Chega de choradeira no metal nacional

Estadão

19 de janeiro de 2011 | 08h35

Marcelo Moreira

De vez em quando bate um ressentimento em algum músico brasileiro de heavy metal e aí começa um rosário de reclamações e queixas sobre a falta de apoio ao estilo no Brasil, sobre a preferência de parte do público aos artistas estrangeiros e de como eles são dedicados e “heróis” por “defenderem” o metal brasileiro e outras pataquadas.

Desta vez o autor das lamúrias é Thiago Bianchi, atual vocalista do Shaman e produtor musical bastante requisitado. Ele enviou uma carta há algumas semanas a vários sites e revistas especializadas reclamando do que chama de “fim de linha do heavy metal brasileiro”. Leia a íntegra da carta aberta aqui.

Em janeiro de 2oo9 a cantilena foi a mesma: alguns músicos brasileiros importantes do heavy metal choramingando a preferência do público por bandas estrangeiras, em vez de apoiar quem batalha pelos botecos da vida divulgando material próprio.

Eduardo Ardanuy, guitarrista do Dr. Sin, é um dos melhores que já vi ao vivo. O estupendo músico concedeu uma entrevista na edição de janeiro de 2009 à revista Roadie Crew, onde fala do lançamento de seu CD solo, “Electric Nightmare”.

No meio do texto, reclama de novo da falta de apoio aos músicos nacionais. “O público brasileiro continua ‘paga-pau’ de gringo, prefere gastar R$ 300 para ver o Judas Priest do que R$ 20 ou R$ 30 para assistir a uma boa banda nacional”, diz o músico, cheio de rancor.

Thiago Bianchi

Essa é uma batalha perdida e esse tipo de lamento já encheu a paciência. Se Thiago Bianchi e o Dr. Sin – banda maravilhosa – não fazem tantos shows quanto gostariam, não adianta culpar o público de shows internacionais. Por mais que o Dr. Sin seja bom – e, repito, é excelente – qual banda você veria se os shows fossem simultâneos? A citada Dr. Sin ou o AC/DC? Dr. Sin ou Black Sabbath? Dr. Sin ou Iron Maiden?

Parece que falta um pouco de bom senso a alguns músicos nacionais. Não é simplesmente uma questão de qualidade – as bandas de rock citadas e milhares de outras são melhores do que o Dr. Sin. É uma questão de oportunidade.

O AC/DC, por exemplo, já tocou mais de 30 vezes na cidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, uma espécie de Belo Horizonte americana. E só vieram três vezes ao Brasil.

A América do Sul não é rota assídua de shows internacionais, embora a situação esteja melhorando bastante. Então é natural que, quando uma banda estrangeira aporte por aqui, mesmo que de porte médio, ganhe a atenção do público.

É o caso dos alemães do Grave Digger, metal tradicional dos melhores, mas que nunca passou de uma banda mediana em termos de público em seus 30 anos de carreira. Entretanto, quando vem ao Brasil – e já veio cinco vezes – lota seus shows.  

Por outro lado, é cada vez mais comum vermos shows do Dr. Sin no Brasil, assim como os do Angra, da banda de André Matos, do Almah de Edu Falaschi (Angra) e até mesmo do Krisiun. Todas essas bandas tocam com bastante regularidade e lotam seus shows. 

Bianchi escreveu muito, mas disse muito pouco. Clamar pela união do metal e blábláblá blá sobre a falta de apoio não resolve e não vai resolver. Conclamar os amantes do heavy metal brasileiro a entupir caixas de e-mails de emissoras de rádio, TV, jornais e revistas para que ampliem a cobertura do gênero também não é uma alternativa viável  – na verdade, é bisonha.

O próprio Bianchi cita várias bandas brasileiras de qualidade em sua carta. Então o que está errado? Culpar a mídia não ajuda, é só uma forma de transferir a responsabilidade por uma situação supostamente desastrosa – será que realmente é?

A cada dia aparecem bandas novas brasileiras e bandas antigas nas páginas de revistas e sites especializados anunciando o lançamento de seus novos trabalhos em CD e em formato digital. Não me consta que todas essas bandas façam isso apenas por hobby. Alguma luz ou alguma esperança de retorno, mesmo que pequeno, existe. Então por que continuar a choramingar?

É ilusão achar que o heavy metal brasileiro terá algum espaço compatível com a sua importância. E não adianta culpar a imprensa e o público. É de se perguntar o porquê de o próprio público do metal nacional ser tão infiel.

 O que acontece? Falta organização? Falta qualidade? Falta comunicação? Falta inteligência? Falta tudo isso ao mesmo tempo? Ora, se nem os produtores acostumados a trabalhar no meio investem, o que fazer então? Tentar encher casas de show por decreto?

O metal nunca será popular no Brasil como é na Europa e como já foi nos Estados Unidos – e é raro algum músico norte-americano renomado ficar reclamando de falta de apoio. Trabalhar muito e sempre é a única solução – e isso Bianchi e Ardanuy fazem e são referência no mercado. Reclamar em público sobre falta de apoio não passa, infelizmente, de choramingo inútil.

P.S.: Bianchi divulgou neste dia 18 de janeiro em vários sites especializados mais uma carta aberta onde continua desenvolvendo o tema que comentei acima, mas agora com várias propostas legais para incrementar o que ele chama de cena heavy metal brasileira. Todas as sugestões dele têm o meu total apoio e me antecipo em colocar à disposição este humilde espaço do Combate Rock para divulgar as iniciativas. Entretanto, não mudo uma vírgula do texto acima. Chega de choradeira e mãos à obra. Parece que é exatamente isso que Thiago Bianchi está fazendo.

Leia a nova carta aberta de Thiago Bianchi aqui.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: