Cruzada moralista e conservadora contra o rock está mais forte do que nunca

Estadão

01 de agosto de 2011 | 07h00

Marcelo Moreira

A cruzada conservadora contra tudo o que ofenda os bons costumes está se manifestando onde menos se imagina. Já não é exclusividade do Terceiro Mundo as agressões a qualquer integrante de grupos que pensem diferente do padrão estabelecido.

No Brasil são cada vez mais comuns ataques a gays, mendigos e nordestinos. Na Alemanha e na França, os alvos também são os gays, mas principalmente os imigrantes africanos, asiáticos e turcos. Nos Estados Unidos, imigrantes latinos são discriminados a todo mundo, assim como os asiáticos são vítimas de máfias diversas, com certa conivência das autoridades.

A intolerância não demoraria a reaparecer e a recrudescer nas áreas culturais. Narrei aqui no Combate Rock recentemente um caso de bullying, onde um garoto adolescente chegou a ser agredido em uma escola particular de classe média em São Paulo apenas e tão somente porque gostava de heavy metal e vestia camisa de bandas.

Caso isolado? Não, pois são recorrentes casos semelhantes narrados pelas vítimas em vários cantos do Brasil – se isso acontece na cosmopolita e “internacional” São Paulo, imagine então em uma cidadezinha do interior da Bahia ou de Goiás…

Pois foi no interior de São Paulo que na semana passada ocorreu algo bem pior, na minha opinião – a institucionalização de uma cruzada, ainda que local, contra o rock.

 

Um dos festivais de música escolar mais legais de São Paulo é o promovido pelo colégio Pentágono, que reúne bandas de qualidade que surgem em todas as filiais. Na foto, na edição de 2009, a Banda Acústica/Pentágono Perdizes - Lucas Barcello, Rodrigo Busico, André Alves Santin e Bruno Medeiros (FOTO; PENTÁGONO/DIVULGAÇÃO)

Por questões de preservação de fontes e de dificuldades para confirmar alguns pontos da história, nomes da cidade e da escola serão omitidos, assim como o de alguns personagens. O que importa, realmente, é o fato relevante.

A cidade do interior paulista tem quase 200 mil habitantes e sua economia cresce aceleradamente. As escolas, tanto públicas como particulares, são de bom nível. E foi em uma das mais caras – e supostamente das mais liberais – que o rock pesado foi vetado em um festival interno de música.

De forma surpreendente, o evento deste ano passou a ser “monitorado”, segundo o pai de um aluno, que deveria inscrever no festival uma composição própria e uma versão do clássico “Run to the Hills”, do Iron Maiden.

“As regras mudaram neste ano. As músicas inscritas agora precisam passar por uma avaliação prévia, feita pela direção ou por gente ligada à direção, sendo que o veto foi instituído. É claro que todos rocks foram vetados. O resultado é que mais da metade dos alunos que sempre participam decidiu boicotar o evento”, disse o pai do garoto, um engenheiro fã de Beatles e Creedence Clearwater Revival.

Uma psicóloga, mãe de duas meninas que fariam uma versão de uma música da banda feminina Kittie, interpelou a direção da escola sobre a censura. Esta foi negada, mas a explicação foi lacônica: “Queremos adequar o conteúdo do festival à linha educacional da escola.” Ou seja, não disse nada.

Outras duas escolas da cidade, uma delas religiosa, adotou a tolerância zero aos rock: aboliram festivais de música e proíbem qualquer alusão a bandas em camisetas ou calças.

 

Mais um flagrante do festival do colégio Pentágono de 2009, um exemplo de organização e de incentivo à música e ao rock. Na foto, Banda Cashback /Pentágono Morumbi - Luiz Henrique Crivelari, Gustavo Sigaud e Hugo Sigaud (FOTO: Pentágono/Divugação)

Não tenho porque duvidar dos relatos. São pessoas do meu convívio e muito próximas de parentes meus. Não coloco em dúvida a veracidade, mas, para que os nomes sejam publicados, é necessário um trabalho jornalístico mais aprofundado.

Não bastassem essas manifestações de intolerância e censura, outras semelhantes foram registradas no ano passado em duas cidades do noroeste paulista e em duas do sul de Minas Gerais, quase na divisa com São Paulo.

É exagero dizer que estamos entrando em uma nova era de trevas? Talvez sim. Mas o que espanta é que a coisa ocorre também na pátria da liberdade.

Lucas Bertin é um ex-guitarrista profissional de metal progressivo. Nascido em Paris, tocou em diversas bandas de metal progressivo francesas, subgênero que é uma febre no país. Desistiu da música diante da crônica falta de apoio do público francês e partiu para trabalhar como artista gráfico e repórter free-lance de revistas de música nas horas vagas.

Como jornalista, percebeu que teria tão ou mais dificuldades que como músico e decidiu partir para a Bélgica, e hoje mora no Canadá. Ficou horrorizado com a cruzada conservadora contra o maior festival de rock pesado da França, o Hellfest Summer Open Air, em Clisson, na região de Nantes – foi um dos motivos que o fez deixar o seu país.

Cartaz oficial do Hellfest 2011

Em 2009, grupos conservadores ligados à Igreja Católica fizeram uma ampla campanha para proibir judicialmente o festival. Não conseguiram e decidiram atacar de forma absurda os patrocinadores, incentivando uma campanha de boicote e até mesmo de depreciação da imagem. Três deles capitularam, inclusive o maior fabricante de refrigerantes do mundo.

“É inacreditável que as forças do obscurantismo estejam ativas em um país que é um dos berços da cultura ocidental moderna. Não só estão ativas como obtendo resultados, conseguindo incomodar e até espantar patrocinadores gigantes. O simples fato de que isso tenha ocorrido na França é assustador”, afirmou Bertin, em rápida passagem pelo Brasil – sua namorada é brasileira.

No ano passado, ano de eleição regional na França, vários candidatos de diversos partidos políticos encamparam nova campanha dos carolas nojentos e lutaram pelo cancelamento. Não conseguiram.

 

Flagrante do terceiro dia do Hellfest 2011, na França: queriam proibir o garoto de ver um pouco da melhor música que existe

As entidades católicas não desistiram e foram à Justiça para ao menos proibir a entrada de menores de 18 anos, anexando ao processo capas de CD, transcrição de letras e material gráfico das bandas participantes. O juiz não pensou duas vezes: negou o pleito.

Esses grupos asquerosos são persistentes e tentaram novamente paralisar a edição de 2011 e impedir os menores de assistir aos shows. Só que, desta vez, foram dissuadidos antes mesmo de impetrar a ação judicial. Alguém fez chegar aos ouvidos dos advogados da cambada de papa-hóstias que a ação sequer seria analisada. O festival ocorreu normalmente entre os dias 16 e 18 de junho passados.

Isso ocorreu na pátria da cultura e da liberdade. Daqui por diante só podemos esperar que as coisas piorem.

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