Chorão é mais um artista beneficiado com a 'canonização' após a morte

Estadão

08 de março de 2013 | 06h39

Marcelo Moreira

Atormentado, briguento, descontrolado e pouco profissional em algumas situações. São alguns dos adjetivos que podem ser aplicados ao cantor Chorão, do Charlie Brown Jr., em contraposição à profusão de elogios que caem em cascata após sua morte. Sua canonização, ainda que como artista tenha escapado da mediocridade por pouco, já era esperada. Nenhuma surpresa.

É inegável que a banda santista teve bastante importância por algum tempo, no final dos anos 90 e comecinho dos anos 2000, mas há jornalista e crítico musical por aí tratando-o como um estupendo nome do rock nacional, alguns até tentando transformar em um ídolo do porte de Renato Russo ou Cazuza.

Quinze minutos de cobertura do velório no SP TV, da TV Globo, é inacreditável, e estapeia qualquer critério de bom jornalismo. A morte às vezes tem esse poder, mas é bom sempre alguém colocar as coisas em seus devidos lugares – ao menos por um segundo.

O Charlie Brown Jr. passou por um período em baixa na primeira década deste século. Possui uma grande quantidade de fãs ainda, mas eles não foram suficientes para que o grupo mantivesse a alta popularidade de outrora e mesmo o nível artístico. Assim como os Raimundos, teve uma queda e se virava como podia.

As coisas pareciam estar melhorando desde 2011, quando a banda voltou a ter algumas músicas nas paradas de rádio FM, segundo o ranking da revista Billboard Brasil. Ainda assim, era muito pouco para um grupo que fez muito sucesso.

Chato em termos profissionais, mas persistente, autêntico e honesto, Chorão também era obstinado e a banda não seria o que foi sem isso. Ele era o coração e a alma do grupo. O que não justifica o comportamento errático e às vezes antiprofissional, como as brigas em aeroportos com músicos de outras bandas ou as descomposturas públicas que dava nos próprios membros do Charlie Brown Jr. O baixista e guitarrista Champignon que o diga, vítima de um abjeto acesso de raiva do cantor no meio de um show, no palco, no interior do Paraná em 2011.

Chorão mereceu o sucesso por sua obstinação e persistência, e seus fãs reconhecem o seu esforço.  Colegas de trabalho também. No Facebook, o cantor Edu Falaschi, do Almah e ex-vocal do Angra, narra a amizade que teve na adolescência, em São Vicente, na Baixada Santista, com integrantes do Charlie Brown Jr. Fala sobre a boa qualidade técnica deles e da luta que a banda de Chorão teve para conseguir um lugar no mercado, sempre com a liderança e obstinação do cantor. Falaschi não era amigo do vocalista morto, mas demonstra um respeito enorme por seu trabalho – e é assim de deve ser.

Tudo isso, no entanto, não é suficiente para esconder as deficiências da banda Charlie Brown Jr.: o grupo tinha bons instrumentistas, mas sempre foi de segundo escalão no rock nacional. O seu pop pegajoso, despretensioso e até mesmo displicente cativou parte de um público que tinha se cansado do pop rock dos medalhões dos anos 80 ou do pop certinho demais do Skank. A saída era abraçar a desgraceira quase punk dos Raimundos ou o despojamento com certo peso e visual skatista do Charlie Brown Jr.

Mas é fato: a maioria da músicas do Charlie Brown Jr. era primária e infantil, com arranjos pobres e letras ruins e repetitivas. De todos os integrantes da formação clássica, Chorão era de longe o mais fraco. Nos seus melhores momentos, nunca passou de um cantor mediano, ainda que fosse bastante carismático e tivesse uma impressionante presença de palco para um vocalista com poucos recursos.

É evidente que havia algum talento no grupo, mas ele era bem menor do que o senso comum dizia. Tanto é que nunca superou a barreira que o separava das grandes bandas nacionais. Nunca produziu um álbum ou uma música memorável. Tem o mérito de ter chegado onde chegou derrubando muros e lutando contra o descaso e o desprezo de uma indústria musical e incompetente que se especializou em apostar em armações e atrações fabricadas e artificiais. Mas não tem o estofo para figurar entre as grandes bandas.

Nada disso importa para os fãs da banda, que ainda são numerosos. O legado que fica de Chorão é a obstinação e a persistência, além de perspicácia ao encontrar um nicho pouco explorado, o de fãs órfãos do pop rock insosso e arrogante que dominou o Brasil no fim dos anos 90. O Charlie Brown Jr. foi uma das vozes desse pessoal cansado da mesmice, mas nunca realmente chegou a ser uma grande banda, nunca passou do segundo escalão. Mais do que isso é brigar com a notícia.

Clique aqui e assista à reportagem “Rock brasileiro perde seu último bad boy”, da TV Estadão.

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