Com inteligência, Rush soa moderno em 'Clockwork Angels'

Estadão

15 de junho de 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

Uma deliciosa volta ao passado, com bastante descontração e inteligência. Quando muita gente achava que o trio canadense Rush já não tinha mais como surpreender aos 43 anos de carreira, eis que o novo álbum, “Clockwork Angels”, que chega ao Brasil via Roadrunner Records no dia 28 de junho, mostra um grupo revigorado e mantendo o bom nível alcançado em “Snakes and Arrows”, o álbum anterior, de 2007.

Enquanto dinossauros como Rolling Stones e Deep Purple relutam em lançar álbuns novos com faixas inéditas o Rush não se intimidou: repetiu o produtor, o premiado Nick Raskulinecz, e aprofundou as pesquisas sonoras para deixar o álbum moderna sem perder a pegada progressiva, uma de suas características marcantes.

A volta ao passado pode ser detectada com músicas um pouco mais pesadas do que as que foram lançadas desde os anos 90. O álbum também é conceitual, retomando as aventuras bem-sucedidas de clássicos como “2112”, “Hemispheres” e “A Farewell to Kings”.

As músicas foram inspiradas em histórias de escritores de ficção científicas clássicos, como Júlio Verne e H.G. Wells. Como de hábito, todas as letras ficaram a cargo do baterista Neil Peart, um dos melhores letristas que o rock produziu e um apaixonado pela literatura fantástica.

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O roteiro da história traz um homem jovem, viajando por um mundo paralelo, de sonhos, com muita magia e poderes estranhos, mas alquimias e ficção científica. Mas o detalhe é que há uma ordem em tudo, uma disciplina. Cada uma das 12 músicas representa um “tema” dessa viagem no tempo-espaço. Existe a possibilidade de o conceito do álbum se transformar em um livro a ser escrito por Kevin J. Anderson, um dos mais celebrados autores de ficção científica da atualidade.

O instrumental preciso e caprichado continua o mesmo, mas o clima transmitido pela obra é mais amistoso, mas descontraído. Os solos cirúrgicos e as melodias refinadas do guitarrista Alex Lifeson estão lá, assim como o ritmo marcante do baixo de Geddy Lee, cada vez mais inventivo e abusando de passagens intrincadas, além das levadas funkeadas que foram tão características nos anos 70. Quanto a Peart, o trabalho impecável de sempre.

“Clockwork Angels” não chega a ser uma total surpresa para os fãs. As duas primeiras músicas, que abrem o trabalho, foram lançadas em um single em 2010 e incluídas na turnê chamada “Time Machine Tour”, que passou pelo Brasil. “Caravan” e “BU2B” sintetizam o que é o álbum: pesado, moderno e bastante criativo.

“Headlong Flight” resgata a tradição progressiva, com seus longos é pesados sete minutos de duração. Lifeson faz um trabalho brilhante, criando texturas sonoras para sustentar suas melodias refinadas, lembrando em alguns momentos David Gilmour (Pink Floyd) e Steve Howe (Yes).

A setentista “Seven Cities of Gold” é mais um pulo no passado, enquanto que “Halo Effect” emula novamente o rock progressivo, com suas passagens etéreas e viajantes. Uma curiosidade é a música “The Wreckers”, onde a banda resolve inventar: Lee assumiu as guitarras e Lifeson, o baixo. O resultado ficou bom, mas claramente esta não é um dos destaques.

Criativo e inovador, o Rush mostra o caminho para encontrar a qualidade e a inteligência no rock, seja qual for o estiolo ou subestilo do rock. E mostra também que o passado ainda serve como grande referência e inspiração para álbuns modernos e instigantes.

Lista de músicas:

1. Caravan
2. BU2B
3. Clockwork Angels
4. The Anarchist
5. Carnies
6. Halo Effect
7. Seven Cities of Gold
8. The Wreckers
9. Headlong Flight
10. BU2B2
11. Wish Them Well
12. The Garden

 

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