Contra downloads ilegais – O desafio de uma cena

Estadão

28 de março de 2013 | 06h55

Marcos Garcia – site Metal Samsara

Bem, atualmente, já foi debatido, bem como está extremamente batido, o tema dos downloads ilegais. Mas ainda há alguns pontos que precisam ser bem esclarecidos a todos os fãs de música, ainda mais o Metal, com seu forte ranço underground.
Primeiramente, deixemos claro que o mainstream em pouco é afetado pelos downloads ilegais. Bandas como IRON MAIDEN, METALLICA, e outros de mesmo alcance, já fora do underground, em nada sofrem com isso. Quem paga as contas são as empresas, já que o maior percentual da venda dos CDs são das próprias gravadoras (estas sim tomam prejuízos).
Mas quando se trata de underground, o estrago é bem maior do que se supõe…
Vamos analisar os aspectos que circundam a chegada de um CD ao mercado, sem no entanto, entrar a fundo em suas complexidades.
O primeiro passo é a gravação, com todos os seus detalhes (gravação, mixagem, masterização). Aqui, se pagam as horas de estúdio, o trabalho do produtor e dos técnicos. Óbvio que existem os autodidatas, mas em geral, profissionais de ponta, como Andy Sneaps, Colin Richardson, Scott Burns, produtores, tem honorários, pois é o trabalho deles, e nada mais justo.
O segundo é a prensagem. Aqui, estão os processos de prensagem do resultado da gravação na mídia física, bem como na confecção do encarte (o que abrange o trabalho do designer), e a embalagem. Aqui, o dinheiro paga a prensagem da mídia física com o selo do CD, o designer gráfico que fez a arte, e a embalagem. Fica mais caro quando se usa encartes com várias páginas ou embalagem digipack.
A terceira parte: divulgação e distribuição. Aqui, paga-se correios para envio de material para críticos, bem como propaganda em sites e revistas especializadas. E como diz o velho ditado, ‘a propaganda é a alma do negócio’, tanto que se não fosse por ela, bandas como METALLICA e mesmo o IRON MAIDEN, ambas surgidas em períodos de efervescência musical em suas cenas, talvez nunca tivessem sido conhecidas, uma vez que tinham pares tão bons quanto elas. A divulgação de um trabalho separa o METALLICA do FORBIDDEN, e o IRON MAIDEN do BLITZKRIEG.
A quarta parte: o lojista, quando vende o CD, precisa receber uma soma em dinheiro, uma vez que tem que pagar as contas das lojas, mesmo quando estas estão no ambiente virtual.
Diante disso, a necessidade das gravadoras venderem seu trabalho é grande, uma vez que geram empregos e, conforme o retorno financeiro, se animam em lançar mais e mais bandas, bem como a abraçar mais e mais as bandas do underground, lhes dando a oportunidade de mostrar seus trabalhos ao público.
Em termos de underground, todos com o mínimo de convivência no meio, sabem o quanto é sofrida esta luta, mais ainda daqueles que resolvem investir em lançamentos de CDs de bandas gringas com selos independentes, buscando atender ao clamor de um público carente, mas apesar dos esforços dessas, que colocam CDs e DVDs de bandas de fora em suas versões nacionais (onde se deve pagar o licenciamento à gravadora gringa. E isso custa dinheiro e responsabilidades contratuais, que nem sempre são simples ou baratas de serem cumpridas), os fãs continuam com os downloads ilegais.
E não, vocês NÃO estão ajudando a banda a se divulgar quando baixam um CD e não pagam por ele. Vocês estão LESANDO alguém que investiu e trabalhou para aquele CD chegar às lojas, e pode-se dizer assim, roubando trabalhadores que investiram esforços naquilo.
Os seus preciosos 25-30 reais fazem falta nas engrenagens que movem as empresas do ramo fonográfico, e assim, estas param de investir em bandas que pequenas e começam a pôr dinheiro apenas nos grandes. Muitos reclamam que suas bandas favoritas (ou sua própria banda) não recebem o incentivo necessário. Mas pense nessa reclamação quando baixa o CD e lesa a indústria que tenta viver, à duras penas, nessa era de modernidade e libertinagem desenfreada? Sim, LIBERTINAGEM, pois usar de sua liberdade de forma a lesar outras pessoas é CRIME.
As bandas pequenas começam a ficar sem espaço, pois sem discos e sem divulgação alguma, ficam relegadas a segundo plano, e quando não, a último plano. E quantas não foram as bandas que mudaram sua música justamente em busca de um público maior, principalmente nos anos 80, quando bandas que saiam do underground (RAVEN, PICTURE, ACCEPT, e tantas outras) e tinham seus trabalhos podados por produtores/gravadoras na busca de um público maior?
É injusto, não há como negar, mas ao mesmo tempo, as gravadoras investiam somas absurdas de dinheiro em estúdios de ponta e produtores renomados para que o disco tivesse uma aceitação maior, que chegasse a números mais expressivos em termos de vendagem. Elas investiam pesado em tudo, e buscavam retorno por seu investimento. E lembremos: quem trabalha, é digno de receber por isso. O amor deve estar associado com a gratificação pelos esforços. Uma queda de vendas representava, na época, que o trabalho não foi bem aceito, e assim, buscava-se uma nova direção ou nova estratégia mercadológica.
Um bom exemplo é o caso do SAVATAGE, pois depois de um disco bem ruim (‘Fighting For the Rock’, de 1986) e que encalhou nas lojas (apesar da ampla divulgação na mídia), voltou com o clássico ‘Hall of the Mountain King’, em 1987, ao estilo que os consagrou. Tanto gravadora quanto banda não eram imbecis, e sabiam rever as regras… Mas isso quando existia esta possibilidade.
Quando vocês não pagam pelo CD, a gravadora começa a cair de patamar, e assim, é obrigada a parar de investir, bem como ocorrem com as lojas, até que uma hora, as bandas são atingidas, e têm que rever toda sua estrutura de divulgação, uma vez que são obrigadas a investir elas mesmas. E em nosso país, dinheiro não dá em árvores.
Há ainda outros problemas, em especial dois:
01 – Quando a gravadora fecha as portas ou diminui seus investimentos, muitas bandas deixam de ter trabalhos lançados aqui, e isso acaba resultando na saída do Brasil do eixo de shows internacionais. Ora, por qual motivos uma banda iria tocar em um país onde não tem CDs? Até acontece, mas é raro (o SEPULTURA comprou uma briga homérica com o SODOM, na época da primeira tour dos mineiros na Europa, para poderem tocar na Inglaterra, onde o SODOM não tinha discos lançados). Se quer continuar trazendo bandas ao Brasil, pague pelos CDs (e obviamente, pelos ingressos);
02 – O pessoal da ‘cervejinha’, que realmente desanimam qualquer um, pois preferem beber em bares e ficar batendo papo do que pagar CDs ou shows do underground (mas já estão com ingressos pagos para o Rock in Rio, acreditem!). Particularmente, este autor abre mão da cerveja em prol dos CDs e dos shows. Cerveja podemos beber a qualquer hora, e shows, será que veremos aquela banda de novo? E CDs saem de catálogo. Este autor teve que pagar R$ 130,00 em dois CDs de uma banda que queria, e que já tiveram versão nacional. Como perdemos a chance, pagamos o preço…
Se querem fazer algo digno, não diremos para não fazerem downloads ilegais, já que suas consciência são suas. Se baixarem, ouçam, e façam como o troca-troca de tapes nos anos 80: se gostávamos do disco, economizávamos e comprávamos os CDs. E lembrem-se: foi esta geração que tornou viável o lançamento de LPs (e mais tarde, CDs e DVDs) independentes no Brasil, bem como o surgimento dos primeiros selos independentes especializados em Metal. Se não, apenas deixávamos para lá e gravávamos outra coisa no tape. Ou seja: gostaram do disco, comprem o CD ou DVD; não gostaram, apaguem o arquivo e estanquem esta sangria criminosa. Façam isso, por favor, para que a força do underground não se esvaia.
Finalizando: Se gostarem do disco, paguem pelo CD, pois nada mais justo, pois até chegar em suas mãos, dinheiro foi posto nele, e baixando ilegalmente, está roubando alguém. E esse alguém tem direito a este dinheiro, seja por seu trabalho feito ou por sua dignidade como ser humano. E é este valor que permite que lojas e selos continuem de portas abertas e investindo pesado em nossa paixão comum, que é o Metal…

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