Continuidade da Virada cultural tem de ser debatida

Estadão

20 de maio de 2013 | 02h00

Marcelo Moreira

A Virada Cultural de São Paulo é uma boa ideia que está morrendo. A violência e a organização deficiente estão enterrando uma oportunidade única de resgatar a cidadania e um pouco do orgulho que o habitante da maior cidade do país tem de viver na megalópole. É hora de repensar a continuidade do evento. É hora de discutir seriamente a validade de se aglomerar 4 milhões de pessoas na área central sem que haja condições de segurança.

A organização do evento deixou bastante a desejar em 2013, e a atual administração, do prefeito Fernando Haddad (PT), tem bastante responsabilidade na questão, mas os problemas mais graves são os de sempre, e antigos. Vinham desde a administração José Serra/Gilberto Kassab (PSDB e DEM, respectivamente).

A área da cultura sempre esteve um último plano na administração paulistana, loteada por apaniguados e servindo de moeda política para acomodar “aliados” e “colaboradores de campanha”. Para cada duas pessoas que entendem do assunto, outras cinco desconhecem totalmente o segmento e não sabem do que se trata – isso quando realmente se dão ao trabalho de trabalhar.

Ao todo, 28 adultos foram presos e 9 adolescentes acabaram apreendidos - Epitácio Pessoa/ Estadão

Epitácio Pessoa/ Estadão
Ao todo, 28 adultos foram presos e 9 adolescentes acabaram apreendidos

Faltava competência na administração anterior e falta na atual. Só que o problema ganhou dimensão maior em 2013, já que a violência aumentou demais. Não se sabe ao certo o número de arrastões – há quem fale em mais de 50. Houve duas mortes e mais de 30 prisões.

A quantidade de furtos foi muito grande, assim como os casos de agressões. São inúmeros os relatos de repórteres de vários veículos dando conta de que os crimes e agressões ocorriam ao lado de policiais militares, que simplesmente nada fizeram, com as justificativas mais estapafúrdias – é só ler as notícias anteriores sobre a Virada aqui no Combate Rock.

Quem organizou a Virada Cultural não conseguiu ter a dimensão do evento. Foi incapaz de oferecer um produto com a segurança necessária para 4 milhões de pessoas. Já escutei relatos de gente que desconfiou de que o imobilismo da PM ocorreu por motivos políticos, pois o governo do Estado de São Paulo é do PSDB e a prefeitura, do PT.

Recuso-me a acreditar em tamanho maquiavelismo. A Virada deste ano teve problemas graves, assim como em 2011 e 2012, por incompetência em todos os sentidos de organização do evento.

E não serão os “sociologismos” e “psicologias” de boteco de pseudo-intelectuais de boteco incrustados em jornais e portais de internet que vão amenizar e relativizar os problemas do evento: a segurança foi pífia e as pessoas correram perigo.

Já tem “especialista” dizendo que os problemas ocorridos nada mais são do que “reflexos de nossa sociedade/metrópole violenta” e que “não podermos virar reféns de um medo irracional de uma ameaça superestimada”, apenas para citar bobagens politicamente corretas disseminadas pela internet. O evento falhou nos quesitos mais importantes: segurança, conforto e comodidade. Sem segurança não há conforto nem comodidade.

No outro extremo, já tem gente disparando que nossa “sociedade” não está preparada para usufruir e desfrutar de espetáculos gratuitos em larga escala por absoluta falta de educação e civilidade. Mais um discursinho diversionista para tentar escamotear a incompetência da organização do evento. Então quer dizer que cinco anos atrás éramos civilizados para curtir a Virada e hoje não somos mais?

O Facebook foi prolífico em relatos de agressões variadas, roubos, furtos, arrastões, consumo industrial de drogas de todos os tipos no meio da rua, vandalismo e brigas generalizadas. Famílias que pretendiam apenas curtir os shows mudaram de ideia e voltaram para casa quando se depararam com confusões e baderna nas estações Luz, Sé e São Bento do metrô.

Tudo isso já tinha ocorrido em 2011 e 2012, mas em 2013 a situação piorou demais, e a própria PM e a prefeitura corroboram isso. A Virada Cultural paulistana é um programa perigoso, mas parece que as autoridades não estão muito preocupadas com isso.

Em 2012 defendi o fim do evento por conta da total incapacidade de prefeitura e governo do Estado de São Paulo de oferecer espetáculos gratuitos com segurança à população. Revi minha opinião ao conversar com produtores culturais, políticos sérios e artistas comprometidos e engajados.

Depois dos lamentáveis fatos deste ano, creio que é hora de rever a conveniência e a viabilidade da manutenção da Virada Cultural, quando não discutir seu cancelamento/extinção. Cultura de graça com direito a furto e pancadaria é demagogia criminosa.

 

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