Conny Plank, Gênio alemão por trás das mesas de produção

Estadão

17 de março de 2013 | 07h01

ROBERTO NASCIMENTO – O Estado de S.Paulo

Produtor associado à vanguarda do rock alemão, nos anos 70, Conny Plank (1940-1987) entrou para a história como gênio das mesas de mixagem, embora seu status de ídolo pouco lhe interessasse. Ficou conhecido por seu trabalho com Neu!, Can, Kraftwerk, Cluster, e pelo uso de técnicas seminais para o desenvolvimento do rock e da música eletrônica.

É lembrado também por ter dito não a astros como Bono Vox e David Bowie, e guardar todos os seus discos de ouro no banheiro do estúdio. “Plank só produzia quem gostava. Se não fosse com a cara do músico, nada o convenceria”, lembra Holger Czukay, membro do Can, em entrevista ao Estado. Czukay foi um dos amigos mais próximos de Plank, cujos 25 anos de morte, por câncer, foram lembrados em fevereiro pela gravadora Grönland Records, que lançou Who’s That Man – A Tribute to Conny Plank, um boxset com destaques de sua discografia e faixas inéditas.

 

“Certa vez, Eno o apresentou a Bowie, que pediu a Plank para gravar seu próximo disco. Conny foi respeitoso, mas disse ‘não’. Estava interessado no caráter dos músicos com quem trabalhava e não tinha gostado de Bowie. Foi o mesmo com Bono. O U2 quis gravar com ele no ápice de sua fama, mas Conny não queria ouvir ordens. Tinha chegado a um ponto em que podia escolher seus projetos”, continua Czukay.

As decisões inoxidáveis protegiam seu processo criativo. Plank foi um dos primeiros produtores a compreender que a mesa de mixagem é um instrumento em si.

Com isso, ajudou a criar um novo conceito de rock, tão influenciado pelo gênero americano quanto por vanguardistas alemães como Karlheinz Stockhausen, de quem foi discípulo. Seu estilo empregava efeitos de phasing, eco e delay como elementos criativos, influência tanto em Bowie quanto no jamaicano Lee “Scratch” Perry.

Vide uma de suas faixas seminais, como Hallogallo, do grupo Neu!, de 1972, obra central à proposta estética do krautrock. No caso, Conny trata a faixa com efeitos depois da gravação dos instrumentos, como um produtor de dub ou música eletrônica faria anos mais tarde. Na década de 80, bandas como New Order, Simple Minds, Eurythmics e Ultravox transformariam seus conceitos em música pop.

“Ele tinha momentos geniais. Lembro que uma vez gravou a orquestra de Bert Kaempfert com um microfone só, uma técnica completamente abandonada depois da invenção da mesa de mixagem. Ele acertou a colocação do microfone com tanta precisão, que o som ficou perfeito. Anos depois, estava em um estúdio em Nova York, com Ray Conniff, e percebeu que o produtor do músico não estava satisfeito. Tinha microfonado a orquestra de Conniff inteira, mas não achava o som certo. Conny perguntou o que havia de errado. Ele respondeu que estava procurando o som da orquestra de Bert Kaempfert. Conny, como um bom alemão, sorriu e não disse nada”, conta Czukay.

Métodos pouco ortodoxos eram a sua especialidade. Brian Eno lembrou recentemente, em entrevista à revista Frieze, a invenção de um dos primeiros sistemas de automatização para as mesas de mixagem: Plank posicionava uma câmera sobre a mesa. Batia uma foto, e no dia seguinte, depois de outra gravação, projetava a foto sobre a mesa para alinhar os botões à posição que estavam no dia anterior.

Eno, cuja parceria com Plank foi essencial durante a gravação de seu influente álbum de ambient music, Ambient 1: Music for Airports, também lembrou uma situação em que, depois de um longo dia no estúdio, Plank o levou para dar uma volta de carro. Pararam próximos a uma floresta, esperaram alguns minutos. Plank então ligou o rádio. Tocava a música em que Eno havia trabalhado durante o dia: o produtor havia montado uma antena para conseguir ouvir as gravações no carro.

“Todas as bandas da época se encontravam em seu estúdio”, conta Holger Czukay, integrante do Can e amigo íntimo de Plank. “O lugar tornou-se um antro da vanguarda europeia.” Muitas destas bandas estão presentes na coletânea lançada pela Grönland Records, embora os quatro discos revelem apenas uma fatia de sua genialidade. O primeiro disco traça um panorama das bandas com as quais colaborou. Há Neu!, os visionários do techno industrial, D.A.F. e obscuridades como Ibis.

O trio Phew, protótipo de disco funk com o magistral baterista do Can, Jaki Leibzeit, é um dos destaques. O terceiro disco contém remixes do trabalho de Plank. O quarto, um apresentação inteira, gravada no México, com Moebius, fundador do Kluster, e o músico Arno Steffen. O show mostra o lado musical de Plank, adepto de abstrações improvisadas também longe das mesas de mixagem.

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