Cogumelo lança catálogo e coletânea para comemorar 30 anos de existência

Estadão

18 de junho de 2012 | 06h48

Marcelo Moreira

Quem começou o rock pesado no Brasil? A banda paraense Stress? Os cariocas do Dorsal Atlântica? Os mineiros do Sarcófago? Os paulistas do Genocídio? Cada um puxa para o seu lado, mas não tenho dúvidas em dizer quem foi o pioneiro: não foi uma banda, mas uma loja-gravadora, a mineira Cogumelo Records.

São 32 anos de existência e de incentivo ao rock pesado. Em 2010, no trigésimo aniversário, a gravadora reuniu o que tinha de melhor em seu elenco de artistas e realizou um show comemorativo, algo notável em um meio tão instável e tão sem apoio como o heavy metal brasileiro.

O Festival Cogumelo 30 Anos ocorreu no Lapa Multishow, tradicional reduto muscial de Belo Horizonte, e conseguiu resgatar a história do heavy metal nacional e mostrar o que há de novo na música extrema no Brasil. Tocaram as bandas Hammurabi, Drowned, Impurity e Sarcasmo, além de Amen Corner e a clássica Anthares.

Agora a Cogumelo coloca à disposição um catálogo com o registro de todos os lançamentos realizados pela empresa desde 1980, em um pacote que vem acompanhado por um CD coletânea com músicas de bandas como Sepultura, Chakal, Mutilator, Holocausto, Sarcófago, Vulcano, Amen Corner e muitas outras.

Poucos sabem que foi a Cogumelo Records que lançou as bandas Sepultura e Overdose. Em 1985, cada uma foi responsável por um lado do EP-split ”Bestial Devastation/Século XX. Na época, meados dos anos 80, era comum que gravadoras pequenas, sem verbas, fizessem o famosos “bem bolado”, com cada banda gravando metade de um LP ou metade de um compacto duplo – o chamado split no exterior.

Se não bastasse o apoio à maior banda de rock do Brasil, a gravadora mineira ainda teve papel decisivo nas carreiras de Sarcófago, Chakal, Mutilator e Holocausto, que figuraram na coletânea Warfare Noise, além de Sextrash, Witchhammer, Vulcano e muitas outras.

“Conseguimos sobreviver por causa da dinâmica da loja, apoiada na produtora de shows, na gravadora e editora…”, explica João Eduardo Faria, proprietário da Cogumelo, em entrevista ao jornalista Eduardo Tristão Girão, do site Divirta-se (portal mineiro Uai).

“Quando a gente produz um disco, já sabe que vai trocá-lo por outros com gravadoras de outros estados e países. Esse material é vendido aqui também. Existe um esquema de intercâmbio e parceria muito forte no mundo do heavy metal que não sei se existe em outros segmentos. Essa rede ajuda a vender produtos e mantém a cena forte. Além disso, o heavy metal, como estilo, nunca passou”, afirmou Faria. 

Assim como as gravadoras paulistas Hellion, Die Hard, Laser Company e as lojas Aqualung e Baratos Afins, a Cogumelo fez muito pela existência do rock no Brasil. Ajudou a criar uma cena fantástica, a fomentar a cultura e a moldar um estilo de vida e de cultura até então inexistentes.

Esse grupo de empreendedores conseguiu mostrar que o Brasil tinha uma cena maravilhsoa de rock e heavy metal, sem que tivesse de apelar ao comercialismo e à baixa qualidade do chamado rock brasileiro da época, com coisas  ruins como Blitz, Legião Urbana, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, RPM e coisas semelhantes – nem mesmo os bons Ira!, Titãs, Ultraje a Rigor, Plebe Rude e Paralamas do Sucesso conseguiram salvar esse cenário de horror.

Foram esse empreendedores e muitos outros que deram suporte para que Sepultura, Angra, Viper, Harppia, Dr. Sin, Wander Taffo, Kavla, Wizards, Korzus, Genocídio, Torture Squad e outros fantásticos grupos nacionais pudessem tocar no exterior e conquistar uma carreira internacional até entãom impensável para qualquer roqueiro brasileiro.

Que os 32anos da Cogumelo incentivem mais e mais pequenos empreendedores a investir em cultura e em rock pesado em tempos de mp3 e downloads ilegais. Os ouvintes de bom gosto vão agradecer eternamente.

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