Charles Lloyd, uma atuação magnética no BMW Jazz Festival

Estadão

12 de junho de 2012 | 12h00

Lauro Lisboa Garcia – ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

O público paulistano de jazz tem sido bem contemplado neste 2012. Depois de shows marcantes num dos palcos da Virada Cultural, o BMW Jazz Festival não deixou por menos. Trouxe ícones, como Charles Lloyd, Chick Corea e Stanley Clarke, e abriu espaço para novidades inéditas no País, com as jovens revelações Trombone Shorty, Ambrose Akinmusire, Ninety Miles e Darcy James Argue’s Secret Society.

Em sua segunda e bem equilibrada edição, o BMW Jazz Festival confirma sua importância no circuito brasileiro, com curadoria de especialistas como Monique Gardenberg e Zuza Homem de Mello, escolados na produção de outros festivais do gênero (TIM Festival e Free Jazz) que fizeram história, ao lado do saxofonista Zé Nogueira e do produtor Pedrinho Albuquerque.

Em três noites na Via Funchal, o festival promoveu um significativo panorama do jazz contemporâneo, com nomes que ainda vão dar muito o que falar e veteranos que continuam mais vivos do que nunca.

Ícone do saxofone, Charles Lloyd e seu quarteto – formado por Jason Moran (piano), Reuben Rogers (contrabaixo acústico) e Eric Harland (bateria) – encerraram o festival já no início da madrugada de ontem, com uma performance magnética, memorável.

Como Ambrose Akinmusire na primeira noite, Lloyd abriu espaço generoso para seus companheiros brilharem. E ele próprio, entre momentos pulsantes de outros de extrema delicadeza, mexeu com a emoção da embasbacada plateia, que apreciava cada nota, cada passagem com um silêncio digno de um culto.

Charles Lloyd encantou em São Paulo (FOTO SERGIO CASTRO/AE)

Difícil classificar o estilo de Lloyd, que já deixou sua marca em tantas escolas e tendências do jazz e parece ter atingido o estágio sublime da música em estado de graça, que faz levitar. Os jovens músicos que o acompanham e que fazem o mestre vibrar com punho cerrado e sorrisos de satisfação, trazem referências de gigantes como Thelonious Monk e John Coltrane. Numa palavra: gratificante.

Versatilidade. Como em 2011, o lado mais pop, puxado para o funk/soul, teve seus bons representantes, o maior deles o lendário saxofonista Maceo Parker, que formatou a sonoridade do papa do funk James Brown.

O versátil Trombone Shorty – que além de trombone toca trompete, canta muito bem e até foi para a bateria no fim do show de sábado – tem tudo para se tornar um ídolo pop. Seu som com a Orleans Avenue tem o punch de uma banda de rock, mesclado com jazz e funk clássico. O jovem guitarrista Pete Murano fez várias referências a Jimi Hendrix, James Brown e Santana, em impressionante atuação.

Carismático showman, Shorty impressionou o público com sua elétrica performance, recriou de maneira muito peculiar o clássico St. James Infirmary Blues, brincando com o famoso refrão de Cab Caloway em Hi-de-Ho, homenageou Ray Charles com o rhythm and blues I Got a Woman. Até usou o velho truque da respiração circular para dar a impressão de ter fôlego de super-homem, sustentando uma nota no trompete por mais de dois minutos. Desnecessário. No fim, todos os músicos trocaram de instrumentos uns com os outros, o que arrebatou de vez o público que lotava a casa.

Com esses elementos todos em cena, o jovem músico dificultou a vida de Maceo Parker e sua trupe, cujo show, um tanto sisudo, demorou a engrenar. Começou a esquentar quando os convidados Fred Wesley e Pee Wee Ellis se juntaram a ele.

Muita gente esperava ouvir os clássicos de James Brown, o que veio somente no bis, com Doin’ It to Death, Pass the Peas e Soul Power. Parker também homenageou Ray Charles, com uma bela versão de You Don’t Know. Só foi de mau gosto usar óculos escuros durante essa canção. No domingo à tarde, em show ao ar livre no Parque do Ibirapuera, a banda tocou para 15 mil pessoas.

Os shows do meio de cada noite foram os mais calorosos e alegres – Toninho Ferragutti, Bebê Kramer e convidados na sexta, Trombone Shorty no sábado e o Ninety Miles, que trouxe contagiante fusão de ritmos latinos com o jazz tradicional.

 Outros shows foram marcados por hipnótica sutileza, como o acústico de Chick Corea, Stanley Clarke (que mais do que nunca comprovou sua genialidade ao contrabaixo) e Lenny White, o do Clayton Brothers Quintet e o da lenda do saxofone Charles Lloyd.

A Darcy James Argue’s Secret Society, primeira atração de domingo, surpreendeu com seu novo conceito de big band, um misto de música de concerto e pop, quase rock, “tradição e inovação”, com destaque para a suíte Brooklyn Babylon e um tema com approach de samba.

Únicos brasileiros no festival, Ferragutti e Kramer incrementaram o duo com uma superbanda de músicos tarimbados, receberam Adelson Viana e Gabriel Levy como convidados e cativaram a plateia de primeira. Temas de choro (tido como o jazz brasileiro) e baião se destacaram no ótimo repertório, que teve até percussão de influência árabe.

Na chuvosa e fria noite de sexta-feira, muita gente reclamou de ter de passar até 50 minutos na fila para pegar o ingresso adquirido pela internet. Com isso, muitos perderam parte do primeiro show, que já tinha começado com 20 minutos de atraso. No sábado e no domingo, porém, tudo correu sem problemas.

OUTROS DESTAQUES:

* Trombone Shorty – Com porte de popstar, o jovem trombonista eletrizou a plateia do festival na noite de sábado, com seu misto de jazz, soul, funk e rock.

* Maceo Parker – Músico que definiu o som do papa do funk James Brown, o saxofonista fez dois shows, deixando os clássicos esperados pelo público para o final.

* Chick Corea e Stanley Clarke – Gigantes do jazz em plena forma, os veteranos deram uma aula de boa música e dinâmica de grupo ao lado de Lenny White, em belo concerto acústico.

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