Charlie Watts e seu outro quarteto

Estadão

02 de junho de 2012 | 22h30

Jotabê Medeiros

Mais fleumático dos Rolling Stones, o baterista Charlie Watts, de 71 anos (faz aniversário justamente hoje), deve contar nos dedos das mãos as fotos que o mostram sorrindo. Mas há uma situação em que ele se diverte desbragadamente: é quando está fazendo shows com alguns amigos de improvisação que o acompanham há três anos, o grupo A, B, C & D of Boogie Woogie.

Charlie e seus amigos tocam exatamente isso: boogie woogie, um tipo de blues orientado pelo piano, acelerado, que se desenvolveu especialmente no Texas e no Sul americano (teve expoentes em Fats Domino, Big Joe Turner e Little Richard).

Em setembro de 2010, Charlie e sua banda fizeram uma residência tocando basicamente esse tipo de música no Duc des Lombards, um clube jazzístico de Paris, e agora estão lançando o disco que registra algumas daquelas apresentações. O lançamento do álbum The A, B, C & D of Boogie Woogie é da Eagle/ST2 e chega ao Brasil no dia 11.

Ocorre que os Stones estão completando 50 anos de estrada – o grupo se apresentou pela primeira vez em 12 de julho de 1962, no mítico Marquee Club, em Londres. Mas Charlie, que falou ao Estado de S. Paulo por telefone, de seu escritório em Londres, pediu à sua assessoria que não fossem feitas perguntas sobre sua banda mais famosa. Ainda assim, respondeu a três delas, a contragosto.

“Seria adorável voltar ao Brasil para tocar jazz”, ele falou. “Lembro bem da última vez no Palladium, em São Paulo. O lugar era um tanto estranho, era um complexo de cinemas, não era?”, perguntou.

O quarteto de Charlie Watts: Axel Zwingenberger (esq.), Ben Waters, Watts e Dave Green

Por causa de Charlie, os Stones só vão excursionar no ano que vem. Eles só consideram o ano de 2013, quando Charlie se juntou definitivamente ao grupo, como a data inaugural da banda. “Digamos que 2012 seja o ano da concepção, mas o nascimento é no ano seguinte”, brincou Keith Richards. Já Ron Wood, em entrevista no ano passado, disse que a turnê do grupo começa quando Charlie terminar sua agenda de jazz.

Charlie Watts ama tanto o jazz que toca por amor à arte – o que ganha, garantem empresários, não daria para pagar o feno de seus cavalos puro-sangue que cria em fazenda na Inglaterra. Ama também o R&B e o blues, e não é o único na banda: quando os Stones começaram sua carreira, seu primeiro disco, gravado em 27 de outubro de 1962, tinha as seguintes canções: Soon Forgotten, de Muddy Waters; Close Together, de Jimmy Reed; e You Can’t Judge a Book (By Loooking at the Cover), de Bo Diddley.

Ele já se comprometeu com uma temporada como “músico residente” no Iridium Club (na Broadway, em Nova York), entre o dia 29 deste mês e o dia 2 de julho. Vai tocar oito sets com a banda jazzística. Logo em seguida, também fará um tributo ao guitarrista Les Paul com o Les Paul Trio. Ele não é o único com sangue stoniano a excursionar este ano: Mick Taylor também esteve no Iridium no mês que passou.

Seus companheiros na banda Boogie Woogie são sujeitos que se acostumaram à sombra, não têm protagonismo sozinhos. O mais proeminente deles, e também líder do grupo, é o pianista e cantor Ben Waters (primo de PJ Harvey). Waters, no ano passado, já tinha capitaneado um álbum com os Stones como convidados, o disco Boogie4Stu (também da ST2), em homenagem ao pianista Ian Stewart (outro ex-Rolling Stone de sua primeira fase).

Além de Watts, Ron Wood, Bill Wyman, Keith Richards e Mick Jagger participam do álbum. Os outros colegas do quarteto anônimo são Axel Zwingenberger (piano também) e Dave Green (baixo).

Charlie Watts sofreu com um câncer de garganta em 2004, mas passou por tratamento de quimioterapia e se recuperou bem. Tem um estilo de vida discreto. Ironicamente, em 2005, morreu o primeiro baterista dos Stones, Carlo Little (codinome de Carl O’Neil Little), aos 66 anos, de câncer no pulmão. Ele integrou brevemente o grupo, em seu início, em algumas turnês, mas preferiu trocar de banda, entrando para Cyril Davies and The All Stars. Foi ele quem levou Watts para os Stones.

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