Coverdale-Page: 20 anos de uma obra-prima subestimada

Estadão

18 de março de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

No auge da fama do Whitesnake, entre 1987 e 1990, David Coverdale concedeu uma entrevista a uma revista inglesa onde desdenhava de algumas músicas do Led Zeppelin e sobre supostas acusações que estava recebendo por ter plagiado ou ao menos ter copiado trechos de outras músicas em suas composições.

“Isso é bastante questionável. Se formos levar a fundo mesmo, então mudaremos a história e o Led Zeppelin terá de pagar um dinheirão para Willie Dixon (bluesman norte-americano). Ele é o ‘verdadeiro’ autor do primeiro LP do Led”, disse Coverdale.

A falta de jeito e de educação espantou quem o conhecia. Afinal, desde os tempos de Deep Purple que ele havia deixado o estilo polêmico para lá. Um jornalista brasileiro tentou lembrá-lo anos atrás sobre a declaração durante uma entrevista por telefone, mas o cantor inglês desconversou e afirmou não se lembrar daquelas palavras.

O curioso é que, para se defender à época, acabou atacando Jimmy Page, o principal compositor do Led Zeppelin. Pouco tempo depois, Coverdale pareceu não se importar em trabalhar com um “plagiador”. Mais do que isso, afirmou na época do lançamento do álbum “Coverdale-Page” que aquele era um dos melhores trabalhos que tinha produzido e que o ex-guitarrista do Led Zeppelin era um gênio.

O subestimado álbum que reuniu os dois grandes astros ingleses foi lançado em março de 1993, com resultados apenas razoáveis na Inglaterra e nos Estados Unidos em termos de vendas. Foi mais uma obra de grande porte e de excelente qualidade ofuscada pela moda passageira chamada grunge, que legou apenas Pearl Jam e Soundgarden  como atrações de alguma relevância artística.

O projeto que reuniu os dois era secreto em meados de 1991. Foi de ideia do estafe de Page convidar Coverdale para um projeto de hard rock, só que mais pesado, já que Robert Plant recusara nova proposta de reativar o Led Zeppelin. Coverdale ficou entusiasmado e aceitou conversar e tomar umas cervejas com Page e seu empresário para ver se rolava algo.

Dois depois, estavam na casa do guitarrista para algumas jams no estúdio caseiro do local; um mês depois, estavam assinados os contratos para que o Coverdale-Page, nome escolhido para o projeto.

E tudo foi feito em segredo, que conseguiu ser mantido até o começo de 1993, quando ninguém conseguia entender o porquê de o vocalista ter desfeito o Whitesnake após a turnê de estrondoso sucesso de 1990.

“Coverdale Page”, álbum homônimo lançado no meio de 1993, é uma obra-prima do hard rock, mesclando a veia mais popular de Coverdale e o peso das guitarras zeppelinianas de Page.

O vocalista foi criticado à época por exagerar nos agudos em algumas músicas, o que foi encarado como uma tentativa de emular as performances de Robert Plant nos tempos áureos do Led, na década de 70.

É fato que Coverdale forçou um pouco, mas nada que tire o brilho de músicas fantásticas como “Absolution Blues”, “Shake My Tree”, “Take Me For a Little While”, “Whisper a Prayer for the Dying”, “Pride and Joy” e “Over Now”.

O entrosamento entre os dois músicos foi total, desde as jams na casa de Page até as jams realizadas no Japão como aquecimento para a turnê. O problema é que tudo estava indo bem demais, todo mundo estava feliz demais, e isso é um perigo em se tratando de Jimmy Page.

Há quem diga que o guitarrista é notório por ser perseguido pelo azar ou por “maus fluidos”. Seja como for, o que deu muito certo nos bastidores e nos ensaios ficou esquisito nos palcos.

As primeiras performances no Japão foram ótimas, mas depois a coisa começou a complicar. Os empresários de Page começaram a se incomodar com as performances bombásticas de Coverdale, além das vendas decepcionantes, apesar de boas, do CD. Eles achavam que choveriam convites para turnês pela Europa e Estados Unidos, mas isso não ocorreu.

Após sete shows no Japão Page foi praticamente obrigado pelos empresários a “descontinuar” a dupla por medo de fracasso financeiros no resto do mundo. Isso não afetou a amizade entre os dois, mas Coverdale não poupou críticas e acusações pesadas contra os empresários de Page. Nem mesmo um CD excelente fui suficiente para manter esse projeto em pé.

Alguns anos depois, em 2000, durante entrevistas para divulgar o álbum solo “Into the Light”, Coverdale insinuou que a parceria não foi em frente porque já havia conversas bastante adiantadas entre os empresário de Robert Plant e Jimmy Page para retomar o Led Zeppelin ou fazerem um trabalho em dupla.

Seja como for, Coverdale parecia ter razão. Page e Plant voltaram a tocar juntos em 1994, quando gravaram um especial para a MTV que aabou sendo lançado em DVD e CD com o nome de “No Quarter: Jimmy Page and Robert Plant Unledded”.

Quatro anos depois foi lançado o CD “Walking into Clarksdale”, totalmente com músicas inéditas, sendo que a parceria chegou ao fim no ano seguinte. Assim como o BBM – o Cream de Eric Clapton sem o mesmo, com Gary Moore em seu lugar –, o Coverdale-Page foi um grande projeto que não vingou por questões puramente comerciais. Quem perdeu fomos nós.

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