Clyde Stubblefield, o mister funk

Estadão

28 de agosto de 2011 | 16h11

Roberto Nascimento – O Estado de S. Paulo

Se perguntarem quem é Clyde Stubblefield a qualquer um dos lendários rappers que subirão aos palcos do festival Black na Cena neste fim de semana, a resposta é bem capaz de ser ‘não sei’. Mas se o nome for substituído por Funky Drummer, ela estará sem dúvidas na ponta das línguas. Claro, o baterista de James Brown, arquiteto dos oito compassos mais influentes da história do hip hop.

No final dos anos 80, o solo de Clyde na faixa Funky Drummer, um single de Brown gravado quase duas décadas antes, foi sampleado por uma extensa lista de bambas que inclui Public Enemy, Beastie Boys e Run DMC. Tanto, que definiu a estética do gênero na época.

Mas quando a justiça veio atrás dos bandidos do recorta e cola, que criavam, sem saber, uma maneira revolucionária de fazer música, James Brown foi quem recebeu os cheques.

“Quando tudo isto aconteceu, Brown levou o crédito por ter introduzido algo novo na música da época. Eu não queria saber do dinheiro. Nunca me preocupei com isso. Mas queria ver meu nome lá: na bateria, Clyde Stubblefield. Isso teria valido mais do que o dinheiro dos royalties”, conta Clyde, de sua casa em Madison, Wisconsin, onde mora há anos, tendo se contentado com shows semanais em clubes pequenos.

Mas Clyde ressurgiu do ostracismo este ano por ser um dos focos do documentário Copyright Criminals, sobre a eterna discussão entre artistas sampleados, seus advogados e as mentes criativas do hip hop. O documentário foi lançado em DVD, em abril, e está disponível para streaming gratuito no site Vimeo.

Clyde Stubblefield ((Benjamin Franzen via The New York Times) -- MAGS OUT

Em parceria com os produtores do documentário, o baterista gravou uma série de levadas para serem usadas através do Creative Commons: podem ser sampleadas à vontade, mas o baterista tem de receber 15 por cento de qualquer lucro feito com o seu batuque e lógico, ter Clyde Stubblefield escrito no encarte do disco.

Junto à sua participação no filme, é um justíssimo facho de luz sobre o seu legado. De 1965 a 1970, Clyde foi o baterista titular de James Brown. Gravou faixas que estão entre as obras primas rítmicas do século XX, entre elas Cold Sweat, There Was a Time e Mother Popcorn.

Seu toque é leve e nessas canções trabalha a polirritmia mais como um baterista de jazz do que com a pulsação densificada associada com o funk. Impressiona o quão visceral é o suingue da banda ao ser conduzida com tanta elegância por Clyde. Seu parceiro de banda, John “Jabbo” Starks, responsável pela discografia de Brown a partir dos anos 70, deu mais peso à banda e definiu a pulsação do funk na década.

Não é exagero afirmar que os dois são os criadores do groove na música popular contemporânea. Mas ao contrário de seus colegas de banda, Clyde não ambicionava muito além de tocar. “Nunca quis causar um furor ou algo parecido. Nunca quis ir à Europa. Nunca soube o que era a Europa e de repente eu estava lá, fazendo turnês pelo mundo a fora”, conta o baterista

Em 2002, Clyde retirou um tumor do rim e atualmente sofre de diabete. Tem dificuldades em garantir o suficiente para pagar o seguro de saúde e recebe doações através do site Chipin.com, para ajudar com seu tratamento.

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