foi um pouco mais próxima.

Os dois se identificavam e se ajudavam. Em 1977, moraram juntos em Berlim e Bowie produziu “The Idiot”, o primeiro disco solo de Iggy, que marca seu retorno à música após o forte envolvimento com as drogas.

Mick Jagger é retratado na biografia como amigo e rival na disputa por atenção e sucesso. A competitividade entre os dois estimulava as duas carreiras. Existem boatos de que teriam se relacionado sexualmente. Angie Bowie, em sua biografia, conta que pegou os dois na cama, mas o fato não é confirmado pelo autor Marc Spitz . Lou Reed é outro astro que inspirou Bowie e que também pode ter mantido relações com o artista, segundo relatos do livro.

Família

Bowie conheceu sua primeira mulher Mary Angela Barnett, a Angie Bowie, em 1970. É impossível mensurar quanto ela foi importante em sua carreira, principalmente nos seus primeiros trabalhos – Hunky Dory e Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Em 1971, tiveram um filho, Duncan Zowie Haywood Jones.

O casamento durou oito anos, mas Bowie viveu mais tempo afastado da família por causa das drogas, trabalho e sexo livre. Em 1978, tentando enfim livrar-se das drogas, foi viver perto de Montreux, na Suíça, e se reaproximou do filho, levando-o para morar com ele.

As águas começaram a ficar mais calmas em 1992, quando se casou com a supermodelo Iman. Os dois passaram a morar em Nova York onde, em 2000, nasceu a filha do casal Alexandria Zara, nome que, em árabe, significava um estado de espírito que o astro tanto buscava: ‘luz interior’.