Cogumelo faz 30 anos de suporte ao melhor heavy metal nacional

Estadão

28 de outubro de 2010 | 08h13

Marcelo Moreira

Quem começou o rock pesado no Brasil? A banda paraense Stress? Os cariocas do Dorsal Atlântica? Os mineiros do Sarcófago? Os paulistas do Genocídio? Cada um puxa para o seu lado, mas não tenho dúvidas em dizer quem foi o pioneiro: não foi uma banda, mas uma loja-gravadora, a mineira Cogumelo Records.

São 30 anos de existência e de incentivo ao rock pesado. No último dia 16 de outubro, a gravadora reuniu o que tinha de melhor em seu elenco de artistas e realizou um show comemorativo, algo notável em um meio tão instável e tão sem apoio como o heavy metal brasileiro.

O Festival Cogumelo 30 Anos ocorreu no Lapa Multishow, tradicional reduto muscial de Belo Horizonte, e conseguiu resgatar a história do heavy metal nacional e mostrar o que há de novo na música extrema no Brasil. Tocaram as bandas Hammurabi, Drowned, Impurity e Sarcasmo, além de Amen Corner e a clássica Anthares.

Poucos sabem que foi a Cogumelo Records que lançou as bandas Sepultura e Overdose. Em 1985, cada uma foi responsável por um lado do EP-split “Bestial Devastation/Século XX. Na época, meados dos anos 80, era comum que gravadoras pequenas, sem verbas, fizessem o famosos “bem bolado”, com cada banda gravando metade de um LP ou metade de um compacto duplo – o chamado split no exterior.

Se não bastasse o apoio à maior banda de rock do Brasil, a gravadora mineira ainda teve papel decisivo nas carreiras de Sarcófago, Chakal, Mutilator e Holocausto, que figuraram na coletânea Warfare Noise, além de Sextrash, Witchhammer, Vulcano e muitas outras.

“Conseguimos sobreviver por causa da dinâmica da loja, apoiada na produtora de shows, na gravadora e editora…”, explica João Eduardo Faria, proprietário da Cogumelo, em entrevista ao jornalista Eduardo Tristão Girão, do site Divirta-se (portal mineiro Uai).

“Quando a gente produz um disco, já sabe que vai trocá-lo por outros com gravadoras de outros estados e países. Esse material é vendido aqui também. Existe um esquema de intercâmbio e parceria muito forte no mundo do heavy metal que não sei se existe em outros segmentos. Essa rede ajuda a vender produtos e mantém a cena forte. Além disso, o heavy metal, como estilo, nunca passou”, afirmou Faria.

Assim como as gravadoras paulistas Hellion, Die Hard, Laser Company e as lojas Aqualung e Baratos Afins, a Cogumelo fez muito pela existência do rock no Brasil. Ajudou a criar uma cena fantástica, a fomentar a cultura e a moldar um estilo de vida e de cultura até então inexistentes.

Esse grupo de empreendedores conseguiu mostrar que o Brasil tinha uma cena maravilhsoa de rock e heavy metal, sem que tivesse de apelar ao comercialismo e à baixa qualidade do chamado rock brasileiro da época, com coisas absurdas de ruins como Blitz, Legião Urbana, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, RPM e porcarias semelhantes – nem mesmo os bons Ira!, Titãs, Ultraje a Rigor, Plebe Rude e Paralamas do Sucesso conseguiram salvar esse cenário de horror.

Foram esse empreendedores e muitos outros que deram suporte para que Sepultura, Angra, Viper, Harppia, Dr. Sin, Wander Taffo, Kavla, Wizards, Korzus, Genocídio, Torture Squad e outros fantásticos grupos nacionais pudessem tocar no exterior e conquistar uma carreira internacional até entãom impensável para qualquer roqueiro brasileiro.

Que os 30 anos da Cogumelo incentivem mais e mais pequenos empreendedores a investir em cultura e em rock pesado em tempos de mp3 e downloads ilegais. Os ouvintes de bom gosto vão agradecer eternamente.