Chega ao Brasil livro sobre Bruce Springsteen

Estadão

01 Setembro 2013 | 06h54

Jotabê Medeiros – O Estado de S.Paulo

O apelido The Boss, o chefão, não veio à toa. Uma vez Bruce Springsteen pegou um dos músicos da banda com uma colher de pó branco no nariz de outro músico e não teve dúvidas: “Se os vir com isso de novo, estão demitidos!”. Mas ele nega que a origem seja seu rigor e pulso firme – diz que foi ele mesmo quem inventou o apelido por causa de sua habilidade em jogar Banco Imobiliário com os colegas.

 Biografia de Bruce não lembra em nada história turbulenta do rock - Divulgação

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Biografia de Bruce não lembra em nada história turbulenta do rock

A biografia Bruce, de Peter Ames Carlin (Editora Nossa Cultura, 519 páginas), acaba de chegar ao Brasil e conta tintim por tintim como foi construído o mito de um dos maiores artistas do rock americano, que estará no Brasil no Rock in Rio (e fará show no dia 18 de setembro no Espaço das Américas, em São Paulo). Bruce Springsteen só esteve uma vez no Brasil, em 1988, para uma jornada beneficente da Anistia Internacional, e tocou no Parque Antártica. O biógrafo, Peter Carlin, virá ao País para lançar o livro e estará em São Paulo no dia 19 de setembro.

Filho de um operário eternamente em busca de emprego e de uma secretária, Springsteen nasceu em 1949 em Freehold, New Jersey, uma pequena cidade industrial, e 30 anos depois era tão famoso que “até mesmo Ronald Reagan já ouvira falar nele”, ironizou o jornal The Guardian. O autor descreve a saga artística de Springsteen, mas também não se furta à devassa íntima, revelando certa voracidade sexual. Entre outras cenas, mostra como duas namoradas, a fotógrafa Lynn Goldsmith e a atriz Joyce Hyser, montaram um barraco por ciúmes do astro num quarto do Navarro Hotel.

Apesar disso, a história de Bruce Springsteen é a antítese da história turbulenta dos rock stars em geral: ele não usou drogas, não fuma, não bebe, não cometeu sandices em quartos de hotel, não bateu em ninguém que não merecesse. Adolescente cabeludo como todos de então, cresceu fascinado pelos cantores-compositores de sua época, como Tim Buckley e Leonard Cohen. Em sua cidade natal, Freehold, ele integrou sua primeira banda, The Castiles (cujo fundador, o baterista e cabo dos fuzileiros Bart Haynes, foi morto na Guerra do Vietnã), com quem gravou a primeira canção, That’s What You Get.

Ao longo dos anos, brigas com gravadoras, embates criativos com músicos e parceiros, a disputa dos jornalistas especializados para enquadrá-lo num rótulo, tudo está no volume. Nada escapou a Carlin: até uma prisão por dirigir bêbado nos anos 1970 está descrita. “Quando tentou dizer aos policiais que ele era Bruce Springsteen, eles reviraram os olhos, pegaram as algemas e o levaram para a cadeia.”

O livro é fundamental para quem quer conhecer as circunstâncias e os processos que gestaram todos os grandes clássicos de Bruce e seus discos fundamentais, como Born to Run, The Ghost of Tom Joad e Tunnel of Love. “As avaliações críticas saudando Born to Run davam a impressão de reportagens sobre a segunda vinda de Jesus”, brinca o autor. O implacável Lester Bangs, por exemplo, escreveu: “Em uma época sórdida de desejos contidos, a música de Springsteen é majestosa e apaixonada. Podemos nos elevar com ela, apreciando a agitação inebriante de um garoto talentoso navegando no pico de sua criatividade e sentimos sua música e poesia na medida em que ele atinge o Nirvana”.

Springsteen era saudado como um novo Dylan. O sucesso de crítica e o sucesso comercial são examinados com igual atenção pelo escritor. Por exemplo, Streets of Philadelphia, a música-tema do filme Filadélfia, estrelado por Tom Hanks em 1993, vendeu meio milhão de cópias e ficou em primeiro lugar nas paradas em oito países. “Construída sobre um loop de bateria levemente funk, com acordes de sintetizador e órgão e um coro de fundo, a letra triste é tão simplesmente declarada quanto as poucas notas que completam a melodia. Se os acordes sobem para a ponte da canção, nem eles nem o narrador estão se dirigindo para algo celestial: ‘Nenhum anjo vai me acolher’, ele canta, sem expressão alguma. ‘Somos somente eu e você, meu amigo’”.

O processo de construção da carreira mistura-se à da construção da vida pessoal. Os casamentos começam e acabam no palco, como aconteceu com a backing vocal Patti Scialfa (com quem teve dois filhos). A adesão a causas humanitárias custou-lhe caro – foi ridicularizado por parte da imprensa (houve uma edição da Esquire cujo título era Santo Boss – A fama crucificou Bruce Springsteen?). Pelo tamanho da lenda que se aproxima do Brasil, já se vê a resposta.

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